Quelque Chose à te Dire
França
, 2009
- 100
Drama
Direção:
Cécile Telerman
Roteiro:
Cécile Telerman e Jérôme Soubeyrand
Elenco:
Mathilde Seigner, Pascal Elbé, Charlotte Rampling, Olivier Marchal, Patrick Chesnais, Sophie Cattani e Jérôme Soubeyrand
A psicologia de programa de rádio é o equivalente francês da nossa filosofia de buteco. No país dos existencialistas vive-se de discutir o sentido das relações e da vida - e é, literalmente, com um programa de rádio que começa o filme francês Algo que Você Precisa Saber (Quelque Chose à te Dire). O tema do dia: como filhos reproduzem erros e acertos dos pais.
Está dada a senha. Ainda que seja um típico drama de múltiplos protagonistas, o filme da diretora Cécile Telerman tem uma única agenda para todos eles: submeter os personagens às mais diversas edipianices. Antoine (Pascal Elbé) não consegue sucesso na carreira por que é o seu pai endinheirado que lhe custeia os negócios. Já o policial Jacques (Olivier Marchal), que perdeu o pai ainda criança e foi abandonado pela mãe, está no caminho de fazer o mesmo com o próprio filho. E por aí vai.
Como na vida, a rotina dos personagens está cercada de fórmulas e receitas para apaziguar essa epidemia de infelicidade: terapia, remédios, cartas de tarô. O roteiro de Telerman sabe ser irônico diante dessa situação - em certo momento o marido sugere que a esposa se case logo com o psiquiatra dela, que afinal a conhece tão bem - mas logo em seguida abraça o drama de gerações mais rasteiro ("se o seu pai morrer, a culpa vai ser sua!").
O problema maior de Algo que Você Precisa Saber, no entanto, é anterior aos diálogos, e está impregnado no argumento e na concepção dos personagens. Todos estão a serviço do esquematismo mais primário (a história da moto é o ápice), e a prova contundente é a forma como Telerman se utiliza da subtrama da irmã caçula, a enfermeira Annabelle (Sophie Cattani).
Ela aparecia transando com um médico no começo do filme - um começo de cortes cruzados que apresentava todas as subtramas - e sem segundo aviso é colocada de escanteio. Daí, quando o roteiro precisa de uma situação ex machina (a cena da moto) para justificar a premissa psicologizante, oportunamente volta o pequeno drama da enfermeira. Não dá pra jogar com a "vida" de personagens assim.
E de manipulações amadoras assim o cinema francês não precisa. Aliás, se há críticos e cineastas acusando parte da cinematografia do país de dormir no divã e se fechar em seus falsos dilemas burgueses, diante de filmes como Algo que Você Precisa Saber fica difícil contra-argumentar.
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