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A Vida dos Outros

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro não cumpre com as próprias expectativas

Marcelo Hessel
29 de Novembro de 2007

A Vida dos Outros

A Vida dos Outros

Das Leben der Anderen
Alemanha , 2006 - 134
Drama

Direção:
Florian Henckel von Donnersmarck

Roteiro:
Florian Henckel von Donnersmarck

Elenco:
Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme

Bom
a vida dos outros
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Não se ganha um Oscar impunemente. A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006) começa prometendo um olhar novo sobre a relação entre algozes e vítimas, mas no fim só entrega o monólogo humanista que enche os olhos de quem não se arrisca a repensar maniqueísmos.

Vencedor da Academia na categoria de melhor estrangeiro em 2007, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck começa realmente bem - mais exatamente, em 1984, Berlim oriental. O centro da trama não são os vigiados do regime comunista alemão, mas os vigias. Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) trabalha a serviço da causa vermelha, espionando, interrogando e descobrindo potenciais conspiradores. Wiesler se orgulha do sistema e, principalmente, se orgulha dos seus métodos.

E Wiesler decide que conseguirá desmascarar o dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), queridinho do Partido Comunista, cujas peças exaltam o regime. Wiesler acredita que o círculo teatral de Dreyman está infestado de colaboradores do capitalismo, com ligação direta com a Berlim ocidental. O Muro ainda está cinco anos longe de cair - Dreyman representa um perigo aos olhos de Wiesler, portanto terá sua privacidade vigiada.

A partir do momento em que elege a perspectiva voyeurística de Wiesler como principal, A Vida dos Outros nos coloca numa posição rara dentro dos filmes que denunciam abusos ideológicos de guerra: estamos do lado inconfessável dos carrascos. É pelo ponto de vista do espião que assistiremos ao drama de Dreyman - grampeando seus telefones, observando suas janelas, monitorando seus mínimos movimentos e sons dentro de casa.

Daí o nome do filme: a vida de Wiesler passa a ser a vida do outro, Dreyman.

Essa é a promessa feita por von Donnersmarck na forma como constrói a bela introdução. E o que espanta mais, na metade do filme, não é o talento com que o diretor nos conduziu até ali. O que espanta mais é a maneira como Florian von Donnersmarck abandona a premissa do meio para o fim.

O diretor praticamente dispensa Wiesler como seu "intermediário" no momento em que a câmera se vira para o drama de Dreyman. A Vida dos Outros elimina o filtro do espião e coloca o espectador no lugar do dramaturgo acossado - com todo tipo de instrumento de individualização do drama, close-ups, fluxos de pensamentos...

E daí é ladeira abaixo. Sai de cena o ambíguo Wiesler e sobram os personagens planos, maniqueístas, como os amigos idealistas de Dreyman ou chefe de espionagem Grubitz, a quem é dado tempo de tela demais para o papel óbvio que lhe cabia. O dilema moral em que o vigia Wiesler estava inserido - ao "trocar" de vida com o seu vigiado, ele passa a compreender as motivações do outro, que são completamente opostas às suas - é largado ao meio do caminho.

No fim perde-se a compreensão do carrasco - única humanização que tinha genuíno interesse em A Vida dos Outros - e fica só o filme-denúncia vitimizante. Fica um filme como os outros.


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Comentários (1)

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sem avatar Valdeci (05/09/2010 19:43:00)   -1 -1
A Vida dos Outros, escrito e dirigido por Florian Henckel Von Donnersmarck é um filme alemão muito interessante porque coloco o espectador como um “Voyeur” involuntário (seria mesmo involuntário? Todo espectador é um voyeur por excelência. Mas enfim...) além de colocar o espectador na corda bamba em torcer para que o Agente da Stasi (Polícia Política da Alemanha Oriental) chamado Gerd Wiesler não encontre vestígios para incriminar Georg Dreyman e a atriz Christa-Maria Sieland. Neste jogo de gato e rato (ou mais precisamente de socialistas contra capitalistas) ficamos atentos ao desenrolar desta história e aguardando as conseqüências na vida de cada um dos personagens envolvidos nesta guerra política de poder e submissão.

Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é um sujeito extremamente competente na sua atividade de agente secreto e sua vida resume-se a cumprir ordens do partido sem questioná-las. Calmo. Calculista. De gestos contidos e fala mansa e monossilábica como a pensar cada frase antes de pronunciá-las. Provavelmente para evitar comprometer-se num governo que controla até o pensamento de seus funcionários num mundo policialesco. Obedece fielmente seus superiores e acredita que sua função é vital para o bem do país já que eliminar “inimigos” do estado é uma tarefa heróica que muito lhe orgulha. Tem uma vida social nula e vive num apartamento asséptico sem qualquer vestígio de relacionamentos humanos. As paredes do seu apartamento são de cores neutras e frias, assim como os móveis e utensílios ali representados. Tudo muito funcional. Parecendo mais um quarto de hotel a um lar. Suas roupas também destituídas de cor que mais parecem um uniforme profissional. Seus modos de atuar lembram um robô programado para apenas uma tarefa: Espionar. Mas não se engane. Ele é eficiente no que faz. Ou era até receber ordens de espionar o dramaturgo e escritor Georg Dreyman e sua amante a atriz Christa-Maria.

Com o desenrolar da trama, Wiesler vai tomando consciência que sua atividade profissional e todos os conceitos políticos que até então acreditava imutáveis e verdadeiros nada mais são que uma guerra de poder entre a elite dominante (Estado) e o povo comum alemão. Com a divisão da Alemanha em Oriental (Socialista) e Ocidental (Capitalista) e a guerra fria em pleno vigor, o governo da parte socialista coloca seus espiões a vigiar seus cidadãos para evitar a fuga para o lado capitalista ou mesmo controlar remessas de informações para o outro lado. Ao vigiar o casal Wiesler toma ciência da insignificância da sua própria existência e realiza suas possíveis fantasias na vida de Dreyman e Chista-Maria. O Casal leva uma vida mais desregrada de comprometimentos políticos e suas rotinas repletas de vigor, paixão e efervescência cultural muito distante da sua vida vazia e sem brilho. O que era para ser uma rotina de espionar e delatar,torna-se uma forma de viver a vida dos outros, literalmente.

Georg Dreyman (Sebastian Koch) é um dramaturgo e escritor teatral que não questiona o regime e vive à margem destas questões políticas e tudo mais. Tem uma vida bastante turbulenta culturalmente falando e não percebe (ou faz de conta que não percebe) o regime opressor que seu povo vive. Até o momento que começa a levantar bandeiras contrárias ao poder dominante. Tem um caso com a atriz Christa-Maria Sieland muito famosa e adorada pelo povo alemão. Quando toma conhecimento que provavelmente está sendo vigiado e que corre perigo de vida ou banimento começa a escrever artigos para a Alemanha Ocidental como forma de protesto e para tornar público os casos de “Suicídio” muito acima do normal ocorridos em seu país.

Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) é uma atriz que tem uma grande legião de fãs (inclusive dentro dos escalões do governo) e leva uma vida, de certa forma, muito melhor que a grande maioria da população. Ao se ver no centro deste imbróglio político acaba caindo nas garras do ministro que a explora sexualmente em troca de mantê-la em cartaz e deixá-la desfrutar de suas regalias e ao seu vício de medicamentos. Será uma peça importante neste triângulo e fará seu sacrifício em nome da pessoa que ama.

Florian Henckel Von Donnersmarck consegue transpor para a tela toda a angustiante vida do povo alemão sob o regime totalitário e policialesco através de seus cenários vazios, suas cores sóbrias e a interpretação contida e eficiente de Ulrich Mühe. A trilha sonora, que a princípio parece exagerada, acaba por ser um elemento importante para salientar momentos chaves. Interessante notar igualmente a mudança de comportamento de Wiesler na medida em que ele vai conhecendo o casal a que deve vigiar e deletar. Sua tomada de consciência da inutilidade de seu trabalho e de sua vida é algo que emociona pela forma brilhante como interpreta este personagem. A queda do muro de Berlim anos mais tarde só veio a evidenciar este fato. A inutilidade de toda aquela engrenagem que a todos aprisionava e banalizava não serviu para nada. Exceto aterrorizar o povo, enriquecer alguns e dar poderes supremos de vida e morte sobre pessoas inocentes a alguns sujeitos inescrupulosos.

Outros comentários sobre cinema, literatura e comportamento no meu blog: http://maisde140caracteres.wordpress.com




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