Brasil
, 2011
- 95 minutos
Comédia
Direção:
José Alvarenga Jr.
Roteiro:
Bruno Mazzeo, Rosana Ferrão
Elenco:
Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Augusto Madeira, Carol Castro, Fabiula Nascimento, Fúlvio Stefanini, Sérgio Loroza, Thelmo Fernandes, Marcos Caruso, Luis Miranda, Débora Lamm, Alexandre Nero, Karla Karenina, Dani Calabresa, Milhem Cortaz, Rita Elmôr, Fernando Caruso
A piada que se conta é que o stand up brasileiro endeusa nomes como Richard Pryor, Jerry Seinfeld e Louis CK mas esquece que a "comédia em pé" já se fazia no país desde os tempos de Costinha. Bruno, o personagem de Bruno Mazzeo em Cilada.com, é um sinal destes tempos: implica com a mulher que fala português errado mas não acha ruim o amigo que pronuncia mal expressões em inglês.
Não é de estranhar, portanto, que o filme produzido, escrito e estrelado por Mazzeo - sobre um cara que trai a namorada (Fernanda Paes Leme) e, como vingança, tem um vídeo com sua efêmera performance na cama exposto na web - recorra a tons e situações derivados das comédias românticas hollywoodianas.
Dá pra listar. Vai do humor de constrangimento (casal fazendo DR em público enquanto a câmera fecha nos rostos de estranhos), aos clichês mais batidos do gênero (cena clipada do cara revisitando sua agenda de telefones, declaração de amor na chuva), passando pelo be-a-bá da fofura indie (gente de coração partido sentada na beirada do terraço ou no sofá ao lado da boneca inflável). O ápice das "sacadas" recicla o clipe de "Subterranean Homesick Blues".
Cilada.com passaria sem grandes traumas se o problema fosse só o déjà vu (e o timing falho das piadas). O que pega, de verdade, no filme dirigido por José Alvarenga Jr. (Divã, Os Normais - O Filme) não é a tendência americanófila do comediante de stand up, mas o seu umbiguismo.
(A partir daqui, o texto contém referências ao desfecho do filme.)
Já não é fácil se identificar com um personagem como Bruno, cujo ego não lhe permite ver que, além de ruim de cama e mau namorado, também é um péssimo publicitário. Nossa relação com ele termina comprometida porque o roteiro não deixa que a redenção do adúltero se consuma. Situações típicas de segundo ato - o protagonista cruza com várias outras mulheres antes de descobrir que gosta daquela que traiu - se estendem até o terceiro. É cabeça de escritor de esquetes; as situações de humor se acumulam sem que, necessariamente, contribuam para o arco do personagem.
E aí o chauvinismo de Bruno fica latente. O inferno são sempre os outros - a mulher iletrada, a mulher que tem bafo, a mulher que tem um pênis - e, sem entender qual o problema de verdade, ele se contenta com aquela mulher que não o ofende. O discurso da personagem de Carol Castro que desperta Bruno é desconcertante: ela basicamente diz que permanecer com uma pessoa só pra não ficar sozinho é uma forma de amar.
Em outras palavras, a questão é não perder a plateia. O personagem tem a ilusão de que torna-se uma persona pública com o vídeo na Internet, mas já atuava como "performer" desde o começo (a traição é exposta em um tablado, o do casamento) e segue assim ao longo do filme (as apresentações na agência de publicidade, na frente do prédio da namorada, a catarse da cena do perdão, tudo é um palco e sempre há um público). Perto do final do filme, Bruno relembra um dos seus melhores momentos de namoro (por ser o último flashback presumimos que é o mais importante), quando os dois se agarram dentro de um cinema vazio. A luz refletida da tela ilumina o rosto do bolinado herói - é a imagem definitiva do artista narcisista.
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