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Crítica: O Homem Que Comia Cerejas

Um filme iraniano que não tem longas tomadas sobre o deserto

Marcelo Forlani
28 de Outubro de 2009

O Homem Que Comia Cerejas

O Homem Que Comia Cerejas

Mardi ke Gilass Hayash Ra Khord
Iran , 2009 - 77
Drama

Direção:
Payman Haghani

Roteiro:
Payman Haghani, Hamid-Reza Keshani

Elenco:
Hassan Pourshirazi, Asha Mehrabi, Reza Afshar, Maryam Khodarahmi

Bom
O Homem que Comia Cerejas

Quando O Homem Que Comia Cerejas (Mardi ke Gilass Hayash Ra Khord, 2009) começa, em preto e branco e mostrando mãos trabalhando em grandes máquinas, fica a impressão de que algum acidente vai acontecer por ali. E não dá outra. Um dos trabalhadores de uma fábrica de borracha prende seus dedos na ferragem e começa a urrar de dor. Uma ambulância é chamada, mas os colegas preferem correr com ele para o hospital. Os que ficam começam a especular: teria ele deixado a mão ali de propósito para receber uma compensação pelo acidente de trabalho? Ou teria sido apenas um descuido?

A questão fica na cabeça de Reza (Hassan Pourshirazi), um desses operários. No ônibus de volta para casa, ele é convidado para ir à casa de um dos amigos para ver um jogo. Inicialmente diz que não, que precisa ir para casa, pois sua esposa está pegando no seu pé, mas acaba sucumbindo ao convite.

Em sua casa, Zari, prepara o jantar, limpa o banheiro, arruma a cozinha... e a mala. Quando Reza chega, ela já está longe. O grande motivo de sua insatisfação é a incapacidade do seu marido em lhe dar um filho.

O diretor e roteirista estreante em longas-metragens Payman Haghani usa o preto e branco para destacar o sofrimento do casal e contrastá-lo com seus sonhos. Reza fica arrasado com o pedido de divórcio e se desespera quando fica sabendo que a ex-esposa exige uma fortuna para continuar sua vida e comprar uma casa na capital, Teerã. Depois de tentar em vão reconquistá-la, Reza começa a imaginar o que terá de fazer para saldar sua dívida com Zari.

Haghani consegue fugir do clichê de "filme iraniano", que se caracterizam por takes infinitos mostrando paisagens de deserto em que nada acontece. Apesar de estarem ali os planos contemplativos, o filme toca em um assunto cada vez mais universal: a separação. Além disso, sobra tempo também para mostrar os fortes traços da sociedade machista em que Zari está inserida. É este enfoque no lado pessoal acaba se tornando o grande trunfo do filme.

Sobre o título, quem vai ao cinema ver os filmes iranianos sabe que nem sempre ele tem a ver com a história. Mas dessa vez existe, sim, um homem que comia cerejas. Mas o que um dia foi sinônimo de alegria passa a ter um sabor bem diferente.

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