Crítica: Quatro Noites com Anna

Jerzy Skolimowski volta a filmar depois de 17 anos, com uma pequena história que cresce aos poucos

Marcelo Hessel
24 de Setembro de 2010

Quatro Noites com Anna

Quatro Noites com Anna

Cztery noce z Anna
França / Polônia , 2008 - 87 minutos
Drama

Direção:
Jerzy Skolimowski

Roteiro:
Jerzy Skolimowski, Ewa Piaskowska

Elenco:
Artur Steranko, Kinga Preis, Jerzy Fedorowicz, Redbad Klynstra

Excelente
skolimowski
quatro noites com anna

O cineasta polonês Jerzy Skolimowski, digno de um discreto culto de cinéfilos e vencedor de prêmios em Cannes e Berlim dos anos 60 aos 80, ficou sem filmar entre 1991 e 2008. De um longa-metragem de retorno pode-se sempre esperar algo triunfal, mas Skolimowski preferiu fazer um filme pequeno, Quatro Noites com Anna (Cztery noce z Anna, 2008).

É com falsas primeiras impressões que o coroteirista e diretor joga no princípio. Conhecemos Léon (Artur Steranko), sujeito estranho que vive com a mãe, incinera mãos decepadas e precisa urgentemente de um machado novo. Na rua, sob um zumbido na trilha sonora que a cada instante aumenta mais, Léon observa de longe o vaivém de duas enfermeiras. Ao se olhar no espelho, o homem parece não gostar do que vê.

É a cartilha dos filmes de maníaco, claro, mas Skolimowski inverte a lógica - e a linearidade da trama - no dia em que Léon presencia uma mulher sendo violentada. A cena o congela. Léon só desperta quando escuta as sirenes, e o estuprador, encapuzado, foge antes de ser identificado. Rapidamente descobrimos que a vítima é uma das enfermeiras, Anna (Kinga Preis).

Quatro Noites com Anna pode ser classificado como um filme pequeno porque boa parte da trama se passa entre a casa de Léon e o dormitório de Anna - ele, obcecado por ela, passa justamente quatro noites visitando-a durante o sono. A premissa mínima, porém, alcança desdobramentos vigorosos. Skolimowski conta aos poucos, sem arroubos, uma grande história de voyerismo e, por que não, necrofilia (Léon trabalha com cadáveres, corteja uma Anna eternamente adormecida etc.)

A arte de fazer muito com pouco fica latente na escolha da trilha sonora - não apenas os pequenos barulhos que sustentam o suspense, mas principalmente a bela música incidental de Michal Lorenc - e da iluminação. Skolimowski coloca Léon nas sombras, para pontuar seu tormento, mas não exagera no chiaroscuro a ponto de Quatro Noites com Anna parecer barroco demais. Aqui esse equlíbrio alcança o sublime: sem ser afetado, Skolimowski ainda assim faz um filme de rigor estilístico mais do que evidente. O plano final é de uma simplicidade e de uma clareza que dóem.

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Comentários (7)

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sem avatar heitor (27/09/2010 17:13:56)   30 0
Skolimowsky > Kubrick, Indiana Jones, Amelie Poulin, Transformers, Homem Aranha,Má educaçao, Aronofsky, Assayas etc...



Henrique Henrique (27/09/2010 11:39:30)   -1 0
Alex aí embaixo esqueceu os "pontos". Tá esquizofrênico esse post, hein irmão!



Vasconcelos Vasconcelos (26/09/2010 16:18:19)   -1 0
Leio todas as críticas mas não comento em todas. Não ia comentar essa aqui, mas para fazer volume no número de comentários e tentar mudar um pouco o quadro cultural dos leitores do omelete (que preferem, como disse o colega abaixo, comentar filmes pipocas) deixo essas palavras aqui. rs



Ciro Ciro (25/09/2010 07:19:27)   41 0
O problema dos poucos comentários é porque ninguém viu o filme, fora o Hessel, claro. Assim fica difícil falar alguma coisa. Já os "pipocas" passam em todos canto e todo mundo tem uma opinião. Acho também que há que relativizar essa questão do que é ter ou não conteúdo. Mozart fez Don Giovanni (talvez a melhor ópera de todos os tempos), mas também fez A Flauta Mágica, que é uma obra mais para o povão. Era como se o Kubrick fizesse 2001 e também Indiana Jones...



pirs pirs (24/09/2010 22:25:21)   2 0
Se um filme desses estreasse aqui, eu veria sem pensar duas vezes. Interior é foda.



Ad Samp Ad Samp (24/09/2010 21:06:01)   181 0
"Eu sou burro demais pra filmes de 5 ovos então nem comento"

hahahaha!!

Todos os filmes não americanos, e cuja crítica é feita pelo Hessel, ganham 5 eggs.

Eu não sei se sou tão inteligente para entender esses filmes, como disse o amigo aí em baixo, ou são tão bizarros que uma super-crítica é uma espécie de prêmio de consolação, tendo em vista que esse tipo de filme tá fora do circuitão.

Típico filme para assistir em uma noite chuvosa e fria, depois que você cansou de apertar o botão CH do controle em busca de algo interessante.

Mas como sempre digo: Vou ver com certeza(Quando passar no Canal Cinemax).




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