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Crítica: O Dia da Transa

Comédia dramática leva o conceito de bromance ao extremo

Marcelo Hessel
23 de Outubro de 2009

O Dia da Transa

O Dia da Transa

Humpday
EUA , 2009 - 94
Comédia

Direção:
Lynn Shelton

Roteiro:
Lynn Shelton

Elenco:
Mark Duplass, Joshua Leonard, Alycia Delmore, Lynn Shelton

Ótimo
o dia da transa
o dia da transa
o dia da transa

O conceito de bromance - amigos que até abrem mão do sexo oposto em nome de sua amizade - é levado ao extremo na comédia dramática O Dia da Transa (Humpday), uma espécie masculina e bastante melhorada de Beijando Jessica Stein.

Ben (Mark Duplass) e Andrew (Joshua Leonard) não se viam há anos, mais exatamente desde que o primeiro abortou a aventura que os dois fariam juntos mundo afora. Ben virou o típico mauricinho, com um emprego em transporte de cargas e uma esposa que está tentando engravidar. Andrew, que acabou pegando a estrada sozinho, nunca mais parou - e por isso virou o eterno solteiro sonhador que não concretiza nada na vida.

A trama parte do dia em que eles se reencontra, quando Andrew, chegando de viagem pelo México, bate na porta do casal atrás de um lugar para dormir. A comédia estilo três-é-demais logo ganha outros contornos - na noite seguinte, Andrew arrasta Ben para uma festa, e os dois, depois de muito rir e beber, combinam de fazer um pornô entre si.

O pretexto seria a oportunidade de inscrever um filme de fato transgressor - um pornô gay heterossexual - no festival de pornografia artística Humpfest, mas, evidentemente, entre Ben e Andrew, a situação não é tão simples. Um está querendo provar que não é careta como o amigo pensa. O outro, que consegue ir até o fim com um projeto. E eles vão mesmo transar para se afirmar - afinal, está em jogo ali não só a imagem que criaram socialmente, mas a imagem que fazem de si mesmos.

Essa questão da imagem é central (Ben se vestir e se portar como "mano" no dia seguinte à bebedeira é emblemático), e ela só vai se resolver - ou não - no tal dia da transa. Contrariando o espectador descrente, os dois levam sua promessa aos finalmentes, e a cena no quarto de hotel é o nervo do filme.

É aí que o pequeno grande trabalho da diretora Lynn Shelton (que interpreta a lésbica Monica no começo do filme) mostra a que veio. Sem grandes invenções estéticas, trabalhando basicamente com texto, escudada em dois atores bastante afinados, ela demonstra como é difícil desconstruir uma autoimagem. Pela forma como Ben e Andrew conversam, como modulam sua voz ou mudam seu vocabulário para falar a língua do outro ou soar profundos, como tentam se convencer (e convencer a si mesmos) da decisão que estão tomando...

O teatro social, constituído de espelhos, é encenado de forma bastante melancólica neste final de O Dia da Transa. O enrustido pode não ser quem se dizia, mas o outro, por exemplo. Não se espante se os personagens terminarem o filme sendo as mesmas pessoas que o começaram - o que muda, no fundo, é a maneira como nós os enxergamos de fora.

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