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Crítica: Outro Mundo

A sujeira segundo o olhar de Mateo Guez

Érico Borgo
01 de Novembro de 2009

Novo Mundo

Novo Mundo

Nuovomondo
Itália/França , 2006 - 112
Comédia / Drama

Direção:
Emanuele Crialese

Roteiro:
Emanuele Crialese

Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Federica De Cola, Vincenzo Amato, Francesco Casisa, Ernesto Mahieux, Andrea Prodan, Filippo Pucillo, Aurora Quattrocchi, Vincent Schiavelli

Ótimo

Estreia como diretor solo em longas-metragens do diretor, escritor e produtor francês Mateo Guez, Outro Mundo (Off World, 2009) é exemplo do tão falado amor pelo cinema.

O cineasta trabalhava temporariamente nas Filipinas quando conheceu a Montanha Esfumaçada, uma ilha que serve de lixão e que abriga uma enorme favela. Vivendo em casas de papelão e restos, moradores do local escavam o solo em busca de legumes podres que, cozidos, são transformados em pasta e fritos para remotamente lembrar alguma espécie de alimento. No céu, uma eterna cortina de fumaça formada pela combustão espontânea do gás metano.

Esse cenário desolador emocionou Guez, que decidiu retornar ao local e transformá-lo no palco de seu primeiro longa. Curiosamente, não optou por um documentário, mas realizou ali um drama.

Na trama, o jovem Lucky decide voltar às Filipinas pela primeira vez desde que foi adotado, com apenas um ano, por uma família canadense. A única informação que possui é a existência de um irmão, que ainda mora numa favela de Manila, onde toda sua família foi criada. É uma história simples, de busca às origens, de desejo de encontrar um rumo para o futuro, mas bastante profunda, sendo a grande pergunta proposta qual é o papel de cada um no mundo.

É dolorosa a maneira como Guez - que trabalhou com Bernardo Bertolucci em Os Sonhadores - extrai certa beleza da podridão. O solo composto de detritos parece vivo, com tantos elementos movendo-se com o vento. Quadros como o da pinguela sobre um leito de rio seco, tomado por lixo, são até poéticos. Para obter essas composições, o diretor não poupou esforços. Desacreditado, levou dollies e gruas à ilha e optou por rodar em Super 35mm. Sob o olhar de Guez, com sua técnica, o lixão se transforma.

Até o problemático final é justificado. Ele se arrasta mais que o necessário numa sucessão de fades. É o diretor não conseguindo se separar de seus personagens, de sua ilha. Em meio à sujeira, Guez encontrou seu lugar no mundo.

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