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500 Almas

Docudrama de Joel Pizzini explora o universo mítico e existencial da cultura guató

Cid Nader
28 de Junho de 2007

500 Almas

500 Almas

500 Almas
Brasil , 2006 - 105
Documentário / Drama

Direção:
Joel Pizzini

Roteiro:
Joel Pizzini

Elenco:
Paulo José, Matheus Nachtergaele, Stefanie Lars

Ótimo
2
3
4

Como poderia ser classificado 500 Almas, longa do diretor Joel Pizzini? Pensando em categorias de locadora: ficção, documentário ou documentário com elementos ficcionais? Quando há dúvida na hora de classificar, como neste caso, fica evidente que o diretor transita numa esfera à parte do que se imagina como normalidade no cinema atual.

Os filmes de Pizzini normalmente se distanciam do facilmente classificável. Sua obra tem uma coerência e ousadia estética que aponta para a arte fina, bem elaborada, um grande artista com uma visão plástica muito particular do cinema; um "poeta imagético". Ele tem construído sua carreira de maneira muito mais vinculada ao mundo dos curtas-metragens, mas sempre muito próximo de uma narrativa que procura eximir-se da culpa que acarretaria o comodismo, enveredando na busca de outros modos de contar "histórias"; e nesse aparentemente eterno processo, percebeu como poucos que dá sim para contá-las através de imagens, músicas, colagens, poesia, vagarosidade (no melhor dos sentidos), decupagem; passou a colocar em prática as possibilidades que talvez somente o cinema ofereça, e que parecem assustar outros autores.

Pode até parecer engraçado se construir um filme de modo não obrigatoriamente conduzido via narração - como é o caso de 500 Almas - quando o próprio trabalho parte do pressuposto de que a "língua", o modo "oral", talvez seja o maior elemento de identificação, de união, de manutenção dos povos, de uma civilização. Pizzini parte dessa idéia universal - aditivando-a de outros elementos como a música, alguns costumes, instrumentos físicos - para contar como foi possível perceber que a tribo dos índios Guatós, um antigo, milenar, povo da região do Pantanal mato-grossense, não havia sido extinto da face da Terra como se apregoava desde a década de 60.

Quando resolveu investigar, com seu modo muito particular de trabalho, a verdade dessa afirmação que falava em não mais remanescentes da tribo de índios Guatós, o cineasta percebeu que além da ajuda valiosa de uma missionária, um padre e de alguns outros "entendidos" no assunto, ele precisaria entender o resgate de palavras e do modo de falar dos Guatós. Tribo caracterizada pelo instinto nômade, foram facilmente "perdidos" por quem se interessava em algum tipo de proteção aos povos nativos da pátria Brasil. Como não mantinham tradição de propriedade e não se vinculavam a terras ou espaços únicos, por um instante sumiram do mapa e foram dados como extintos.

E até por conta desse eterno deslocamento, não mantiveram tradição de relacionamento mais restrito com os seus, acabando por se miscigenar além do imaginado - o que também resultou numa espécie de falta de reconhecimento próprio.

A história que o diretor conta deles é recheada de lirismo e poesia - Pizzini sabe como fazer isso. Mas não há um excesso de imaginação - e isso é ponto a favor do filme - no trabalho para "poetisar" e "ludicidar" o assunto. Sim, o filme é esplendidamente fotografado e montado num ritmo que por vezes beira o onírico. As passagens são aglutinadas de modo a capturar o espectador pela emoção originada da constatação de quão o simples pode ser o belo; e suficiente.

Mas não há invenção. Quando se opta pela explicitação de algumas palavras recitadas por remanescentes - sempre com dúvidas quanto ao real significado ou sobre a pronúncia (sim, aí se percebe nitidamente que se eles não foram extintos totalmente, o que sobrou de autoconhecimento ficou muito nebuloso, indefinido - isso num "amplo" aspecto populacional, num extrapolar de pequenas famílias, as tais 500 almas). Quando se percebe que a mesma palavra que designa "galinha preta" também o é para "céu noturno" (a palavra única simplifica o dado que refere à escuridão, ao negro), por exemplo, percebe-se que o trabalho estará tomando a decisão de se amparar nas singelezas e simplicidades mais facilmente perceptíveis dos Guatós e de sua cultura, para delinear seu verdadeiro rumo.

O diretor tem a capacidade inquestionável de trabalhar com registros "poéticos" como poucos, e, como já citei, tem feito disso sua marca registrada. Mas o que é mais notável nesse belo trabalho é perceber que ele sabe fazer isso sem se apoderar das nuances em benefício de uma estética própria. Muito ao contrário. O que ele faz é saber se ajustar aos temas que conta. No caso de 500 Almas, talvez isso fique mais nítido por se tratar de um longa-metragem. Talvez, porque a história seja linda mesmo. Talvez, porque identifica o traço da linguagem - principalmente, até porque não é somente nesse traço que o filme se ampara - como o maior e mais "pronto" modo de reconhecimento a remexer em nossos instintos, sentimentos, mais interiores.

Ah: e o tal lado ficcional também é bastante correto, não invasivo e respeitador.

Cid Nader é editor do site cinequanon.art.br

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