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Crítica: Cidadão Boilesen

Documentário se afiança no testemunho dos seus entrevistados para legitimar linchamento

Marcelo Hessel
26 de Novembro de 2009

Cidadão Boilesen

Cidadão Boilesen

Brasil , 2009 - 92
Documentário

Direção:
Chaim Litewski

Regular
cidadão boilesen
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O documentário Cidadão Boilesen, premiado no último festival É Tudo Verdade, termina com o depoimento de um pedestre na Rua Henning Boilesen, no bairro do Jaguaré, em São Paulo. O entrevistador pergunta ao senhor se ele sabe quem é o tal Henning. "Não é aquele estrangeiro que trocaram por presos políticos e colaborava com a ditadura?", responde ele, transformando Boilesen e o embaixador Charles Elbrick em um só.

À parte o anedótico da situação, ela deixa claro como é complicado confiar na memória - ainda mais em um país avacalhado pela amnésia, que evita abrir seus arquivos históricos desde a Guerra do Paraguai - para sustentar um documentário. O diretor Chaim Litewski tem acesso privilegiado a vários protagonistas da política nacional da época dos porões da ditadura, mas, quarenta anos depois, até que ponto seus testemunhos são fidedignos? Ou, antes disso, escorar-se nos testemunhos basta?

Neste caso, a situação fica mais complicada porque temos poucos papéis e muitos cacos de memórias. Henning Boilesen nasceu na Dinamarca e se mudou para o Brasil, onde teve carreira bem-sucedida como industrialista. Presidente do grupo Ultra, dos botijões Ultragaz, serviu de contato - de acordo com várias pessoas - entre o empresariado e o governo militar. Muita gente espalha, e aí poucos podem atestar de fato, que Boilesen não só defendeu o regime como assistia a sessões de tortura.

Litewski ouve do oficial que dirigiu a Oban, Dirceu Antônio, que o empresário realmente era espectador constante na masmorra. O filho de Boilesen nega. Entre um e outro, o coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi e primeiro oficial a ser declarado torturador em uma sentença judicial, diz que Boilesen só esteve no porão da Oban uma vez. O problema não é saber em quem acreditar, mas se afiançar - como o documentário frequentemente faz - em um dos lados para reconstruir a imagem de Boilesen.

Documentários como Na Captura dos Friedmans ou O Homem Urso mostram como é difícil desvendar a mente dos homens só com base em relatos. Nos dois casos, tem-se a dolorosa constatação de que nem a imagem basta como evidência. Já Litewski mata a questão das supostas tendências sádicas-voyeurísticas de Boilesen ao pegar um depoimento certeiro (o empresário, ao receber um prêmio, diz que preferia não aparecer, ficar atrás) e ao resgatar, oportunamente, um boletim da escola que acusava comportamento suspeito do jovem dinamarquês.

Henning Boilesen pode até ser o maior escroto do mundo, mas é muito injusto (ou no mínimo parcial) reduzir sua figura desse jeito. Revelações que não adicionam nada ao tema do filme, como o fato de Boilesen ter vivido com duas mulheres, são elencadas como se documentário fosse sinônimo de prontuário. O linchamento se estende a outros empresários do período, como Amador Aguiar, fundador do Bradesco, acusado por um entrevistado de também assistir a torturas. Não importa se ele é de verdade o Mal encarnado; Aguiar, morto em 1991, não tem no filme a chance de se defender.

As boas lições que Cidadão Boilesen deixa têm pouco a ver com Henning Boilesen. No meio de tantas declarações assertivas, o filme é muito instrutivo pelo que tem de subtexto: a forma como o denuncismo se arraigou nos procedimentos investigativos da nossa mídia, a relação promíscua entre governo e iniciativa privada que hoje conduz ao chamado capitalismo de estado, e principalmente o rancor de direita e de esquerda que a Lei da Anistia não deu conta de apaziguar e varreu-se institucionalmente sob o tapete.

"Fatos criam normas. A verdade, iluminação", disse Werner Herzog em uma palestra em Minneapolis em abril de 1999.

Saiba onde o filme está passando



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Comentários (1)

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sem avatar Bruce (20/05/2012 02:51:40)   141 0
Olha, Hessel, não sei qual seu posicionamento político nem seu grau de parentesco com o Boilesen, mas estou surpreso que a crítica seja assim tão reducionista. Se o filme tenta dar motivos para achincalhar o objeto de exposição, ele também dá motivos pra você se perguntar como ele chegou àquele ponto, se é possível sentir pena de alguém assim. Confiando apenas nos documentos disponibilizados ao público e nos depoimentos de gente que conviveu pessoalmente e gostava dele ou não, ou que estiveram envolvidas em operações contra a ditadura ou contra o próprio sujeito, o diretor tenta criar um perfil do sujeito, algo demonstrado justamento pelo título "cidadão". Afinal, quem foi esse cidadão? Qual sua importância pra história? Qual sua história, afinal? Agora, o curioso é você se preocupar em citar o Amador Aguiar, que só é mencionado uma vez no documentário. Ok, ele morreu e não pode se defender, mas e aí? Por que chamar atenção para isso considerando que há realmente suspeitas sobre a participação dele? Me perdoe, Hessel, mas sua crítica está imbuída de preconceito ideológico superficial.




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