Guillermo Del Toro é um apaixonado por cinema. E por isso o painel que ele fez ao lado do diretor Troy Nixey sobre o novo filme que está produzindo, Don't Be Afraid of the Dark, valeu cada segundo, apesar da programação mediana feita para a Sala H na sexta-feira. Del Toro fala o que pensa. E a vantagem é que ele pensa, respira e se alimenta de cinema. Cinema de qualidade, pensado para entreter as pessoas de uma maneira inovadora e criativa. E às vezes bastante assustadora.
É o caso deste filme, que está programado para ser lançado no Brasil em 26 de novembro. O painel começou com a primeira exibição do trailer. O vídeo começa com tudo preto e fica assim por cerca de 30 segundos, até que vozes começam a aparecer, num ótimo uso de surround do local, sussurrando para não ter medo do escuro. Começam os cortes rápidos, que terminam com uma menina engatinhando por baixo dos lençóis em um cenário que você sabe como vai acabar, mas mesmo assim, o susto é incrível.
Del Toro começou a contar como se envolveu com o projeto: "Eu e meus irmãos vimos o filme várias vezes quando éramos pequenos e era o filme mais amedrontador que existia. Mas parecia que só a gente tinha visto o filme. A gente até ficava sussurrando "Sally", como a personagem do filme, para botar medo nos outros." O mexicano contou que eventualmente conseguiu comprar os direitos para fazer uma refilmagem e por volta de 1997-1998 escreveu o roteiro ao lado do Matthew Robbins. Ele lembrou que foi difícil pois queria ao mesmo tempo homenagear o original e reinventar a história. "É um filme aterrorizante, clássico e o final vai te deixar todo borrado", brincou o cineasta, que não poupou o público de palavrões. "Se tem crianças na plateia, agora já é tarde."
Em seguida, Del Toro apresentou melhor o diretor do filme, Nixey. Apesar de ser sua estreia em um longa-metragem, Nixey é velho conhecido da Comic-Con. Ele trabalhava com quadrinhos (fez a série Jenny Finn ilustrando o roteiro de Mike Mignola) e em 2000 fez seu primeiro curta e enviou uma mensagem para a email público do Del Toro (abe_sapien@hotmail.com). Neste ponto, Del Toro mostra por que ele é diferente de tantos outros cineastas por aí. Ele é um de nós. Disse: "Estou aqui e apesar de não poder ler roteiros e ouvir ideias, estou aberto se você tiver curtas ou portfolios que queira me mostrar. Se me encontrar lá no meio do centro de convenções, pode vir me mostrar."
Sobre a indicação etária, Del Toro disse que achava que poderia ser um filme apto para pessoas acima dos 13 anos, mas que recebeu do órgão censor dos Estados Unidos o maior dos elogios: uma certificação de 18 anos por "perversão assustadora". Quando perguntou se havia alguma coisa que podia ser feita para mudar esta decisão e aumentar o número de pessoas que poderiam ver o filme, disse que ouviu do responsável pelo órgão: "Por que arruinar um filme perfeitamente aterrorizante?" Era tudo o que ele e o público presente queriam ouvir.
Del Toro e Nixey também mostraram a cena que abre o filme. Embora a história se passe nos dias de hoje, tudo começa em 1918. Uma governanta está limpando a casa e ouve um barulho no porão. Quando desce para ver se o seu patrão tinha chamado, algo vai acontecer. Algo muito, muito, muito (muito mesmo!) intenso, que deixou toda a plateia (eu inclusive) se segurando nas cadeiras. O visual é tudo o que se pode esperar de um bom filme de terror e o tratamento dado ao áudio é excepcional, com barulhos por todos os lados, envolvendo o público.
Para terminar, Del Toro anunciou algumas coisas que já está fazendo, como "uma adaptação bem bizarra do Pinóquio em stop motion, com música de Nick Cave". Ele está também desenvolvendo um game e um programa no cabo, que será anunciado em algumas semanas e terá 1 hora de horror semanal. "Não com sangue jorrando, mas suspense", disse. Nixey complementou: "Quero muito ver como The Walking Dead vai se sair na TV, porque certamente vai abrir porta para vários projetos neste gênero."
O cineasta mexicano também falou da importância das suas origens e da cultura do seu país. Disse que no segundo livro da trilogia da Escuridão (o primeiro é Noturno) tem um personagem que é um lutador mascarado. "E quero fazer um filme que coloque frente a frente um lutador mascarado e um vampiro." Del Toro também disse que apesar de não dirigir nada no México há algum tempo, continua ativo produzindo muitos filmes por lá.
Sobre os próximos filmes, ele lembrou o público o que tinha dito na tarde anterior sobre roteirizar e produzir uma nova versão da Mansão Mal-Assombrada ("Vou fazer uma carta de amor àquele passeio dos parques da Disney"), e que espera em breve fazer um filme de terror de verdade. "Eu tenho produzido filmes de terror, mas praticamente não dirigi nada neste gênero. Espinha do Diabo, que é meu filme favorito, tenta provar justamente que o fantasma é inocente."
E ainda sobrou tempo de dar dicas aos novos cineastas: "O momento que você morre como cineasta é quando você deixa de ouvir seus instintos".
Leia mais sobre Comic-Con 2010
O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.
Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.









