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Crítica: Não, Minha Filha, Você não irá Dançar

Chistophe Honoré abdica de números musicais, mas seus amantes trágicos ainda devem seguir dançando

Marcelo Hessel
14 de Janeiro de 2010

Não, Minha Filha, Você não irá Dançar

Não, Minha Filha, Você não irá Dançar

Non ma Fille, Tu n'iras pas Danser
França , 2009 - 105
Drama

Direção:
Chistophe Honoré

Roteiro:
Chistophe Honoré e Geneviève Brisac

Elenco:
Chiara Mastroianni, Marina Fois, Jean- Marc Barr, Marie-Chiristine Barrault, Marcial Di Fonzo Bo, Fred Ulysse, Louis Garrel, Alice Butaud

Bom
honoré
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Nos filmes do diretor francês Chistophe Honoré que já chegaram ao circuito brasileiro - Em Paris, Canções de Amor e A Bela Junie - o cupido, ainda que fadado a machucar, gera amor sem distinções e sem descanso. Nesse sentido, o filme mais recente de Honoré, Não, Minha Filha, Você não irá Dançar, é o passo seguinte: o que está vitimando Lena é o excesso de amor que se acumulou ao seu redor com os anos.

É um passo adiante também porque a faixa etária dos personagens de Honoré subiu ligeiramente. Saem os jovens adultos, entram os casais com filhos (e a paternidade ganha o centro dos dramas). As fãs de Louis Garrel podem, porém, se despreocupar: o ator-símbolo do diretor, aquele que personifica o lado mais lúdico-afetado de Honoré, continua em cena.

Lena é vivida por Chiara Mastroianni, coadjuvante dos filmes do diretor que aqui se entrega com raça à chance do protagonismo. A personagem passou recentemente por um divórcio e está naquela fase em que todos tentam tomar decisões por ela: a irmã agenda uma entrevista de emprego para Lena, a mãe chama o ex-marido para uns dias na casa de campo para testar uma possível reconciliação da filha com o cara etc.

A protagonista só consegue pensar em seus dois filhos pequenos. Instintivamente, dobra os cuidados, dobra as brincadeiras, sente que precisa ser pai e mãe, como se o divórcio na verdade fosse uma viuvez. Com isso só consegue sufocar os filhos com o mesmo excesso de zelo que dedicam a ela - e a trama do filme se desenrola de angústia em angústia a partir desse conflito de geração desdobrado em dois.

Honoré enxerga o mundo, em certa medida, como Lena: tudo é reiteração de um incontornável vaticínio. Se a mãe tira um cigarro da mão da filha, não é porque está preocupada com a saúde dela, mas porque instintivamente precisa reforçar seu controle maternal. Seja a imagem da caixa de um tabuleiro, um prato de Bart Simpson, as fotos de Cary Grant e Ingrid Bergman em um lobby de cinema ou um pássaro morto, tudo é simbolismo. O francês chega a interromper a trama para contar uma nova história-alegoria, como se já não dispusesse de simbolismos suficientes.

Aliás, embora Honoré não quebre a narrativa com números musicais, como costuma fazer - afinal, este é um filme "adulto" -, a ideia de que não podemos renunciar, de que "temos que seguir dançando", está mais presente do que nunca. A imagem da eterna dança como um lema e uma maldição, que une figuras trágicas distintas como o Juiz Holden de Meridiano Sangrento ou o protagonista de Dance Dance Dance de Haruki Murakami, não é diferente com Lena.

Devem, enfim, fazer a alegria dos psicanalistas os filmes de Honoré. O truque do diretor, de momento em momento, é vacinar as suas neuroses com um pouco de auto-ironia. No caso de Lena, quando ela visita a escola do filho e o toca pela grade do pátio, o moleque solta uma ótima: "Sem drama, mãe". Menos drama seria bom... Mas o que sobra sem drama?

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