Stella
França
, 2008
- 103
Drama
Direção:
Sylvie Verheyde
Roteiro:
Sylvie Verheyde
Elenco:
Léora Barbara, Mélissa Rodriguez, Laëtitia Guerard, Benjamin Biolay, Karole Rocher, Guillaume Depardieu
Vai de A a Z - de Antoine Doinel a Zazie - a história rica que o cinema francês tem de enfants terribles, crianças jovens demais para ser adultas e maduras demais para ser crianças. Essa vertente do filme-de-formação esteve mais ligada recentemente ao cinema latino-americano - O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias no Brasil, Valentín no Chile, Kamchatka na Argentina, Acne no Uruguai - e a França volta ao tema agora com Stella.
Os filmes do nosso continente são uma referência imediata porque, como tais, Stella também é uma história de época, com teor autobiográfico, ambientada nos anos 70. Sabe-se que estamos na década da disco e da sobrancelha fina pelo futebol na TV, pelas roupas, pelas músicas que Stella (Léora Barbara) escuta todo dia no bar parisiense onde mora com seus pais boêmios.
"Não é lugar para se criar uma criança", você pode dizer, mas o fato é que, aos 11 anos, Stella já se habituou a ser diferente - aliás, desde o começo do filme, quando olha para os amigos da escola nova, ela nos diz, na narração em off, que não é uma criança como as outras. Ainda assim, há o processo de sempre; os baques da vida familiar, as dificuldades estudantis e as descobertas da puberdade aguardam Stella.
A narração em off intensa no começo do longa da roteirista e diretora Sylvie Verheyde ajuda a impor o ritmo acelerado. Como uma criança típica, Stella tudo vê. A câmera pega os detalhes do bar, todos dos movimentos dos adultos, e o relato em primeira-pessoa da menina adiciona verbalmente comentários ora sarcásticos, ora encantados, sobre aquilo a que estamos assistindo. A câmera do diretor de fotografia Nicolas Gaurin, sempre a uma distância precisa, não desperdiça gesto algum.
Adicione aí o lirismo da trilha sonora da dupla NousDeux the band, mais a fotografia meio amarelada que muitos cineastas hoje ainda buscam nos negativos Fuji (o que tende a se perder um pouco em exibições digitais), e temos um clima misto de nostalgia e dor. O filme decai da metade para o fim - quando as relações de causa e efeito ficam mais grosseiras e se percebe que muitas daquelas cenas até então "essenciais", como a aula de tiro, eram mera munição funcional para armadilhas sentimentais que viriam a seguir - mas Stella segue inegavelmente uma receita estética e temática que costuma pegar em cheio tanto o público cinéfilo quanto o público casual.
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