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Em Busca da Vida

Jia Zhang-Ke é o canal para entender a China de hoje

Marcelo Hessel
19 de Julho de 2007

Em Busca da Vida

Em Busca da Vida

Sanxia Haoren
China , 2006 - 107
Comédia / Drama

Direção:
Jia Zhang-Ke

Roteiro:
Jia Zhang-Ke, Guan Na, Jiamin Sun

Elenco:
Han Sanming, Zhao Tao, Li Zhubin, Wang Wei Hong

Ótimo
still life
still life

Acontece algo na China neste exato momento, e Jia Zhang-Ke, o cineasta mais importante do país na atualidade, está determinado a nos mostrar o quê.

Leão de Ouro do Festival de Veneza, Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, 2006) acompanha - como os seus filmes anteriores exibidos no Brasil, Plataforma e O Mundo - a transformação de gigante agrário em rolo-compressor industrial, de caricatura comunista em géiser capitalista, pela qual passa a nação oriental nos últimos anos.

A China é o verdadeiro protagonista do filme, mas há uma trama - ela segue dois personagens, o minerador Han e a enfermeira Shen Hong, ambos rumo à cidade de Fengjie. Ele está tentando reencontrar a esposa e a filha que não vê há anos. Ela está atrás do marido que sumiu sem aviso. O problema, quando chegam lá, é que Fengjie deixou de existir.

A cidade foi inundada para a construção da represa Três Gargantas, no rio Yangtze. Um primeiro estágio da inundação foi realizado na metade dos anos 90, e um segundo, que destruirá todas as casas que ainda sobraram no vale, está prestes a acontecer. Zhang-Ke, famoso por filmar em locações reais com elenco de amadores, aproveitou a finalização da obra hidrelétrica em 2006 para produzir o filme.

Enquanto acompanhamos as desventuras de Han e Shen Hong, conhecemos de perto, através do olhar sensível do cineasta, uma realidade da China que dificilmente chegaria até nós. É uma realidade sem os filtros da censura oficial e sem os pré-julgamentos do noticiário ocidental. Em Busca da Vida é o retrato límpido de como a identidade de um lugar pode mudar e levar, consigo, a identidade de seu povo.

Han e Shen Hong estão atrás de outras pessoas, mas, no fundo, procuram a si mesmos também. O problema é que a mediação entre o sujeito, o outro e o espaço que eles dividem mudou por completo. A mediação agora chega a ser uma questão meio tecnológica, meio mercantil - Han leva cigarros para ser bem recebido pelas pessoas do lugar e mostra a sua música preferida a um jovem por meio do toque polifônico do celular.

Outro momento emblemático do passeio ao passado e ao futuro que é o cinema de Zhang-Ke, atento à poesia dos detalhes: a cena em que Han relembra a paisagem da velha Fengjie pelo desenho que agora estampa o verso da nota de dinheiro.

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