Crítica: Cruzada

Cruzada

Érico Borgo
05 de Maio de 2005

Cruzada

Cruzada

Kingdom of Heaven
Espanha/EUA/Inglaterra , 2005 - 145 min.
Drama / Guerra

Direção:
Ridley Scott

Roteiro:
William Monahan

Elenco:
Orlando Bloom, Eva Green, Liam Neeson, Jeremy Irons, David Thewlis, Jouko Ahola, Shane Attwooll, Tim Barlow, Christian Boeving, Nikolaj Coster-Waldau, Nathalie Cox, Marton Csokas, Samira Draa, Eriq Ebouaney, Khaled El Nabaoui, Jon Finch, Michael Fitzgerald, Brendan Gleeson

Bom
Cruzada
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Em julho de 2000, o primeiro artigo do Omelete anunciava: "Gladiador, o recomeço de uma era". Era a crítica da superprodução dirigida por Ridley Scott (Blade Runner, Os vigaristas) que mostra as batalhas de um ex-general romano contra um imperador invejoso. Na época, foi alardeado que o longa fazia renascer um gênero: o dos épicos medievais. Sem dúvida, o fez. Surgiram em sua esteira filmes como Tróia, Rei Arthur, Alexandre... mas nenhum deles conseguiu sequer chegar perto da bilheteria do filme-estopim: mais de 450 milhões de dólares mundo afora.

Com custos altíssimos e resultados medianos, parecia que o gênero estava novamente em baixa. Mas eis que o próprio Scott ressurge com um projeto engavetado há duas décadas: Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005).

Ao ser anunciado, o filme fez levantarem algumas sobrancelhas. É delicadíssimo mostrar a invasão de encrenqueiros ocidentais ao Oriente Médio hoje em dia. Afinal, isso está acontecendo neste exato momento, quase 1000 anos depois da Primeira Cruzada. Os motivos, tanto os "oficiais" quanto os velados, continuam os mesmos: liberdade e riquezas, respectivamente. E viva a evolução da humanidade!

Felizmente, o inglês Ridley Scott parece não compactuar com o conterrâneo Tony Blair e seus amigos do outro lado do Atlântico. Cruzada aproveita a lembrança histórica para tecer comparações e não faz concessões.

Aulinha de História

As Cruzadas foram expedições organizadas pela nobreza européia, com o aval da Igreja, para libertar a Terra Santa do domínio dos árabes. Estes haviam se convertido ao Islã e uma de suas tribos ocupara a Mesopotâmia, a Síria, a Palestina e parte da Ásia Menor, proibindo as peregrinações de cristãos. Para “salvar” a Europa Oriental e a Terra Santa, o Papa Urbano II convocou os nobres europeus baseado em dezenas de falsas alegações (seria ele um antepassado de George W. Bush?), dando origem em 1095 à 1ª Cruzada.

Quatro anos mais tarde, em 15 de julho de 1099, a cidade de Jerusalém cai sob o poderio cruzado. A população muçulmana e judia é massacrada. Setenta anos de conflitos se seguem até que surge Saladino (1137-93), sultão que consegue unificar o Povo do Crescente e reúne um vasto poderio militar. Sua habilidade na guerra, diplomacia e honra com amigos e inimigos se tornam lendárias. É nessa época que é assinada uma trégua entre ele e Balduíno IV, o leproso (1174-1185), regente de Jerusalém que acreditava que todas as religiões deveriam ser bem-vindas à cidade sagrada para rezar. Mas a saúde precária do rei tornava a trégua frágil... e aqui começa a aventura de Ridley Scott.

Reino do Paraíso

O cineasta trata o assunto com a cautela que ele exige. "Eu não quero que o filme seja sobre cavaleiros de armadura se atacando enquanto cortam cabeças com suas espadas. O filme deve ser uma discussão fundamental sobre as duas religiões", comentou há alguns anos o diretor.

Cruzada cumpre a promessa e Scott e o roteirista estreante William Monahan são incrivelmente bem-sucedidos nesse ponto. Os muçulmanos não são os vilões da história, nem mesmo os cristãos. Os antagonistas são meramente aqueles que deixam a ganância e o desejo por sangue obscurecerem a idéia de uma convivência pacífica. Vale lembrar que a habilidade do diretor em conseguir tal equilíbrio estava em cheque, já que ele havia falhado terrivelmente nesse mesmo ponto em Falcão negro em perigo, de 2001.

O roteiro de Monahan começa apresentando um simples ferreiro, Balian (Orlando Bloom). Temente a Deus e viúvo recente, ele se surpreende com a revelação de que é filho de um nobre, Godfrey de Ibelin (Liam Neeson, no milésimo papel desse tipo em sua carreira). Levado à Terra Santa - e após alguns percalços -, Balian chega às terras de seu pai, onde é apresentado à nobreza local e começa a fazer inimigos, dentre eles o poderoso Guy de Lusignan (Marton Csokas), provável sucessor do Rei Balduíno IV (Edward Norton, sempre mascarado). Balian rapidamente ascende (mesmo que a contragosto) na corte e um feito de bravura o coloca diretamente nas graças do rei e seu conselheiro Tiberias (Jeremy Irons), mas sua inabalável ética o impede de subir ainda mais. Sua decisão custará o próprio Reino do Paraíso aos cruzados.

Armadilhas e redenção

Todos os principais personagens da película realmente existiram, mas a exemplo do que fez em Gladiador, Scott mistura fatos históricos, datas e inclui personagens fictícios e licenças poéticas na trama. O resultado é interessante, mas pouco inovador. Sempre à sombra do General Maximus, o diretor repete planos e clichês exaustivamente. A chegada de Balian de Ibelin à Jerusalém, por exemplo, é cópia carbono da entrada do personagem de Russel Crowe em Roma no filme de 2000. As batalhas também usam os mesmos artifícios: cortes velocíssimos, câmera tremida, muita terra e sangue no ar. A grande diferenciação acontece mesmo na batalha de Hittin (1187), que culmina no cerco às muralhas de Jerusalém, mas aí tudo parece demais com O Senhor dos Anéis.

Os discursos heróicos que encharcam esse tipo de produção também escorrem aos borbotões. Mas pelo menos um deles tem enorme razão de ser: o diálogo entre Saladino e Balian no final do filme. Há registros históricos de que ele realmente aconteceu e que teve aquele teor.

Incomoda também o fato do simples ferreiro, sem qualquer treinamento formal, ser capaz de manobras de guerra dignas de um Eisenhower. Mas se o roteiro não ajuda por esse lado, Orlando Bloom, pelo menos, não atrapalha. Em momento algum o contido Legolas de O Senhor dos Anéis e o ferreiro de Piratas do Caribe tenta aparecer mais que seu personagem. A grandeza fica por conta dos atores que interpretam nomes imortais da História. O sírio Ghassan Massoud, por exemplo, surge imponente como Saladino, obviamente o personagem preferido do diretor. Eva Green (a Isabelle de Os Sonhadores) mais bela do que nunca como Sybilla, a princesa irmã de Baduíno IV, também se esforça, mas a história de amor que ela protagoniza - obrigatória em Hollywood - resulta dispensável.

De qualquer forma, apesar de cumprir a tabela do gênero, Cruzada merece uma recomendação. A bem-redigida mensagem crítica sobre o mundo e as relações no Oriente Médio justifica cada um dos clichês. E que esta seja uma cruzada para ajudar a acabar com todas as outras.



Comentários (2)

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Jader Jader (22/05/2010 23:55:00)   2 0
Gostei muito do filme pelo contexto histórico, e acho que apesar de enovar pouco e ter caído em muitos clichês, gostei muito das atuações do filme, Ghassan Massoud e Jeremy Irons dão um show no filme. Mas o mérito esta de verdade é no momento histórico, não só do filme, mas de seu lançamento, onde o desfecho acena para um entendimento e não um confronto gratuito, onde na era Bush isso era uma coisa impensável, tão impensável qto nos meados do século XI. A diferença é que naquela época havia um esforço de paz entre mulçumanos e cristãos, e o que temos aqui é um esforço de um ótimo diretor pra entregar um filme digno. Vejo o filme com valor de um registro histórico, e se ele não é grandioso na execussão, é em seu contexto



Dennis Dennis (13/05/2010 12:51:59)   1 0
É um filme muito bom, mas talvez não mereça realmente 4 ovos porque não inova, não é daqueles que dá vontade de comprar o DVD.
Mas é uma ótima opção para as tardes de sábado, e até mesmo para um blu-ray (as cenas de guerra, principalmente, são muito bonitas... só fica atrás de "Alexandre").




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