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Homens e Deuses | Crítica

Concorrente da França ao Oscar, premiado em Cannes, encontra a hombridade que há nos votos de fé

Marcelo Hessel
14 de Abril de 2011

Of Gods and Men

Of Gods and Men

Des Hommes et des Dieux
França , 2010 - 120 minutos
Drama

Direção:
Xavier Beauvois

Roteiro:
Etienne Comar, Xavier Beauvois

Elenco:
Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin

Ótimo
of gods and men
des hommes et des dieux
oscar 2011
festival do rio

Apropriadamente, chama-se Christian o monge cisterciense francês que impede a entrada de armas no mosteiro instalado em Tibhirine, na Argélia. Transcorre em 1996 a guerra civil no país, e os insurgentes jihadistas assassinam operários croatas e intimidam a população árabe. É uma questão de tempo até que tomem o mosteiro, mas Christian, vivido em Homens e Deuses (Des Hommes et des Dieux, 2010) pelo ator Lambert Wilson, recusa a ajuda armada do governo argelino.

O filme do diretor Xavier Beauvois, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes e escolhido da França para disputar um lugar no Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, reconta o episódio real ocorrido no mosteiro trapista, cujo desfecho até hoje é motivo de controvérsias. Beauvois está interessado, de qualquer forma, menos no final do que no trajeto: mostrar o que envolve a decisão dos franceses de permanecer desarmados no país em conflito, posição que qualquer pessoa veria como opção pelo martírio.

O primeiro terço de filme se dedica a mostrar como os monges - compatriotas de uma nação que, na visão do presidente da Argélia, atrasou com seu imperialismo o desenvolvimento da ex-colônia - conciliam a liturgia católica com a atenção às necessidades da vila muçulmana que cresceu ao redor do mosteiro. A literatura árabe que sempre aparece nas mãos dos franceses é um símbolo óbvio, em um filme que inicialmente se ocupa em registrar sem pressa a rotina em Tibhirine: os estrangeiros distribuem calçados, alimentos e remédios, comparecem a festas de aniversário e batem palmas no ritmo da cantoria árabe.

Uma das cenas mais importantes desse começo de Homens e Deuses é o primeiro de muitos cânticos que escutamos entoados na capela. São sete os monges, todos eles de costas para a câmera. Representam, ali, a unidade da igreja - uma igreja que tem no mapa-mundi pregado na parede o seu post-it perpétuo. A partir do momento em que surge a ameaça terrorista - e os seis outros monges condenam a decisão que Christian toma sozinho - as individualidades começam a despontar. Há quem queira partir de volta para a França, outros querem ficar. Até o seu final, Homens e Deuses se ocupará de encontrar os sete homens por baixo das vestes dos monges.

E é em momentos assim que não apenas se identificam os homens de valor como também os religiosos de fé. Ao mesmo tempo em que, progressivamente, deixa a vila de lado, a câmera de Beauvois busca as trivialidades do mosteiro, humaniza os monges. Numa manhã, um diz que gostou muito de um sermão de Christian, outro responde que não entendeu nada, e leva de volta um xingamento.

Nesse ponto, os cânticos já acontecem com os rostos voltados para a câmera. O ápice é a ceia em que toca numa fita cassete "O Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky, e Beauvois vai, um a um, fechando os close-ups nos homens, a essa altura já decididos em relação ao futuro do mosteiro. Num filme que fala sobre a leitura que tanto católicos quanto muçulmanos fazem de seus escritos sagrados, e a responsabilidade que essa leitura acarreta, Homens e Deuses parafraseia o salmo que, nos créditos iniciais, havia servido de epígrafe: "Vós sois deuses / Todavia morrereis como homens".

Homens e Deuses | Cinemas e horários


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Comentários (11)

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marcilio marcilio (29/01/2012 17:28:07)   -6 0
Não achei o filme TÃO bom assim,mas esse assunto e o tema (que foi muito bem relacionado no filme) fazem com que esse filme seja ótimo...
ponto positivo pro Hessel



sem avatar rafael (25/09/2011 22:50:38)   0 0
adorei o filme,só nao vá após uma noite mal dormida,sob o risco de capotar com os cantos gregorianos!!!



Julianna Julianna (23/04/2011 21:59:28)   6 0
Geralmente espero BASTANTE de um filme de festival, ainda mais se for fala em outra lingua sem ser o habitual ingles e posso afirmar que esse cumpriu 'o requisito'. Otimo como tratam com tanta peculiaridade a relação dos personagens!
AMEI!



Bruno Bruno (22/04/2011 00:29:37)   8 0
Melhor coisa que eu vi no cinema esse ano.

LIBERA O QUINTO OVO AE HESSEL!



iarcovich iarcovich (19/04/2011 23:59:55)   0 0
Apesar de ser "nojento" esse véu de maia, da retratação da razão a serviço da fé, como bem queriam esses leitores de escrituras (ditas sagradas, mas escritas por homens de pênis feito eu)

O filme tem seu mêrito, por retratar esse recorte de periodo, e suas conflitantes questões... Pela fidelidade de retratação e abordagem, realmente merece uma nota boa...




sem avatar Analucia (19/04/2011 22:22:39)   0 0
Gostaria de saber se alguem concorda comigo sobre a citação do Cristo de Mantegna,(o quadro da Renascença) quando o rebelde ferido, que veio para ser tratado no convento, é mostrado deitado visto a partir dos pés.
Muito sutil e rápido, a camera não demora para evidenciar demais isso.
É um filme muito bom, reflexivo, principalmente sobre a morte.



sem avatar Ana Maria (16/04/2011 21:42:31)   0 0
Assisti e amei.



Red Son Red Son (15/04/2011 18:14:06)   -1 0
le psaume 81 : "Vous êtes des dieux, des fils du Très-Haut, vous tous ! Pourtant, vous mourrez comme des hommes, comme les princes, tous, vous tomberez"



sem avatar Gonçalves (15/04/2011 15:48:28)   1 0
Esse HARDY é um Tr00 mesmo.

Como sou admirador do cinema francês, esperarei esse estrear aqui, sabendo mesmo que isso é quase impossível, ja que aqui é só blockbuster.
Esses são o tipo de filme que me fazem acessar o site, já que costumo quase sempre assistir esses tipo de filme, que a grande maioria aqui julga ser de pseudo intelectual, e varios outros adjetivos, isso para compensar a frustração de não puder ver ninguem que só vê cinema europeu, ou que da notas altas só para cinema europeu



sem avatar Brian (15/04/2011 15:41:15)   0 0
Olha só, 4 óvos numa crítica desse rapaz é algo realmente dificil de se ver!!....Num contexto geral, eu não gosto das criticas do Heseel, mas se tiver um tempo vou tentar ver esse filme.



HARDY HARDY (14/04/2011 22:13:18)   -5 0
filme francês?

CHAMA O HESSEL!!!!!!




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