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Fausto | Crítica

Aleksandr Sokurov transforma lenda secular em espetáculo visual

Natália Bridi
28 de Junho de 2012

Fausto

Fausto

Faust
Rússia , 2011 - 140 min
Drama / Fantasia

Direção:
Aleksandr Sokurov

Roteiro:
Aleksandr Sokurov, Marina Koreneva

Elenco:
Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Antje Lewald, Florian Brückner, Sigurður Skúlason

Ótimo
um
dois
quatro
cinco

A lenda começa na Alemanha, aproximadamente entre os anos 1470 e 1540. O Dr. Johann Georg Faust empenha seus esforços na busca por conhecimento, aplicando-se aos estudos da filosofia, da medicina e da alquimia. Insatisfeito com os resultados, limitado por sua condição humana, o excêntrico personagem acaba enveredando pelo charlatanismo e dá origem à história de um diabólico acordo assinado com sangue, trocando sua alma pela compreensão dos mistérios do universo.

O motivo faustiano desde então tem servido à arte. Versões de Christopher Marlowe, Thomas Mann e Johann Wolfgang von Goethe, esta última a mais famosa, perpetuaram o mito e inspiraram por sua vez uma outra série de adaptações, a última pelas mãos de Aleksandr Sokurov. O cineasta russo recria em Fausto (Faust, 2011) o famoso pacto entre o intelectual insatisfeito e o demônio agiota, transformando a lenda em um espetáculo visual de trevas, luz, agonia e poder.

Livremente baseado no poema épico de Goethe, o filme mostra um Fausto (Johannes Zeiler) desiludido, dilacerando cadáveres em busca da alma humana, e faminto por conta dos parcos retornos financeiros da sua busca por conhecimento. Sem dinheiro para comer ou transportar até o cemitério a matéria-prima dos seus estudos, o intelectual, depois de ser desprezado pelo pai, acaba por recorrer à ajuda do dono de uma casa de penhores (Anton Adasinsky), a versão de Sokurov para o diabo Mefistófeles.

O demônio recusa o empréstimo em troca de um anel, o que Fausto julgava ser seu bem mais valioso, e dá início ao processo de sedução que levará ao famoso pacto assinado com sangue. A estranha criatura de aparência frágil se apresenta ao médico como um ser evoluído, um retrato do Übermensch de Nietzsche – o super-homem, aquele que supera os limites da condição humana pela transvaloração (onde não existe certo e errado, apenas desejo) e pela busca por poder. Conceito de evolução que será posto em prática por meio da lavadeira Margarete (Isolda Dychauk), personagem que desencadeia o processo de corrupção de Fausto – ele vê na jovem a luz para sua insatisfação, enquanto o diabo a descobre como objeto de barganha.

No desenvolvimento da sua versão da lenda, o filme consegue ser ao mesmo tempo elegante e óbvio nas metáforas que cria para seus personagens. Passagens estreitas, lugares apertados e lotados representam a agonia de Fausto, seu desencaixe e descontentamento com a realidade que o cerca. Por meio da fotografia primorosa de Bruno Delbonnel (indicado ao Oscar por seus trabalhos em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Eterno Amor e Harry Potter e o Enigma do Príncipe), o filme reflete a essência de Margarete, que surge como uma figura iluminada, capaz de tomar a tela antes dominada pelas trevas. Figuras estranhas pontuam a narrativa, assumindo em formas concretas as dúvidas, os arrependimentos e a ganância do seu personagem principal.

Fausto encerra o estudo de Sokurov sobre os efeitos do poder iniciado em Moloch (1999), sobre Adolf Hitler, seguido por Taurus (2001), sobre Lênin, e O Sol (2005), sobre o imperador japonês Michinomiya Hiroito. A conclusão toma para si a lenda em uma tentativa de compreender as motivações humanas, criando uma alegoria da corrupção, onde certo e errado não se opõem, mas são superados pelo desejo. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza - o primeiro prêmio principal em um grande festival europeu do diretor de Arca Russa (antes Sokurov levara melhor roteiro e o prêmio da crítica em Cannes por Moloch e Pai e Filho, respectivamente) - o Fausto de Sokurov não é um filme fácil, com seus longos diálogos em alemão e sua mistura de sonho e realidade. Sua beleza e força visual, contudo, o transformam em uma versão única da secular história, que não abandona o espectador após o rolar dos créditos e o leva a avaliar seu preço. Quanto vale a sua alma?

Fausto | Trailer
Fausto | Cinemas e Horários


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Comentários (30)

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Fraterarez Fraterarez (20/09/2012 17:44:23)   298 2
Esse é meu país.

Desde que li esta crítica aguardo nas locadoras, procuro nas interwebs e nada de uma cópia legendada decente. Até agora não consegui assistir a esse filme.

Sou um fã inveterado de Fausto, mas por enquanto só possuo a cópia do expressionismo alemão para ilustrar a obra. Esse filme seria uma jóia para mim.



sem avatar Aninha (20/07/2012 23:44:08)   6 0
Uma das melhores críticas que li recentemente, filme recomendadíssimo!



sem avatar Rodrigo (01/07/2012 13:17:06)   8 0
Tem o chirrin/chirrion do diabo?

kkkkkkkkk, não adianta, a versão do chapolin sempre será a melhor!


sem avatar Luiza (22/11/2012 19:39:56)   19 0
kkkkkkkkkkk chorei de rir com seu comentario...


G. brucew G. brucew (01/07/2012 02:10:38)   84 0
foi mal aê!



Thiago Thiago (01/07/2012 00:25:59)   9 1
Só devo discordar uma coisa de você Natália: a sua comparação do personagem de Anton, o Mefistófeles, com o Ubermensch de Nietzsche.
O conceito de Ubermnesch na filosofia de Nietzsche é algo complexo, sobretudo na sua obra Zaratustra, mas dificilmente consigo comparar com essa personagem, além do fato de que o conceito do Além-do-Homem (tradução mais fiel desse conceito nietzscheano) não estar relacionado ao poder, pelo contrário, passa bem ao largo dele, como sabemos, Nietzsche apesar de algumas críticas políticas, não pode ser considerado um filósofo político.
Mas não desejo me estender sobre um tema tão complexo da filosofia de Nietzsche, quis apenas pontuar isso :oD


Carlos Carlos (03/07/2012 13:25:31)   189 1
Também notei. Pode-se desvelar que a referência funciona aqui como um artifício para dar falsa profundidade ao texto, isto é, produzir um texto que apresente a sí mesmo como profundo sem ter adquirido tal qualificativo por característica intrínseca, mas através de associação artificial.


Thiago Thiago (01/07/2012 00:16:28)   9 1
Acabei de ver o filme e para mim se tornou o melhor filme do ano e um dos melhores que já vi na vida, ao lado de filmes de Bergman, Aronofsky e do Lars von Trier.
A estética do filme é espetacular, todas as sequências no enclausuramento sufocante do espaço por onde personagens circulam e da própria existência, os diálogos bem elaborados filosoficamente..em suma, é um filme brilhante para ver mais vezes!
Ainda tenho muita coisa para digerir dele e depois escrever!
A crítica da Natália está excelente e em concordância com o filme e muito ainda pode ser acrescentado!


Carlos Carlos (03/07/2012 13:26:17)   189 1
Interessante, vou procurar ver o filme.


Fernando Fernando (30/06/2012 09:34:27)   343 0
empolgou bastante na critica,pretendo conferir esse filme!



Beto Beto (29/06/2012 18:29:14)   6 2
Natália humilhando as críticas boçais do Hessel. :-]



Márcia Márcia (29/06/2012 08:05:27)   31 0
Nossa, crítica incrível!



gumendess gumendess (28/06/2012 22:09:39)   8 2
Demais a crítica!

Pelo visto o filme conseguiu captar a essência que Goethe deu para seu Fausto (apesar de aparentemente não incluir algumas passagens... mas qm conseguiria com uma limitação própria do cinema?).

Jamais esse filme estreia na minha cidade, mas já está na lista dos que terei que baixar para ver.



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Yume Yume (28/06/2012 21:49:53)   195 1
Ótima crítica!!
Me interessei bastante pelo filme, assistirei assim que puder.



Rafael Rafael (28/06/2012 20:32:14)   28 1
Primeiramente, Natália, Parabéns, esta crítica ficou fantástica.

Segundo estou com este livro(Fausto de Goethe) na minha estante para pode ler, só esperando as férias chegar para poder saborear esta maravilha.

Terceiro, tenho certeza que este filme não vai estreiar aqui em MG, fico muito triste, pois estava querendo assistir ele.


gumendess gumendess (28/06/2012 22:08:03)   8 0
Cara, vale muito a pena ler. Não é uma leitura fácil [por ser todo poema], mas o embate que Fausto trava consigo mesmo sobre as questões que até mesmo estão nesta crítica do filme é deslumbrante a tal ponto de vc se perguntar - e dificilmente obter resposta: "teria fim o desejo do homem? teria um porque de existir o desejo?".


Raul Raul (28/06/2012 20:27:42)   2256 0
Pretendo assistir.



Daniel Daniel (28/06/2012 20:17:22)   57 0
Alguém me tira uma dúvida!

Esse filme é nesse formato quadrado mesmo por questão de estilo ou é defeito no arquivo que baixei?


Marcelo Marcelo (28/06/2012 20:41:00)   45 1
O filme é assim mesmo.

Daniel Daniel (29/06/2012 01:08:28)   57 0
É, vi aqui no IMDB: "aspect ratio 1.37". É praticamente quadrado mesmo. Bastante incomum!

Valeu Hessel!


sem avatar Marcos Vinicius (28/06/2012 19:45:25)   338 0
Estou interessado em ver esse filme desde que vi a notícia sobre ele aqui no Omelete mesmo. Gosto muito de Fausto de Goethe. Mas há um detalhe chave que foge do livro e que me preocupou.

No livro, a grande graça da sedução de Mefistofeles vem do fato de que ele começa o conto fazendo uma aposta com Deus: de que ele conseguiria corromper mesmo o mais sábio homem. Fausto, no conto, tem realmente uma violenta fome de conhecimento, mas ele é o tal homem sábio e de certa forma, bondoso com seus criados, que Mefistofeles quer tentar... além disso, ele é idoso e rico, e isso são duas chaves importantes na história.

Mas bem, eu vou ver o filme...



sem avatar Davi (28/06/2012 19:10:45)   36 -1
Não me limitando à crítica da Natália (que está mais do que excelente!!! Incrível, digna de aplausos!), mas algumas recentes críticas do omelete contém ou pequenos erros de ou pontuação ou acentuação, ou simplesmente má construção de frases q dificultam a rápida compreensão do texto. Parece que às vezes (notem, às vezes!) parece que fazem as críticas às pressas (no caso da do Borgo sobre o filme de Woody Allen, "Para Roma com Amor", por exemplo, que dá essa impressão, e está com algumas frases difíceis de compreender, vc tem que ler e reler pra poder entender, e isso acaba ficando chato).
Quanto a da Natália só teve o erro de acentuação no primeiro parágrafo, que por acentuar o pronome demonstrativo "esta" acabou dando a impressão de ser a conjugação do verbo estar. Um erro minusculo, mas estou falando mesmo pra ver se não dá tempo de dá umas corrigidas, detalhadas, pra que a gente tenha uma texto de ainda maior qualidade a ser lido (maior qualidade ainda do que já tem). Por favor não considerem os erros deste texto, já que os comentários são informais; mas textos como críticas, pelo bom senso, devem estar o mais impecável possível.
Obrigado.



Peron Peron (28/06/2012 18:46:35)   22 2
Esse filme vai ser muito bom.

Isso me lembra um episódio do Chapolin Colorado, Chirrin e Chirrion.kkk



G. brucew G. brucew (28/06/2012 18:37:57)   84 -1
Adoro as críticas da Aline. Essa foi uma das melhores.


Natália Natália (28/06/2012 18:45:31)   122 9
Adoro as críticas da Aline também, mas essa é minha =)

Danilo Danilo (28/06/2012 19:12:40)   34 0
Aline? O_õ
ótima crítica Natália, bem que você poderia fazer a crítica da maioria dos filme aqui! (sem menosprezar o Borgo e Hessel)mas suas críticas são mais maduras.

Marcos Marcos (28/06/2012 19:23:21)   130 1
Oooops.



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