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A Broadway invade as telas

A Broadway invade as telas

Marcelo Hessel
15 de Novembro de 2001

Normalmente, as peças da Broadway costumam ser associadas a coreografias de New York, New York, maquiagens de Cats ou músicas de O Fantasma da Ópera. Mas o circuito nova iorquino de teatro já teve dias de genuíno Rock and Roll. Em 1970, o quarteto inglês The Who invadiu a cidade com a turnê retumbante do disco Tommy, o primeiro registro de ópera-rock da história. Hoje, muitas dessas idéias inovadoras se encontram no chamado espaço "off-Broadway", obras de baixo orçamento, produção inferior e conceitos arrojados. Com uma trilha sonora cativante e uma ótima história, o ator e roteirista John Cameron Mitchell e o músico Stephen Trask fizeram de Hedwig and The Angry Inch um sucesso gigantesco - comparável ao estouro de Tommy.

Depois de conquistar público e crítica, a peça se expandiu para o país todo. E virou filme. Hedwig - Rock, Amor e Traição (EUA, 2000), dirigido por Mitchell, adapta todos os aspectos do palco para a tela, de figurino e elenco à musica e roteiro. Hedwig (Mitchell) nasceu na Alemanha Oriental em plena época de bipolaridade política. Ao mesmo tempo em que ouvia David Bowie e Lou Reed pela estação de rádio das Forças Americanas, o garoto desenvolveu uma sensibilidade, digamos, apurada. Um dia, conhece Luther (Maurice Dean Wint), um recruta dos EUA, e se apaixona (as balas de gelatina nunca mais serão as mesmas depois dessa cena, pode confiar). Para poder se casar e viver com o soldado na América, Hansel - seu nome de nascimento - precisa trocar de sexo. Assim, depois de uma operação complicada, adota o nome da mãe e parte para a sua nova vida de mulher.

Claro, não demora muito até que Hedwig seja abandonada pelo marido. Anos mais tarde, sozinha, enquanto assiste à queda do Muro de Berlim, ela toma uma atitude brusca. Decide se dedicar à musica. Logo, Hedwig arruma um fã ardoroso, o jovem Tommy (Michael Pitt), e lhe ensina tudo aquilo que se refere a sexo e Rock. Um dia, o moleque também a abandona, para seguir carreira sob o nome de Tommy Gnosis. Em meio à indignação e à solidão, Hedwig junta alguns amigos e funda a "Hedwig and The Angry Inch", uma banda "internacionalmente ignorada", dedicada às letras autobiográficas e ao "Glam Rock" de seus ídolos de infância.

Toda essa salada narrativa ganha qualidade com o humor e o desempenho ímpar de John Mitchell. Ao estilo de Priscilla, A Rainha do Deserto, o ator monta o seu espetáculo e a sua mensagem de forma extremamente cativante. Mas há uma diferença: enquanto Priscilla se notabilizou pelo resgate dos clássicos de discoteca, Hedwig apresenta uma trilha sonora roqueira. Graças a Trask, o compositor de todas as canções do filme, qualquer preconceito machista se dissolve logo no primeiro número musical. O que se vê na tela parece, realmente, uma grande atração da Broadway. Mas com piadas inteligentes, Rock básico, roteiro engenhoso e resultado empolgante.

Imagens © Fine Line Pictures


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