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Crítica: José e Pilar

História de amor aludida no título fica secundária ao retrato de Saramago, já "próximo da porta de saída"

Carina Toledo
25 de Outubro de 2010

José e Pilar

José e Pilar

José e Pilar
Portugal, Espanha, Brasil , 2010 - 125 min
Documentário

Direção:
Miguel Gonçalves Mendes

Elenco:
José Saramago, Pilar del Río

Ótimo
José e Pilar
José e Pilar
José e Pilar

Em José e Pilar (2010), a intenção do cineasta lusitano Miguel Gonçalves Mendes é mostrar o relacionamento de José Saramago com a jornalista espanhola Pilar Del Río. No entanto, a impressão mais forte que fica é o retrato do escritor, já "próximo da porta de saída", como ele mesmo, aos 84 anos, descreve seu momento de vida.

Com sua morte tão recente - foi em 18 de junho deste ano, aos 87 anos, que Saramago veio a falecer -, acompanhar o Nobel da Literatura nas telas até em cenas banais, como jogando Paciência no computador, dará um sentimento de saudade aos fãs. Em alguns momentos, até se esquece que aquele velhinho afável é o autor de obras tão controversas, que despertaram a ira de conservadores e católicos ao redor do mundo.

José e Pilar, que começou a ser rodado em 2006, acompanha o dia-a-dia de Saramago enquanto escreve A Viagem do Elefante e sua posterior turnê de lançamento. Ali tomamos conhecimento do suporte prestado por Pilar, que administra a agenda do autor, seus compromissos, cartas e convites para participar de solenidades. Chega a ser cômica a esnobada de Saramago a um convite do Dalai Lama, cujos assessores parecem ter esquecido a convicção de ateu e comunista do escritor.

No entanto, apesar de Pilar mostrar-se uma mulher extraordinária, de forte visão política e apresentar muita classe ao revidar os ataques da imprensa lusitana, que tenta retratá-la como a Yoko Ono da Península Ibérica, sua presença no filme é sempre secundária ao carisma de Saramago. É evidente a paixão do casal e talvez o José como o conhecemos não existiria se não fosse por Pilar, mas é apenas por causa do marido e das polêmicas que o relacionamento gerou que ela se torna merecedora de destaque - Pilar é 26 anos mais jovem que ele, acusada de roubar Saramago de sua pátria-mãe para viver nas Ilhas Canárias, entre outras pirraças dos portugueses.

Como narrativa, um dos principais méritos do filme é não se utilizar da linguagem tradicional do gênero documentário, mas ainda assim cumprir sua função. Não temos aqui entrevistados sentados em um cenário previamente preparado e trechos de notícia só são inseridos quando José e Pilar estão realmente assistindo a TV ou ouvindo rádio.

Assim, chegando ao fim do texto somos levados de volta ao primeiro parágrafo, para elaborar o ponto mais tocante desta história, que não é o amor de José e Pilar. São as reflexões sobre a finitude da vida, trazidas ao espectador pelas declarações de Saramago, que ficam após os créditos. E realmente, não deve haver tristeza e sentimento de impotência maior que "sentir, como perda irreparável, o findar de cada dia".

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Comentários (3)

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Eduardo Eduardo (07/11/2010 14:54:13)   -4 0
E só não subiu para as estrelas, pois à terra pertencia, e a Pilar.



sem avatar Renato (07/11/2010 12:55:23)   0 0
È interessante notar que a arte desperta diferentes sensações e percepcções em seus apreciadores.O filme que vi retrata uma história de amor e companheirismo entre dois questionadores.Pilar de maneira alguma fica em "um plano secundário", como afirma a crítica; ao contrário, por vezes rouba a cena.
A angústia de um sujeito que ama a vida e se apavora diante do fim que se aproxima é atenuada pela força de uma mulher que o acompanha e o direciona.
Numa verdadeira história de amor, não há protagonismo.



césar césar (25/10/2010 17:48:02)   0 0
Senhorita Toledo mandando muito bem nessa crítica! Não sei se é porque eu sou um fã inconsolável de Saramago, mas o texto está ótimo, e conseguiu, sem que eu ainda tenha visto ao documentário, levantar todas as emoções que eu espero que o filme traga à tona.
Sucesso, dona Carina!




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