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Irmãos

Irmãos

Marcelo Hessel
26 de Maio de 2005

Irmãos
Son Frère

França, 2003
Drama - 95 min

Direção: Patrice Chéreau
Roteiro: Patrice Chéreau, Anne-Louise Trividic e Philippe Besson

Elenco: Bruno Todeschini, Eric Caravaca, Nathalie Boutefeu, Catherine Ferran, Antoinette Moya, Fred Ulysse, Robinson Stévenin, Sylvain Jacques, Maurice Garrel

Há uma sensível diferença entre a versão para português e o título original do filme de Patrice Chéreau (A rainha Margot, Intimidade). Son frère, numa tradução literal, quer dizer seu irmão. Pode parecer igual a Irmãos, mas não é. O título brasileiro adianta um sentido de companheirismo que o francês, a princípio, tenta afastar.

Isso porque a relação de Luc (Eric Caravaca) e Thomas (Bruno Todeschini) não parece ir além do laço de sangue. Respectivamente caçula e primogênito, na vida adulta eles não se vêem. Assuntos mal resolvidos separam os dois - e uma desgraça agora os levará a uma nova convivência obrigada. Thomas tem uma rara doença no sangue que reduz drasticamente sua contagem de plaquetas. Sem elas, pode sofrer uma hemorragia interna fulminante a qualquer momento ou dentro de quinze anos.

Não estranhe se as explicações do estado médico de Thomas forem mais numerosas e completas do que as informações sobre o estranhamento entre ele e o irmão. Vencedor do Urso de Prata em Berlim de Melhor Diretor, Chéreau deve levar antes o mérito pelo roteiro minimalista. Ele reduz o romance homônimo que Philippe Besson publicou em 2001, no qual o filme se baseia, à sua essência. Diálogos servem, como no bom cinema, só para ratificar o que dizem as imagens.

No caso, Chéreau verbaliza somente aquilo que é imprescindível para intensificar o drama (a saúde do doente) e para a compreensão do conflito (o histórico íntimo dos irmãos). Descobrimos em um desabafo que Thomas aceitou mal a homossexualidade de Luc na época da revelação, há alguns anos. Luc, por sua vez, confidencia à namorada do irmão que o apego entre eles na adolescência era mais do que fraternal. E é só isso que precisamos saber.

Todo o resto dessa formidável história de mágoas e de reconciliação fica subentendido - e aí entra o talento de Chéreau com as imagens. A dissecação do processo médico - a câmera se aproxima das cicatrizes de Thomas com ânsia quase necrófaga - surge como metáfora da ferida sentimental que se cura em doses homeopáticas, em tom de despedida fúnebre mesmo. A cena em que Thomas tem todos os pêlos raspados para uma cirurgia ganha um surpreendente simbolismo. Luc observa (e sentimos que perdoa) o que um dia foi seu modelo viril, aquele corpo frágil na cama de hospital, primeiro desnudo, depois emasculado.

Son frère - agora sim, Irmãos - não é um filme fácil. Alinha-se à tradição francesa de discutir afetos com lentidão, coisa que desagrada muita gente. Mas quem se submeter ao seu exercício de silêncios prolongados, atrás de brechas para interpretação, encontrará muitas. Será que a desgraça de um é a vitória de quem sempre foi subjulgado? Para se chegar ao perdão é preciso antes um sacrifício?


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