Crítica: Bicho de 7 Cabeças

Ô louco, meu!

Marcelo Forlani
22 de Junho de 2001

São Paulo é um dos maiores centros urbanos do mundo. Há muitas vantagens em se morar num lugar destes. Por outro lado, existe também um número infinito de pontos negativos. A capital paulista vista em Bicho de 7 Cabeças mostra a pichação, poluição e sujeira causada pelo "progresso". Motivos suficientes para deixar qualquer um maluco, não&qt&

Neto é um adolescente de classe média baixa que acaba "pirando", mas por outros motivos. Seu pai, acidentalmente, acha um cigarro de maconha na blusa do filho e decide interná-lo num manicômio. É isso mesmo! O pai leva ao extremo a expressão "estar bem louco" e o prende num hospício.

Esta experiência não é fictícia. Aconteceu com um jovem de Curitiba nos anos 70. Austregésilo Cerrano Bueno pegou todas estas experiências e criou um livro, Cantos Malditos. Desta obra, a diretora Laís Bodanzky e o roteirista Luiz Bolognesi construíram um dos melhores dramas nacionais. Não é à toa que Bicho ganhou nove prêmios no festival de cinema de Brasília e mais nove em Recife (entre eles melhor filme, direção e ator).

É verdade: ri melhor quem ri por último

Rodrigo Santoro, famoso pelas participações em novelas da Rede Globo, protagoniza pela primeira vez um longa-metragem. Sua atuação beira a perfeição. No Festival de Brasília, ele foi vaiado antes da exibição do filme pelo simples fato de ser um galã global. Ao final da sessão, todos aplaudiram de pé.

Para participar o projeto, Rodrigo tirou licença da emissora de Roberto Marinho. Se dedicou exclusivamente ao filme. A sua relação de amor e ódio com o pai (Othon Bastos) é o principal motivo do filme. Em uma das diversas discussões entre os dois aparece outro fator que diferencia o Bicho dos outros filmes: a edição de som. A briga percorre a casa toda e o som acompanha, começando lá no fundo (literalmente, como pode se perceber em salas que tenham o efeito de surround) até chegar ao plano principal. São detalhes como este que deixam o filme um passo à frente dos demais.

A fotografia também merece destaque. A câmara estava quase sempre à mão. Nada de gruas ou carrinhos e raramente utilizou-se do tripé. Tudo feito como se estivessem rodando um documentário. Este movimento deixa o espectador quase na posição de personagem. A imagem e o já citado som andam de um lado para o outro, mostrando tudo o que está à sua volta.

Sem perder o foco

Apesar das belíssimas edições de som e vídeo, a técnica utilizada funciona apenas como suporte a um filme bem dirigido, uma história bem contada e atores em ótima forma. Destaque especial ao ator Gero Camilo, no papel de Ceará, e todos os demais internos dos manicômios. É difícil acreditar que os atores ali não sejam loucos de verdade.

Foram quase quatro anos entre a "descoberta" do livro e a finalização do filme, na Itália. No processo de pesquisa foi constatado um número significativo de mulheres internadas após traírem seus maridos e um alto percentual (12%) de "loucos" confinados pelo alcoolismo. É exatamente contra isso que o escritor Austregésilo luta até hoje: internações desnecessárias e tratamentos a base de drogas e eletrochoques. Isso sim deixa qualquer um insano.

Numa conversa informal com Laís Bodanzky, ela me disse que queria o seu primeiro longa-metragem "falando com muita gente". Muito simples, trajava calças jeans e camiseta vermelha, a diretora completou dizendo que o filme foi editado na Itália, mas totalmente voltado ao público brasileiro. Ela desempenhou o papel de cineasta com louvor. Agora, cabe a nós fazer deste filme um sucesso.

O Bicho de 7 Cabeças (RioFilme/Columbia) - Drama/Nacional
O Bicho de 7 Cabeças. Brasil, 2001. Dir. Laís Bodanzky. Com Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Jairo Mattos, Caco Ciocler, Luis Miranda, Valéria Alencar. Duração: 1h20

Imagens © 2001 Rio Filme/Columbia
Imagem de São Paulo gentilmente cedida pelo site www.sampacentro.com.br



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