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O cinema do malaio Tsai Ming-Liang não seria o mesmo se ele tivesse que filmar num descampado, numa zona rural. O seu fundamento é a urbanidade, o que há de orgânico no caos da metrópole, e a maneira como as relações humanas são afetadas por ela.
A própria câmera do diretor de Eu não quero dormir sozinho (Hei yan quan, 2006) se comporta como um daqueles vídeos de vigilância que almejam tornar as cidades mais seguras. Ming-Liang não a movimenta. Elege uma perspectiva a cada cena e executa tomadas que duram, às vezes, mais de um minuto. Vez ou outra há um plano-e-contraplano (particularmente no clímax, quando dois personagens se encaram e não há como escapar do close-up em um e noutro), mas durante todo o filme o mise-en-scène ocorre com a câmera estática. Cabe aos atores se movimentarem dentro do quadro.
Em O Sabor da Melancia isso já ocorria - as escadarias, com seus encontros furtuitos entre sexos opostos, parecem as mesmas nos dois filmes, inclusive. Mas há uma diferença geográfica aqui. Depois de sete longas rodados em Taipei, Taiwan, onde o diretor se criou, ele filma pela primeira vez em seu país natal. E Kuala Lumpur, capital babelesca da Malásia, pode ser uma cidade tão insensível quanto Taipei, mas é mais rude. A câmera escolhe o seu ângulo, mas dificilmente escapa de enquadrar salas insalubres, becos estreitos e ruas mal iluminadas.
O princípio que promove o encontro de personagens é o de sempre: o acaso. Protagonista silencioso de todos os longas do diretor, Lee Kang-Sheng interpreta um vagabundo chinês que é espancado na rua. Em outro ponto da cidade, um grupo de indianos se esforça para carregar um colchão para casa. O homem machucado se arrasta. O grupo avança. Em um momento eles se encontram, os indianos prestam socorro - e o colchão vem a calhar.
Antes da surra o vagabundo andava com uma mulher. Ela aparece em outras cenas cuidando de um homem em estado vegetativo. Como ele também é interpretado por Lee Kang-Sheng, o filme dá a entender que algo pior ainda ocorrerá com aquele chinês. Ou não. Se Eu não quero dormir sozinho trabalha com duas tramas paralelas e não-lineares, não dá para saber direito até pouco antes do desfecho. Ming-Liang não usa planos de transição temporal nem assinala, nas cenas, algum indício de que o tempo avançou ou retrocedeu. Até que vem, fruto de um incêndio na Indonésia, uma nuvem tóxica cobrir Kuala Lumpur, e esse é um sinal.
Confuso? Pois - por questão de sanidade mesmo - prefira perder-se nos detalhes, mas compreender a mensagem geral. Porque não há humanismo mais gentil do que o de Tsai Ming-Liang, solidário como lavar as cuecas de um estranho. Num ambiente de carência (os chineses são dois terços da população de Kuala Lumpur, os indianos são minoria, mas todos sofrem do mesmo vazio existencial), o diretor faz nascer vida de pedra. Em O Sabor da Melancia, literalmente, brotava água do asfalto. Aqui a escala é maior - e mesmo uma construção em ruínas totalmente inundada pode, por que não, dar lugar a uma utópica pescaria.
Se há uma inconveniência em Eu não quero dormir sozinho é o fato dele exigir mais do espectador, na hora de destrancar seus significados, do que os trabalhos anteriores do diretor (pressupondo que cada cena, mesmo a mais trivial, foi pensada para exprimir alguma idéia). Não é, em outras palavras, a melhor oportunidade para conhecer Ming-Liang, mas um filme para mergulhar em Ming-Liang.
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