Lições para Toda Vida | Crítica

Lições para toda vida

Marcelo Hessel
01 de Abril de 2004

Lições para toda vida
Secondhand Lions

EUA, 2003 - 109 min.
Drama /comédia

Direção: Tim McCanlies
Roteiro: Tim McCanlies


Elenco: Michael Caine, Robert Duvall, Haley Joel Osment, Kyra Sedgwick, Nicky Katt, Josh Lucas, Michael ONeill, Deirdre OConnell

Pior que o trailer que conta tudo, só aquele que faz um resumo equivocado, o inverso daquilo que o filme propõe de fato. O recorte promocional de Lições para toda vida (Secondhand lions, 2003), por exemplo, vende-o como a saga de um adolescente pelas transformações morais da idade, como um drama adocicado. Mas o longa resulta em algo bem mais amplo, passa por referências ao cinema aventuresco dos anos 50 e desemboca numa comédia de toques absurdos.

Pelo que dizem as más línguas, os irmãos-eremitas Garth (Michael Caine) e Hub (Robert Duvall) têm uma fortuna escondida em seu sítio. O problema dos vendedores ambulantes que passam por ali e de familiares oportunistas de olho na herança é passar pela hostilidade e pela sessão diária de tiros. Antes de se aventurar por Las Vegas, a irmã dos dois, Mae (Kyra Sedgwick), arrisca e abandona por lá seu filho Walter (Haley Joel Osment) para alguns dias de férias. Claro que, passadas as suspeitas, Walter logo se apega aos dois tios. E fica conhecendo, aos poucos, a verdadeira história das suas vidas - e do dinheiro.

Essa é a trama que aparece no trailer. O melhor pedaço do filme, porém, surge agora: em final de carreira, Garth e Hub contam a Walter as suas aventuras pelo mundo, um tanto fantasiosas, tipo Lawrence da Arábia. São memórias de tempos heróicos em contraponto à falta de valores da atualidade - não por acaso, para criar um clima de nostalgia do próprio cinema, toma-se como paradigma esse gênero épico da metade do século, hoje atropelado pela ascensão do "realismo", que exibia combates maniqueístas em troca de uma donzela. Eram tempos em que bastava apenas vencer o sheik malvado para haver alguma legitimação geopolítica no Oriente Médio.

São, então, duas tramas relacionadas. Mas que, infelizmente, não se complementam como deveriam. Se o tema se encaixa bem à expressividade de Duvall e se estende, como já vimos, a uma leitura metalingüística, o roteiro não consegue criar uma estabilidade convincente para o personagem que, em teoria, é o principal: o garoto e o seu amadurecimento. A atuação afetada de Osment só potencializa a superficialidade de certas situações, como o reencontro com a mãe e o novo padrasto, passagem tratada com clichês constrangedores.

Ao final, a marca mais evidente desse desequilíbrio: os créditos do elenco são exibidos em inventiva computação gráfica, com música empolgante, mas em seguida entra uma canção melosa, como das comédias dramáticas, absolutamente deslocada. Lições para toda vida seria melhor aproveitado se essa falha não ficasse latente ao longo do filme.



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