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Frida

Frida

Camie Guimarães
04 de Abril de 2003

Frida
Frida, EUA/Canadá, 2002

Direção: Julie Taymor
Roteiro: Hayden Herrera, Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava, Anna Thomas


Elenco: Salma Hayek, Alfred Molina, Valeria Golino, Mía Maestro, Roger Rees, Diego Luna, Patricia Reyes Spíndola, Margarita Sanz, Geoffrey Rush, Ashley Judd, Antonio Banderas, Lila Downs

Existem personagens que, de tão fortes e complexos, são garantia de uma boa história - mesmo que esta não seja lá muito bem contada. É o caso de Frida Kahlo (1907-1954), pintora mexicana que é considerada a primeira artista surrealista da América Latina.

O filme de Julie Taymor, Frida (2002), é seguramente uma dessas histórias que podem ser contadas sem muita profundidade ou compromisso com a verdade e que, ainda assim, dão um bom resultado final. É certo que não consegue escapar de alguns clichês - como a cena em que a mocinha corta os cabelos para simbolizar uma nova fase em sua vida - o que não chega a desmerecer o conjunto.

Frida é uma mulher de encantos atemporais. Os traços heróicos encontrados no filme são mais obra de sua diretora e de Salma Hayek (que além de intérprete é produtora) do que da biografia da pintora. Em alguns trechos, uma tentativa de mitificação da personagem fica evidente - o que pode ser justificado em parte pela admiração de Salma (nascida no México e fã declarada de Frida) e em parte pelo martírio vivido pela artista.

A dor e a tragédia perseguiram-na por toda a vida: na infância, a poliomelite lhe deixou uma das pernas mais curta; na adolescência, um acidente com o bonde que a trazia de volta da escola rendeu fraturas na bacia, meses prostrada na cama e uma série de cirurgias ortopédicas mal sucedidas. A vida adulta lhe reservaria outras desgraças, mas ela não se deixaria abater.

Comunista, bissexual, beberrona. Ousada e talentosíssima, esta filha de um imigrante alemão com uma mexicana católica e tradicional decidiu transpor toda e qualquer barreira que a ela se apresentasse. E ainda encontrou tempo para ser uma mulher como tantas outras e ir ao mercado, cozinhar para o marido, cuidar dos sobrinhos...

Foi casada com Diego Rivera (1886-1957), um dos mais importantes artistas mexicanos, ícone do movimento muralista. Era da geração de artistas funcionários do governo mexicano, que patrocinava expressões engajadas de arte, empenhadas em retratar o cotidiano da classe trabalhadora. Tal movimento chamou a atenção do resto do mundo e garantiu a Rivera uma sólida carreira internacional. É a ele que Frida deve a projeção que sua obra teve no exterior, além de uma extensa rede de contatos que eventualmente se convertiam em casos extraconjugais - dos quais, Rockefeller e Trotski são os mais famosos.

A importância de Frida em relação ao marido (vivido por Alfred Molina, em excelente atuação) é fonte de controvérsias. Alguns críticos de arte acusam o filme de distorcer a realidade, projetando a artista muito acima de Rivera. Se existe de fato alguma distorção, é relativa, já que ele não é o foco do filme.

O que importa mesmo é que a evolução da obra da pintora é registrada com precisão, sempre integrada ao desenvolvimento da história. Sem didatismos e com uma montagem deliciosamente inovadora, Julie Taymor ressalta o caráter autobiográfico, quase ególatra dos retratos surrealistas de Frida.

O toque de Hollywood pode ser percebido no sensível embelezamento das personagens - Salma não ostenta os vastos bigodes da Frida real e Alfred Molina é um Rivera muitas vezes melhorado - e no irritante sotaque chicano que os atores imprimem ao inglês que falam. Um destaque quase exagerado é dado às cenas em que Frida se relaciona com outras mulheres e em que Salma Hayek ostenta pouquíssima (e às vezes nenhuma) roupa. O que, com um corpo daqueles, pode aumentar consideravelmente os índices de bilheteria...

Imagens © Miramax Films


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