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Em um Mundo Melhor | Crítica

Mal-estar de Susanne Bier com os dramas eurocêntricos entra em metástase

Marcelo Hessel
10 de Março de 2011

Em um Mundo Melhor

Em um Mundo Melhor

Hævnen
Dinamarca / Suécia , 2010 - 105 minutos
Drama

Direção:
Susanne Bier

Roteiro:
Susanne Bier, Anders Thomas Jensen

Elenco:
Ulrich Thomsen, Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard

Ruim
em um mundo melhor
mostra 2010
susanne bier

"É assim que as guerras começam", diz o pai depois de buscar na escola o filho que caiu na provocação do bully. Isso que parece uma caricatura de sermão - as reações sempre exageradas dos adultos - no cinema da diretora dinamarquesa Susanne Bier é perfeitamente normal. Para ela, as guerras de fato começam assim.

E a guerra virou uma obsessão. Recentemente, Bier tocou no assunto de forma mais direta em Brothers, e hoje, assaltada por uma grandiloquência (ou uma culpa burguesa), ela parece não conseguir mais fazer pequenos melodramas sem antes contextualizá-los geopoliticamente. Mais do que nunca, há algo de podre no reino da Dinamarca. A consciência tem pesado.

Em um Mundo Melhor parte, assim como Depois do Casamento, de uma cena terceiro-mundista para só depois ambientar a trama na Europa. Estamos em uma nação africana em guerra civil, onde o médico sem fronteiras sueco Anton (Mikael Persbrandt) tenta salvar meninas esfaqueadas e violentadas pela facção criminosa dominante. Anton, como bom médico, não julga as pessoas que atende - não lhe cabe fazer justiça.

Mas Anton se vê diante de uma situação delicada quando, de volta para a sua casa, na Dinamarca, descobre que o seu filho e o novo amigo dele se vingaram do bully do colégio de forma agressiva. Dizer que violência só gera violência não basta, e posar de bom moço que dá a outra face também não adianta. As crianças estão decididas a consumar, também em outros aspectos do seu dia a dia, essa descoberta satisfação de revidar.

Como Susanne Bier nunca foi uma diretora de meias palavras, perdoa-se o seu exagero quase irresponsável de comparar a realidade cruel de um fim de mundo africano com as questões rotineiras dos belos loiros suecos e dinamarqueses. O que torna Em um Mundo Melhor insuportável não são as cenas na África, mas a tentativa constante de enxergar em tudo aquilo que se move na Europa sintomas das doenças gerais da humanidade.

Então, no filme, se a avó do garoto diz inocentemente que "já instalamos internet no seu quarto", ferrou. Internet é a porta do mal. Se o avô guardava fogos de artifício no galpão, boa coisa não há de vir. Se os pais se separam, é um futuro apocalíptico que espera qualquer criança. E se as crianças gostam de passar a tarde no terraço de um edifício precário, então daí já viu. Em um Mundo Melhor é o filme da vida de quem decide educar os filhos em casa e não na escola. Em casa tudo é fotografia saturada, espreguiçadeiras à beira do lago e muitos abraços paternais.

Se pretendia colocar os seus personagens em um contexto complexo, e dar conta dos dramas mais variados, como o luto ou a rixa entre nações, o filme só consegue isolar e esvaziar esses personagens e esses dramas. O medo venceu, enfim. O mal-estar de Susanne Bier com o mundo entra em metástase.

Em Um Mundo Melhor | Cinemas e horários



Comentários (30)

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G. brucew G. brucew (22/07/2013 23:06:29)   986 0
Muitas vezes dramas particulares atingem pessoas de formas tão poderosas como os conflitos mundiais, não importa se a pessoa tem uma condição de vida melhor ou não... Apenas no contexto vc pode entender essas dores, dramas mundiais não tornam problemas locais menores ou maiores, ninguém pode ter a ousadia de julgar o tamanho da dor de uma pessoa... esteja ela na Dinamarca ou no meio de um conflito na África... e quando se está nos dois então, como o personagem, imagine o tamanho do peso que isso pode ter...



sem avatar Cédric (04/02/2012 02:56:53)   0 0
Já tendo esta crítica sido bem contra-argumentada, pouco resta a acrescentar, mas aqui vai mais um pouco:

1) O menino não "cai na provocação" do school bully. Ele não tem escolha. Ele é cercado, encurralado e não atiçado para cair numa provocação. Ele é perseguido. Talvez o crítico não estivesse prestando muita atenção ao ver o filme.

2) Como loiro que sou e, então, posso falar à vontade, pergunto: alguém viu algum(a) sueco(a) ou dinamarquês(a) loiro(a) que pudesse ser chamado de belo(a) no elenco deste filme? Concordo com o Lucas, que disse ser este comentário terceiro-mundista, essa coisa de pressupor que porque alguém tem cabelos loiros e olhos claros, ou mais ainda, porque é nórdico, é bonito. Essa dos belos loiros foi um comentário bem "biased" (tendencioso) mesmo, que só serve para reforçar estereótipos e clichés. Ei! Mas não era o próprio crítico não estava criticando a diretora do filme por ela reforçar estereótippos e clichés?

Caso patente de "telhado de vidro"... ;-)



marcilio marcilio (26/08/2011 18:17:00)   -2 0
Achava injusto o Biutiful não ganhar o melhor filme estrangeiro antes de ver o Hævnen, mas depois de vê-lo lógico que mudei de opinião e não concordei com a critica (acho que é birra com a diretora)



Nataniel Nataniel (03/07/2011 01:19:38)   1 0
Já concordei com muitas criticas do omelete mas essa vou ter de discordar..
Realmente adorei o filme, e pelas inúmeras primiações dele, incluindo o Globo de ouro e o Oscar (esse segundo já diz muita coisa), acredito que eu não fui o único..
Das duas uma, ou a maioria dos criticos e do publico mundo afora, incluindo eu, estão errados e o Hessel está certo.. ou ele está redondamente, absolutamente, e absurdamente equivocado...
prefiro ficar com a segunda opção..



sem avatar RENATO (22/05/2011 16:00:00)   3 0
Foi mal o crítico.

Merecia uns 3 ovos, no mínimo.



sem avatar RENATO (22/05/2011 15:56:06)   3 0
Assisti ao filme hoje. Não é espetacular. Mas, um ovo realmente foi pouco. O crítico foi mal na avaliação.



Mateus Mateus (12/04/2011 21:26:08)   0 0
asuhaush... LAMENTÁVEL!
Que bom, já sabemos como as críticas aqui são acertivas.

1 ovo? Fala sério?!

Acredito que quem não gosta de drama NÃO deveria assistir.
O filme é muito bom e contagia. Várias vezes nos desvia do real final, o que incrementa o DRAMA e causa ansiedade no público.
Pelo menos 3 ovos, senão 4.



sem avatar Lucas (03/04/2011 21:28:09)   0 0
Aliás, o filme discute tbém o seguinte: a moral vem de um imperativo (o DEVER, encarnado pelos menino doidinho e seu amigo: l valentão errou, tem que pagar) ou é correlatas a um fim, um bem a ser alcançado? O próprio médico parece um prussiano do sec. XIX, mas finalmente a sua moral se mostra inútil quando a última moça estuprada morre, e ele é compelido a agir. Neste sentido o filme está sempre oscilando entre dever - moral - ação - bem supremo. Super Kantiano o bagulho!



sem avatar Lucas (03/04/2011 21:20:07)   0 0
Essa é demais: "irresponsável de comparar a realidade cruel de um fim de mundo africano com as questões rotineiras dos belos loiros suecos e dinamarqueses". Só um terceiro-mundista faria esta comparação. Quem tava comparando realidades? A única realidade ali era a questão moral do médico. Ô! O filme é um belo libelo pacifista.

E essa: "enxergar em tudo aquilo que se move na Europa sintomas das doenças gerais da humanidade": ahahah. O filme não fala disto. Por outro lado, ele te fez pensar, veja só. Vc pensou errado, é claro, mas é uma lacuna sua, e não do filme, pois é claro que se poderia pensar o contrário: como a selvageria naquela África fez o cara um pacifista irredutível.

E depois, o filme esboça o perfil de um herói: justo, reto e temerário. A situação extreme, naquele lugar horrível na África é só prá reforçar este caráter.

"Internet é a porta do mal": vc é que se deixa influencia pela sua vó! O filme explica claramente por que o menino é esquizofrênico. Aliás, os dois meninos são mais inteligente que ti: eles têm um senso moral retíssimo: um aplica a lei, custe o que custar, o outro não hesita se arriscar para salvar mãe e filha inocentes: ele quer aplicar a justiça e nada mais que isto.



Joaquim Henrique Joaquim Henrique (28/03/2011 21:04:21)   0 0
É uma vergonha esse filme receber um ovo. Hessel deveria fazer o curso do Pablo Vilaça e aprender a escrever melhor... pelo menos desenvolver melhor suas críticas, pois elas são muito vagas e não ditam o que foi bom e o que foi ruim no filme e sim apenas o que ele pensa de alguém ou de alguma coisa. Tá parecendo o Maurício Saldanha do Cabine Celular.Vago, sem conhecimento, apenas um cinéfilo como eu.



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sem avatar Samir (15/03/2011 01:06:15)   0 0
Achei o filme maravilhoso! Sou professor de "sociologia" e achei a temática forte e envolvente. Em muitos aspectos verdadeiros e como qualquer filme, um pouco maniqueísta em alguns momentos. Achei sensível e interessante a visão do personagem Anton, o médico, de tentar provar que há outros meios de se conviver, além da violência! Não sou crítico, é claro, mas minha opinião como educador e "pai": ÓTIMO FILME!



sem avatar Marcelo (14/03/2011 09:06:29)   0 0
É tão ruim quando alguém fica com dor de cotovelo por ter apostado em algo e perdido e depois fica esnobando o resto como uma ofensa pessoal. A resenha é estritamente pessoal baseada em conceitos próprios. Isso fica evidente no 5° parágrafo do texto.
Escrever baseado apenas no que um filme tem de pior é o mesmo que dizer por aí que o Rio de Janeiro continua lindo, ou seja argumentos falsos meramente pessoal.


sem avatar Jacinto (16/03/2013 01:30:45)   0 0
Marcelo, e isto mesmo, penso que o Sr. Hessel errou. A tematica do filme e atual, bom roteiro, etc. Quando lemos a critica e ja termos assistido ao filme, fico pensando e comparando com as obras brasileiras. Simplesmente os nossos terao muito a aprender. Na critica, smj, acho que pesou um pouco de preconceito com o cinema dinamarques, que nos brinda, sempre com grandes obras.


Ad Samp Ad Samp (13/03/2011 02:30:36)   181 0
O único porém do filme, em minha opinião, são os diálogos desnecessários em situações cujas as imagens já deixaram bem claras.

Contextualizar o sofrimento em momento de clímax, é algo que beira o ridículo.

Afinal, desde o início do filme, ficamos sabendo de que "mal" os garotos sofrem.

E esse mal, nem de muitos anos-luzes, chega perto do que sofrem as crianças africanas.

Ainda assim daria 3 eggs, pelo dinamismo com que ela conduz a película.



Everaldo Menezes Hartmann Everaldo Menezes Hartmann (12/03/2011 18:45:54)   0 0
Hehehe, é sempre divertido vim aqui ler as criticas do marcelo... fala sério Hessel !! ... "em um mundo melhor" é um bom filme sim.. diria ate que é o melhor da Susanne Bier ..que foi muito bem em "depois do casamento" .... sua critica chegar parecer preconceituosa tanto num contexto geografico quanto politico ... se vc nao tem flexibilidade para fazer criticas sobre melodramas .. não perca seu tempo !!!



sem avatar Tarcisio José (12/03/2011 14:07:17)   0 0
Não acho ki o Filme seja ruim. Na verdade o ki mais está parecendo a acidez usada como sinal de boa crítica. Em Um Mundo Melhor é sim, um excelente filme. Outro que já foi injustiçado aki foi o A Origem, e francamente, criticar um filme inteligente como akele foi foda, mas chmar essa fábula (embora melodramática) ao comportamento violento das crinaças de hoje é imperdoável. Na verdade, foi uma das primeiras vezes em que achei o oscar justo ao filme estrangeiro.



edgar edgar (11/03/2011 17:37:12)   143 0
sonho no dia em que o Hessel de 5 Ovos para um filme que eu queira ver...



Raphael Raphael (11/03/2011 16:19:19)   8 0
"Mal-estar de Susanne Bier com os dramas eurocêntricos entra em metástase". KKKKKKKKKK. Só rindo.



Renan Pacheco Renan Pacheco (11/03/2011 16:17:12)   -2 0
O Hessel tá certissimo em sua critica, esse filme não deveria ganhar o Oscar, e sim o do Lula.

Metástase é algo muito sério pra ficar se usando em critica de filme como de fosse uma palavra qualquer do dicionario.



sem avatar Cleidson (11/03/2011 12:34:28)   1 0
Só Hessel trabalha é?
As críticas são inteligentes, e as de filmes ditos ruins são ainda mais divertidas, acabam incentivando você a conferir, na maior parte das vezes, devido à diversão da leitura da crítica...



Cavaleiro_da_Lua Cavaleiro_da_Lua (10/03/2011 23:00:53)   -1 0
Venho aqui, não para criticar o Hessel, mas apenas para dizer que eu não entendo as críticas dele. Nao no sentido literal, mas digo:
Ele deu 2 ovos para Biutiful (Bardem indicado pra melhor ator; filme indicado pra melhor estrangeiro)

Agora ele dá 1 ovo pro filme que ganho o oscar.

Já falaram aí embaixo que é infantilidade compararem isso. Eu acho que é muito mais azar do hessel de SER O HESSEL quem tem de assistir esses filme, do que infantilidade nossa.

Eu trato o Hessel como um incompreendido do mundo crítico. ponto.
=D uuahsuahusa



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Kick Ass Kick Ass (10/03/2011 22:32:22)   -85 0
Um filme sensacional e para uma crítica medíocre, mal construída e de argumentos idiotas.
Querem uma crítica de verdade à respeito deste filme, vão, então, no Cinema Em Cena ler a resenha do Pablo Villaça.



Estrangulador Mexeriqueiro Estrangulador Mexeriqueiro (10/03/2011 19:14:11)   0 0
4 críticas de vez?

Alguém andou apostando demais em mãos ruins no pôquer do escritório.



sem avatar Alisson (10/03/2011 18:27:30)   2 0
Ñ vi ñ posso comentar,e nem falar mal da critica.



Ritter Ritter (10/03/2011 18:18:42)   71 0
Gente, é de uma ignorância atroz dizer que críticos estão "errados" ou "certos". Opiniões são opiniões. Respeite-as para serem respeitados.

E dizer que, se o filme ganhou o Globo de Ouro e o Oscar, então a crítica não pode ser negativa é de uma infantilidade impressionante.

Discordem, mas discordem de maneira inteligente.



sem avatar João Thiago (10/03/2011 18:15:00)   12 0
Hahahhaha...pelo menos aprendi uma palavra nova.



Lico Blade Lico Blade (27/02/2011 23:38:25)   1585 0
Caramba, pensei que o Forlani estivesse brincando... hehehe

1 ovo mesmo! Mas é isso aí... a vida é assim mesmo... liga não, Hessel.



Samuel Samuel (19/01/2011 11:43:34)   117 0
Hessel, essa crítica sua foi uma das melhores que já escreveu. Não vi o filme, mas pelos temas que você relaciona provavelmente é este senso de moral distorcida que levou a muitas pessoas a premiarem o filme. Você é o melhor crítico do Omelete e sugiro que continue assim.
Um abraço
Samuel Mendes
Belo Horizonte



Andrei Andrei (17/01/2011 08:40:11)   0 0
Até o Globo de Ouro não confia nas críticas do Hessel. Esse filme ganhou como melhor filme estrangeiro de 2011 !! #chupahessel



Fábio Fábio (14/12/2010 16:41:36)   30 0
O filme leva 1 OVO do Omelete... e é um concorrente ao prêmio de melhor filme estrangeiro do Globo de Ouro.


Por isso que a crítica é tão criticada nos comentários dos leitores... rsrsrs




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