Entre os Muros da Escola

Chega aos cinemas o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2008

Marcelo Hessel
12 de Março de 2009

Entre os Muros da Escola

Entre os Muros da Escola

Entre les Murs
França , 2008 - 128
Drama

Direção:
Laurent Cantet

Roteiro:
Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau

Elenco:
François Bégaudeau, Laura Baquela, Nassim Amrabt, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Damien Gomes, Arthur Fogel, Dalla Doucoure

Excelente
entre os muros da escola
entre os muros da escola
entre os muros da escola

Toda a ação de Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2008) se passa nas salas, nos corredores e nos páteos de um colégio nos arredores de Paris, ao longo de um ano letivo. Mas o filme do francês Laurent Cantet (Em Direção ao Sul) evidentemente extrapola os muros e serve de comentário sobre a realidade no país - basta ver que não há negros e árabes (parcela significativa dos alunos) entre o corpo letivo, só na equipe de faxina.

É um drama contundente sobre o modo como a França lida com seus cidadãos saídos de ex-colônias, mas essa é a superfície. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2008 tem muito a dizer também sobre a relação professor-alunos de modo geral, independente do contexto social. Mais do que contundente, é um drama sufocante sobre uma relação que acima de tudo é de poder - por mais que um professor tente se aproximar de seus estudantes, sempre vai existir uma barreira intransponível que os distancia.

Entre os Muros da Escola sufoca porque François, o professor protagonista (que "filtra" para nós não apenas as ações dos alunos como também dos outros professores), a todo instante busca uma cumplicidade impossível com seus alunos. Há os imigrantes africanos que trazem para a sala um histórico familiar em frangalhos, há o menino chinês que se esmera em matemática mas vai mal na aula de francês. O modo como François conversa com a classe dá a entender que, num ambiente tão heterogêneo, a única alcançar cada um dos alunos é falando-lhe individualmente. Mas o filme mostrará que, antes de qualquer coisa, impera ali a hierarquia.

François é interpretado por François Bégaudeau, ator não-profissional que escreveu um livro sobre suas experiências como professor numa escola similar à do filme. Cantet e Robin Campillo adaptaram o roteiro, mas a base do filme é mesmo a obra autobiográfica de Bégaudeau. Que ele se saia bem como ator só não é mais espantoso porque, no fim do filme, descobrimos que todos os alunos são atores amadores. O que parecia um drama ganha, depois da sessão, outra dimensão, em que tracejar uma linha entre o documentário e a ficção é esforço inútil.

Em entrevista à revista Cahiers du Cinéma, Cantet - que tem uma obra essencialmente sociopolítica, bem expressa em filmes como Recursos Humanos (1999) e A Agenda (2001) - explica como realizou um filme igualmente político, mas nascido de uma semi-improvisação, em que deixava os eventos ditarem o que seria filmado:

"Nós [Cantet e Bégaudeau] nos encontrávamos todos os dias uma hora antes da filmagem num café em frente à escola para fazermos o plano das cenas do dia. François tinha a responsabilidade da orquestração da cena, pelo menos nas primeiras tomadas. Ele estava diante de 25 alunos e devia conseguir juntar todos para o nosso objetivo. Eu tinha para a filmagem três monitores à minha frente, num canto da sala, e uma ligação de áudio com cada cameraman, para sugerir as deslocações. Às vezes intervinha no meio de uma cena. A preparação durou todo um ano escolar. A filmagem, sete semanas. Hoje não sei o que é do livro ou o que é do trabalho posterior."

Percebe-se na tela que os ensaios deram aos adolescentes a naturalidade exigida em cena; da preparação, os temas foram sendo enxugados até chegar a um resultado sem sobras ou excessos - e com um senso de urgência que apenas a proximidade das câmeras (é a primeira vez que Cantet roda com mais de uma) pode transmitir. Quem criticava outro documentário francês sobre ensino - Ser e Ter (2002) - por ser uma visão míope da França, idílica com suas escolinhas de interior e limpa de imigrantes, terá dificuldade de se queixar de Entre os Muros da Escola. Não espere, também, aquele tipo edificante à la Sociedade dos Poetas Mortos. O filme de Cantet está em outro nível.



Comentários (1)

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Noir Noir (31/05/2011 11:17:10)   244 1
Um maravilhoso documentário travestido de filme.
Aqui pros lados de sampa foi exibido pela TV Cultura uns 3 meses atrás no programa "Mostra Internacional de Cinema na Cultura" que agora rola sempre às quartas e sextas, à partir das 22h. Acredito ter errado o horário, qualquer coisa é só olhar no site da tv cultura depois.




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