9

Crítica: 2012

Pacote com a catarse do caos traz de brinde culpa e tristeza

Marcelo Hessel
12 de Novembro de 2009

2012

2012

EUA , 2009 - 158
Ação / Ficção científica

Direção:
Roland Emmerich

Roteiro:
Roland Emmerich, Harald Kloser

Elenco:
John Cusack, Chiwetel Ejiofor, Oliver Platt, Amanda Peet, Thandie Newton, Woody Harrelson, Zlatko Buric, Danny Glover, Thomas McCarthy

Regular
2012
2012
2012

A alta cúpula já estava preparada para o fim do mundo. Mas o geólogo chega para o presidente dos Estados Unidos e diz que suas contas estavam equivocadas - o cataclisma acontecerá meses antes do que ele previa. O presidente questiona: como assim contas equivocadas? O geólogo não tem o que dizer: "Simplesmente errei".

Então o presidente negro dos EUA, vivido por Danny Glover, se resigna: "Sabe quantas vezes se ouviu aqui na Casa Branca uma pessoa reconhecer que estava errada? Zero". É uma confissão de prepotência que, dada a opção de associar visualmente o presidente fictício com Barack Obama, passa a ecoar questões da Era Bush. O diretor Roland Emmerich destrói o planeta em 2012 para que todos nós perdoemos os EUA, basicamente.

O filme-catástrofe é um subgênero fetichista por excelência, em que a catarse do caos aliena nossos problemas de fato - ao ver o lagarto gigante de Godzilla destruindo Manhattan, por exemplo, os medos da vida real soam prosaicos. O que Emmerich faz em 2012 é combater o componente alienante. É o seu filme mais panfletário e também o que martela mais forte uma mensagem. Para quem já dirigiu patacoadas americanófilas como Soldado Universal, Independence Day e O Patriota, não é pouca coisa.

A trama se faz de premissas consagradas. Acompanhamos o clássico pai divorciado que está tentando reconquistar o afeto dos filhos, interpretado por John Cusack, a metonímia que individualiza para o espectador um drama tão continental que, visto só de cima, perderia um pouco a humanidade. Para que o espectador possa se identificar com cada um dos desastres (vulcões, fissuras tectônicas, maremotos), o pobre John Cusack será forçado a estar presente em cada um deles.

Não é difícil imaginar o final de uma história dessas. O que muda, na forma como Emmerich tonaliza 2012, é o peso. O processo de desalienação do filme-catástrofe leva a um sentimento de culpa generalizado. O presidente se sente culpado por não ter avisado a população do fim. O geólogo se sente culpado porque não vai salvar quem gostaria. O pai do geólogo, que descobrimos ter um histórico de alcoolismo, indica se sentir culpado pela relação que manteve com o filho.

Repare que o personagem de Cusack, um escritor, fala em seu livro sobre abnegação, sobre o dom de entregar a vida pelo próximo, mas seu momento de heroísmo no filme vem atrelado a um sentimento de culpa: "Nós causamos isso".

Todo mundo carrega um remorso, enfim, e o tempo para repará-lo está encurtando. Como 2012 se constitui de um mosaico de vidas efêmeras - antes de se apegar às pessoas Emmerich está mais interessado em tornar plausível o colapso do planeta, vide a animação infantil criada pelo personagem de Woody Harrelson - o jeito é recorrer à redenção express. O tempo de tela de cada personagem é mínimo, então trate de aproveitar para pedir suas desculpas e, se for o caso, fazer suas preces.

Não achei que fosse usar esse adjetivo aqui, mas 2012 é um filme... triste. E diante de toda esse pesar surge como um alívio a cena em que a bibelô russa tenta salvar a vida de seu pequinês. O maior maremoto de todos os tempos vai cobrir o diabo do Himalaia e somos obrigados a torcer por um cachorro... Essa cena é o que nos traz de volta o senso de absurdo de 2012, e naquele respiro Emmerich parece entender, nem que seja por um minuto, que o gênero no qual ele se especializou às vezes se leva a sério demais.

Assista à entrevista com o diretor
Saiba onde o filme está passando


Compartilhar

Galeria de vídeos

Comentários (9)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

Wendell Wendell (24/10/2011 07:53:11)   161 0
Excelente,tudo é grandioso nesse filme,personagens carismáticos e que você se importa com os mesmos durante as cenas,efeitos magníficos,trilha sonora que cumpre seu papel.Brilhante.



sem avatar Jurandir (12/10/2011 05:59:16)   19 0
O filme não é tão ruim assim,
Hessel já fez a merda de dar mais ovos p/ bem piores.

Só não entendi o motivo de começar o segundo parágrafo da crítica com "Então o presidente negro dos EUA". ridículo.



Edgar Edgar (25/05/2011 21:20:18)   113 0
Pessímo!!
Só a destruiçaõ de Los Angeles presta nada mais.



nehemias nehemias (17/02/2011 17:37:40)   -4 0
Vi no cinema ainda.
Faço tratamento até hoje.



Dalton Dalton (05/01/2011 14:15:38)   314 0
mt ruizinho !



gisele gisele (18/07/2010 15:58:23)   -1 0
este filme é uma grande roubada!resume-se mesmo na cena da amante mostrando o dedinho!dinheiro jogado no lixo!
jesus um desfilede som e imagem,diminuindo e mau trantando um assunto tao importante.nao vejam!



Felipe Felipe (16/04/2010 02:40:32)   0 0
PÉSSIMO!



sem avatar claudio (02/04/2010 20:25:05)   0 0
Orlando

De fato o filme é decepcionante.
Depois de tanta tragédia, catastrofes, querem passar a imagem de respeito ao humano.
Condena-se tudo que a moral cristã também condena.

Qual a idéa de se estabelecer a África como lugar para nova civilização. Voltar a teoria de que a África é berço da civilização!

O título deveria ser: A arca da hipocrisia.



Orlando Orlando (22/03/2010 04:24:37)   0 0
Se não tivessem feito a cena do Cristo ia pra 1 ovo.




None