6

Crítica: Do Começo ao Fim

Filme se enrola na bandeira gay e tropeça quando tenta sair da defensiva

Marcelo Hessel
26 de Novembro de 2009

Do Começo ao Fim

Do Começo ao Fim

Brasil , 2009 - 100
Drama

Direção:
Aluizio Abranches

Roteiro:
Aluizio Abranches

Elenco:
Rafael Cardoso, João Gabriel Vasconcellos, Fábio Assunção, Júlia Lemmertz, Gabriel Kaufmann, Jean Pierre Noher, Mausi Martínez, Louise Cardoso, Lucas Cotrim

Regular
do começo ao fim
do começo ao fim

Mesmo que você chegue a uma sessão de Do Começo ao Fim sem saber que se trata da história de um relacionamento gay entre meio-irmãos, não leva muito para descobrir.

No dia em que Thomás nasce, acompanhamos a espera de seu irmão seis anos mais velho, Francisco, numa sala do hospital. O menino fala de livre-arbítrio, de escolhas que se fazem no simples ato de abrir os olhos para o mundo. Corta para os dois, uns sete anos depois, falando sobre pássaros: "Nunca vou deixar que prendam a gente numa gaiola". Thomás e Francisco sequer descobriram sua sexualidade e já dominam o discurso contra o preconceito.

Essas primeiras cenas dizem muito sobre a maneira como o diretor e roteirista Aluizio Abranches escolheu trabalhar o tema: na defensiva, como se tivesse que justificar a todo momento a escolha "polêmica" que fez (polêmica, entre aspas, porque não é a primeira vez que amores incestuosos ou gays ganham as telas, e certamente não é a mais explícita), e politicamente, colocando a bandeira do movimento à frente do drama a dois.

Então Do Começo ao Fim tenta se equilibrar no meio dessa não-questão: como retratar os homossexuais para um público que, sabendo do filme a que vai assistir, já os encara com naturalidade? Abranches toma decisões que deveriam somar, mas se anulam: quer mostrar um amor gay com naturalismo (Thomás e Francisco fazendo a barba juntos) mas também com solenidade (a cena da primeira transa), quer falar do tema sem pudor (o texto reto de Cartas de um Sedutor de Hilda Hilst) mas concebe toda a estética ao redor de Thomás e Francisco com higiene, como se fosse um comercial de margarina.

A evidência mais contundente de que Abranches se acha na urgência de sempre justificar a escolha que fez está no anti-clímax do filme, quando a orientação sexual de um dos personagens é colocada à prova. O simples fato de insinuar que a homossexualidade se valida porque o cara tentou e não conseguiu ser hétero já implode todo o discurso politicamente correto que o filme vinha martelando antes.

Considerando que Abranches não filmava há sete anos, dá pra fechar os olhos para os deslizes mais imediatos (a literalidade dos diálogos, o retrato estereotipado do argentino machão). Problemática mesmo é a sua aproximação do objeto: homens se tocando "para a câmera", o sexo tratado como uma vitrine e não como uma intimidade, a cafonice da luz do sol que banha corpos como se fosse necessária uma permissão divina (a permissão da mãe?) para Thomás e Francisco se amarem.

Não está já na hora de tratar o tema sem todas essas mistificações?

Saiba onde o filme está passando


Compartilhar

Comentários (6)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

sem avatar Samuel (30/04/2011 17:19:10)   0 0
Melhor do que falar do filme é falar sobre as críticas e muito mais engraçado também. A menina ali em cima tem certa razão: era pra ser utopia mesmo, um mundo encantado, o conto de fadas gay . É claro que o diretor não precisava fazer de seu filme um simulacro do conto de fadas hétero cinematográfico: trocas de aliança, juras de amor melosas, senso de proteção e de propriedade exacerbado, observação e aceitação do maniqueísmo católico, pausas contundentes para a imagem e só para ela. A história gay narrada ficou tão ou mais sem graça do que uma comédia romântica protagonizada por Adam Sandler, Ashton Kutcher ou Jeniffer Lopes (sic). A utopia poderia alçar vôo na figura da mãe, Júlia Lemmertz, aliás, o ponto alto do filme, pela interpretação contida, condescendente com o conflito, mas ao mesmo tempo genuinamente sofrida. O mundinho perfeito deveria se encerrar nela e, até o momento em que ela morre, o filme é muito bom. Depois disso, morre o filme, exatamente porque os personagens se dão à liberdade e anunciam isso, como se a presença da mãe fosse impedir que o inevitável acontecesse ou que acontecesse em parte, clandestino ou doído demais. Ou mesmo para não ter que pôr à prova a aceitação do público, para poupar o público de ter que aceitar que uma mãe fosse conivente com o caso de amor entre os próprios filhos. Quando mata a mãe, o diretor tira do público a possibilidade de se indignar, de se chocar com a história, pois só a mãe poderia humanizar indignamente a relação, justamente porque ela é o único vínculo de parentesco sanguíneo entre os dois. Isso sim poderia dar ao filme o sal que lhe faltou: o constrangimento, o choque, o grito, o assombro, o elemento não virtuoso tão necessário aos contos de fada. Não é possível que o diretor acredite que alguém ainda possa ver espanto e estranheza em um filme que fale sobre o amor entre dois homens. Esse filme só é relevante porque os dois homens são irmãos, aliás, meio-irmãos e a mãe era a única que podia fazer o público lembrar disso. O excesso de preciosismo e estética em algumas cenas, sobretudo a primeira em que os dois fazem sexo, a câmera parada no nada, tentando fazer poesia, o escracho desnecessário, com o mundo hétero, a obviedade do roteiro e a falta de conflito, deixam o filme quase que totalmente chato do Começo ao Fim. Do meio para o fim, para ser mais justo. Pena. Havia lugar para muito mais!
Obs: nada a comentar sobre o Fábio Assunção- ele dignifica qualquer produção.


sem avatar Claudia (05/10/2011 15:12:48)   0 0
Acho que sou romântica e ingênua, achei o filme esteticamente muito bonito. E gostei bastante do filme: traz um tema, no mínimo, inusitado.
Parece sim comercial de margarina, mas fico pensando: porque filme brasileiro não pode ter esta estética? Parece que filme brasileiro tem que ser sempre tipo "Central do Brasil" ou "Tropa de Elite"... Chega de se açoitar e achar que porque somos país "em desenvolvimento", o que aparece nos filmes tem que ser pobre...
Mas prá mim a questão central que o filme não aborda e que me deixou muuuito encucada é a seguinte: é possível viver desta forma?
É possível, real, uma família conviver com uma situação como esta de incesto homossexual e todos viverem muito bem, tranqüilos e felizes? Viverem sem falar sobre o assunto, e todos felizes. Desta forma parece que esta família tem um funcionamento doente e esta questão não é levantada. São todos muito bem resolvidos.
Confesso que achei muito lindo o amor deles. Mas dá prá viver assim? Não existe culpa nehnuma, de nenhum lado?
Esta não é a realidade. Tudo bem, é cinema, mas o descompasso do filme é justamente mostrar o amor entre eles de uma maneira tão verdadeira e não mostrar todos os outros lados desta verdade.
Mas valeu muito o filme porque me fez pensar sobre estas questões, o quanto somos limitados pelos nossos preconceitos, o quanto podemos viver melhor se nos libertarmos de regras.
E, sem dúvida, a Júlia Lemmertz tá um arraso.


Walker Walker (15/03/2011 16:46:23)   0 0
Filme se enrola na bandeira gay e tropeça quando tenta sair da defensiva.

essa frase resume tudo, parece aqueles filmes de contos de fadas da disney, só que esse ultimo é muito melhor. o diretor quer mostrar a dificuldade dos dois irmãos em ficarem juntos, quando a mesma é simplesmente resolvida com a compra de uma passagem..... acho que decepcionou muitos que achavam que veriam polêmicas.



Chandra Chandra (12/12/2010 19:21:51)   4 0
"Você vê coisas que existem e pergunta: por que?
Mas eu sonho com coisas que nunca existiram e me pergunto: por que não?"

O filme é romantizado e utópico.. por que não?



sem avatar willian (26/10/2010 16:37:03)   0 0
Eu assiti o filme, e o achei interessante e ao mesmo tempo estranho. como dois irmãos criados juntos podem sentir um sentimento tão forte como um amor de casal. Mas também senti que o filme foi um pouco sem sal, não teve emoção e não se abriu bandeira nenhuma efetiva contra o preconceito; seus pais entenderam perfeitamente o que estava acontecendo, diferentemente do que aconteceria se fosse na vida real. Já sobre a nudez nã achei nada de mais, me poupe ,se fosse um filme hetero ningúem ia tá falando nada de nudez. Analiso o enredo do filme por inteiro não uma unica cena.Pra finalizar, Achei um filme bom mas sem muito o que mostrar.



sem avatar Jorge Luís (23/09/2010 17:42:43)   0 0
O filme se apoia na tolerancia sobre a ingenuidade e pureza enquanto somos crianças. Torna bonito e compreensivo o relacionamento dos dois garotos, mas banaliza o relacionamento deles depois de adultos.
O filme não precisava de frase do tipo "eu gosto é de cú de homem" em meio a poemas pornográficos, e também não precisava das cenas de nudismo explícito.
Se o interesse do autor era causar respeito e admiração ao relacionamento homossexual, ele conseguiu perder isso no final do filme.
Se o autor tivesse mantido a memas linha de cuidado que manteve com os garotos para no final eleger um beijo bay, com certeza seria um sucesso em todo o brasil visto por todas as idades.

Mas infelizmente a bicha do produtor banalizou o final do filme.




None