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Eu Te Amo, Cara

Comédia romântica atípica marca o ápice do fenômeno "bromance"

Marcelo Hessel
23 de Abril de 2009

Eu Te Amo, Cara

Eu Te Amo, Cara

I Love You, Man
EUA , 2009 - 105
Comédia

Direção:
John Hamburg

Roteiro:
Larry Levin, John Hamburg

Elenco:
Paul Rudd, Jason Segel, Rashida Jones, Jon Favreau, Andy Samberg, J.K. Simmons, Rob Huebel, Jane Curtin, Jaime Pressly, Thomas Lennon, Lou Ferrigno

Bom
paul rudd
rashida jones
jason segel

Filmes são, ainda que inconscientemente, e mesmo os mais alienados, produtos inequívocos de seu tempo. A comédia romântica Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man, 2009) - possivelmente a primeira e última do gênero que tem homens como público-alvo - não é uma exceção.

Meses antes de se casar, Peter Klaven (Paul Rudd) percebe que não tem um melhor amigo para escolher como padrinho. Passou a vida inteira de namorada em namorada e não tem aquele sentido de união entre caras numa noite de pôquer e bebedeira. Desesperado, Peter parte à caça de amigos - e encontra em Sydney Fife (Jason Segel), por acaso, sua alma gêmea.

O bromance - ou "amor de irmão", termo em inglês cunhado nos anos 90 para traduzir aquele tipo de paixão assexuada entre dois homens que se gostam pra cacete - de Eu Te Amo, Cara está em sintonia com o de Segurando as Pontas ou Superbad, filmes em que o apego fraternal é visivelmente mais forte do que a atração pelo sexo oposto. O que o filme de John Hamburg (Quero Ficar com Polly) faz é colocar o bromance como tema principal.

E aí entra a questão do momento histórico. Não é novidade que a hombridade se fragiliza há décadas. Desde o movimento feminista dos anos 70, e a consequente masculinização da mulher (pela cultura pop, pelo mercado de trabalho), homens vêm perdendo identidade. Hoje, entre modismos incertos como o metrossexualismo, a psicanálise já fala até em terceirização: a classe média desaprende velhas "tarefas de homens" - porque afinal hoje temos prestadores de todo tipo de serviços para executá-las - e a crise do macho chega ao ápice. Se um homem não sabe nem trocar pneu, de que serve para as mulheres?

Uma vez que os sexos se igualam, não há mais o "dominante" e o "frágil". E Eu Te Amo, Cara está em total sintonia com essa percepção. Não por acaso, o filme se desenvolve como se tivessem sido os signos invertidos: Peter caça amigos e flerta com eles, em jantares e encontros às cegas, como se estivesse atrás de uma mulher. A própria estrutura da história é tradicional, quatro atos: encontro-paixão-ruptura-reconciliação. A diferença para todas as outras comédias românticas é que o "casal" não se beija na cena final.

Não é, porém, uma mera troca de sexo. Peter e Sydney são homens de seu tempo também: sensíveis (Sydney se masturba com camisinha porque não faz sujeira e dura mais) e carentes (a forma como se chamam por apelidos atrás de intimidade). Há uma conexão ancestral entre eles, um vestígio de virilidade (o culto à banda que já teve dias melhores), mas no mundo feminino de hoje convém deixar esses ímpetos de preferência na garagem.

Eu Te Amo, Cara não é perfeito. A direção sem rigor de Hamburg e o excesso de diálogos visivelmente improvisados dão a impressão de que o filme pode se interromper a qualquer minuto, de que se filma a esmo. É aquela coisa, típica das comédias de constrangimento da geração de Will Ferrell, das piadas que se alongam mais do que o normal e dos atores que estão visivelmente se divertindo (por vezes mais do que o espectador) mas não parecem levar a sério a história que encenam. Pois deveriam, porque a crise do macho é um assunto seríssimo.

Leia entrevista elenco de Eu Te Amo, Cara
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