2

A liga extraordinária

A liga extraordinária

Marcelo Hessel
11 de Setembro de 2003

A liga extraordinária
The league of extraordinary gentlemen - USA - 2003
Ação - 110 minutos

Direção: Stephen Norrington
Roteiro: Alan Morre & Kevin O´Neil (HQ), James Robinson

Elenco:
Sean Connery, Stuart Townsend, Peta Wilson, Shane West, Tony Curran, Jason Flemyng, Tom Goodman-Hill, Robert Goodman, Richard Roxburgh, Max Ryan, Naseeruddin Shah

O sucesso na tela não será forçosamente o resultado do bom funcionamento de nosso cérebro, mas sim da harmonia entre elementos pré-existentes dos quais nem mesmo tínhamos consciência.

A frase professoral é de François Truffaut (1932-1984), mas martela a mente de qualquer diretor de cinema: para fazer um filme decente, além de uma idéia e uma câmera, você precisa ter muita sorte.

Quando o inglês Stephen Norrington finalizou Blade (1998), por exemplo, o vento soprou a seu favor - aquilo que parecia fadado ao fracasso, na verdade, recuperou o interesse do público por super-heróis de HQ nos cinemas. Mas cerca de quatro anos depois, Norrington conheceu o azar na mesma proporção, em A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003).

Para começar, ele viu a base do gibi de seu conterrâneo Alan Moore ser esquartejada pelos executivos norte-americanos, num ilógico entra-e-sai de personagens. Em seguida, diante de Sean Connery, conheceu a gana centralizadora do Sir escocês, astro e produtor da película. Pouco importa se os dois saíram no tapa como se boatou na época. O fato é que Norrington saiu enfraquecido e teve que aceitar a intrusão de Connery até na sala de edição. Para completar, durante as filmagens em Praga, as tempestades que castigaram a República Tcheca em 2002 inundaram estruturas e sets no valor de sete milhões de dólares.

Se Norrington diz hoje que não quer mais trabalhar em Hollywood, é porque conheceu bem de perto as engrenagens da sua indústria, além desses infortunados elementos pré-existentes de que tratava Truffaut. Assim, não é de se espantar que A Liga Extraordinária tenha ficado tão ruim.

Idiota e frouxo

A trama transcorre na Europa da Era Vitoriana, final do século XIX, quando um suposto Fantasma, com seu arsenal avançadíssimo, pretende estimular intrigas internacionais e iniciar uma Guerra Mundial. Para combatê-lo, o governo da Inglaterra recruta os senhores do título - extraordinários, mas não exatamente bons moços. São eles o caçador rebelde Allan Quatermain (Sean Connery), a vampira Mina Harker (Peta Wilson), o gatuno Homem Invisível (Tony Curran), o cientista de dupla personalidade Dr. Jekyll/Mr. Hyde (Tony Curran), o agente secreto norte-americano Tom Sawyer (Shane West), o pirata Capitão Nemo (Naseeruddin Shah) - comandante do submarino Nautilus - e o imortal Dorian Gray (Stuart Townsend).

Na minissérie em quadrinhos - seis edições lançadas nos Estados Unidos em 1999 pela Americas Best Comics, com segundo volume em 2002 - Moore segue sua linha usual de desencanto com o mundo, atmosfera sombria, humor refinado e brutalidade. Mas ao reunir numa mesma história os maiores heróis e anti-heróis britânicos dos livros de ficção científica e de aventura, o britânico adicionou ao caldo o elemento das referências literárias. Não à toa, A Liga... foi um sucesso editorial.

Já o filme flerta com essa erudição, mas acaba se aproximando da fórmula consagrada dos X-Men: ação entre amigos e correria desenfreada, num ritmo de cortes quase irritante. E sobram as distorções. Várias, aliás. O Capitão Nemo arrisca chutes de Jet Li. O Homem Invisível, com o perdão da piada, some e reaparece sem explicações. Na HQ, Mina Harker é tida como a líder. No filme, claro, Connery chama para si a responsabilidade. Nos quadrinhos, Dorian Gray não é sequer citado. No filme ele surge ao lado de um Tom Sawyer adolescente, incluído na última hora pelos produtores, que temiam uma recusa do público americano diante de super-heróis unicamente ingleses.

Minúcias à parte, A Liga... seria um filme razoável se os problemas se limitassem apenas à escalação do time. Mas a obra sofre nas duas pontas (de um lado um vilão sem expressão, do outro Connery como uma caricatura burocrática de si mesmo) e deixa o miolo sem identidade. O visual é débil, com elementos digitalizados muito artificiais - o que implode qualquer filme de ação que usa o CGI como muletas. E fica a pergunta: porque a produção viaja até Praga, Marrocos e Islândia para gravar locações se, no final, predominam cenários escuros criados no computador?

Os bons destaques, como a saborosa interpretação de Stuart Townsend como o esnobe Dorian Gray, se perdem diante de tantas falhas. Certa vez, Truffaut disse também que um filme idiota mas enérgico pode ser melhor cinema que um filme inteligente e frouxo. A Liga... não tem a inteligência de Moore nem a energia dos X-Men. Resulta, então, idiota e frouxo.


Compartilhar

Comentários (2)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

sem avatar Alexandre (08/10/2011 18:18:34)   1 1
Eu gostei do filme, alias, adorei.Sinceramente não entendo essas críticas.Pelo jeito fui o único a gostar do filme.



Edgar Edgar (29/05/2011 19:01:49)   111 -1
Lixo Extraordinário!!!
Filme horrível,muito mal dirigido emontado não li a HQ mais porra esse filme é pessímo.

1 ovo.




None