Assista Agora

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

19 anos depois, Harrison Ford reassume o chicote e o chapéu

Marcelo Hessel
21 de Maio de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones and the Kingdom of Crystal Skull
EUA , 2008 - 124
Ação / Aventura

Direção:
Steven Spielberg

Roteiro:
David Koepp

Elenco:
Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent

0
indiana jones
indiana jones
indiana jones

Indiana Jones demorou 19 anos para retornar ao cinema porque, entre outros fatores, o produtor George Lucas, o protagonista Harrison Ford e o diretor Steven Spielberg não conseguiam chegar a um consenso a respeito do MacGuffin.

("MacGuffin" é um termo inventado por Alfred Hitchcock para denominar todos aqueles objetos que movem uma trama adiante: representam tudo para o herói, como a defunta do vizinho de Janela Indiscreta e a pedra de urânio de Interlúdio, mas são desimportantes para o espectador, que está mais interessado no conflito, em saber como o herói reage a essa trama.)

Nos três Indiana Jones de 1981, 1984 e 1989, os MacGuffins são os tesouros: respectivamente, a Arca da Aliança, as pedras Sankara e o Cálice Sagrado. Para o quarto filme, Lucas queria colocar ETs no meio; Ford e Spielberg, nem tanto. Eles chegaram a um consenso que é o tal crânio translúcido de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

O que você precisa saber de antemão sobre a trama do quarto filme está escrito aí em cima. Porque, meio que renegando a lição de Hitchcock, os tesouros da franquia são tudo o que interessa não só para o arqueólogo como também para o espectador. Os Caçadores da Arca Perdida é um vaivém de capturas e fugas cujo fim é descobrir que diabos existe dentro do baú bíblico. Entre tiroteios e perseguições, Henry Jones Jr. nunca corre perigo de fato. O único risco é não consumar o MacGuffin.

Honrando o filme B

Nesse sentido, os 27 anos que separam o primeiro do quarto filme da série nem parecem tanto tempo assim. A estrutura de Reino da Caveira de Cristal é idêntica à de Caçadores da Arca Perdida: mocinhos e vilões disputando terreno numa corrida que só vai ser resolvida na curva final. A diferença é que no novo jogo de gato e rato (Indy sempre tem os vilões esperando do lado de fora das "tocas" onde ele resolve charadas e encontra seus tesouros, e não há imagem mais Tom & Jerry do que essa) saem os nazistas e entram os soviéticos.

O letreiro que diz "Nevada, 1957" no início do filme nem era necessário. Sabemos que estamos nos anos 50 pelo sucesso de Elvis que toca no carro, e esse não é o único dado contextual que Reino da Caveira de Cristal nos dá em sua brilhante exposição inicial. Ao mostrar russos disfarçados de estadunidenses, Spielberg sintetiza a paranóia da Guerra Fria: mesmo num racha inofensivo no meio de uma estrada deserta, o perigo era latente. O cara do lado pode sempre ser um comunista, e às vezes é mesmo.

Não era minha intenção transformar esta crítica numa peça de defesa, mas Indiana Jones é um evento midiático, todos formam uma opinião - e há no meio disso tudo um ponto a se contra-argumentar. Muita gente diz que as caveiras de cristal são fantasiosas demais. Ora, as caveiras estão em total sintonia com a época em que o filme se passa. Se Os Caçadores da Arca Perdida, ambientado nos anos 30, era uma homenagem às aventuras pulp da literatura daquela década, Reino da Caveira de Cristal evoca o filme B de ficção científica dos anos 50 com exatidão.

Em clássicos como A Ameaça que Veio do Espaço (It Came from Outer Space, 1953) ou Vampiros de Almas (The Invasion of the Body Snatchers, 1956), as invasões alienígenas são metáforas para o perigo comunista. Neste Indiana Jones, Lucas e Spielberg só enxugam a equação: dispensam o que há de metafórico e mantêm a analogia. A cena em que a oficial russa vivida por Cate Blanchett diz, com delicioso sotaque boratiano, que vai entrar nas mentes das pessoas com os poderes da caveira é uma pérola B por excelência.

O alienígena

Ver que Reino da Caveira de Cristal tem um compromisso não só com a mitologia de Indiana Jones - a sonoplastia dos socos continua a mesma! - mas também com a própria história do cinema é um alívio. Mas o filme está longe de ser perfeito. A entrada de John Hurt como o professor Oxley desestabiliza a partir do terceiro ato o "núcleo familiar" dos Jones. Se há um alienígena na história é o tal Oxley. Havia ali um espaço reservado a Sean Connery. Com a recusa do ator escocês em voltar ao papel do pai de Indiana Jones, o roteiro passou por uma revisão para encaixar outro personagem em seu lugar, e o remendo é mal feito. Como assim o cara chega na boca do tesouro e decide dar meia-volta?

É um buraco e tanto no roteiro - assinado por David Koepp depois de passar por muitas mãos -, especialmente porque estamos tratando de um tipo de roteiro firmemente focado no MacGuffin, e que depende demais do bom funcionamento das peças criadas, como o professor, em função desse MacGuffin. Oxley é um parafuso que roda em falso dentro de uma engrenagem, no geral, bem azeitada. Harrison Ford dá conta do recado. O vigor não é o mesmo, mas ele continua correndo resfolegante com os braços meio abertos, traço chapliniano do personagem que o ator não esqueceu nestes 19 anos. Aliás, dos outros tiques de Indy ele também lembra, e é suficiente.

Ao excelente timing de comédia de Ford adiciona-se o domínio que Spielberg tem da ação. Está aí uma coisa que dá gosto de ver e que, ao contrário da fotogenia dos astros, não envelhece com o tempo: o talento para saber onde colocar as câmeras numa sequência de luta, talento para cortar ou deixar o plano correr mais um pouco para criar o efeito desejado. Spielberg está bem como sempre na coreografias das perseguições, e as cenas da moto no campus da universidade, com gente entrando por uma janela e saindo por outra, são coisa de quem conhece comédia física porque assistiu a muito cinema mudo, e sabe o que faz.

No fundo não é isso o que interessa em um filme de Indiana Jones? O humor pastelão no meio de uma cena agitada, os tiros que não acertam nunca ninguém, a tensão sexual com a bela vilã, a sombra do chapéu no enquadramento metricamente pensado, um bicho exótico subindo pelas costas do coadjuvante, o choque verídico de dois veículos que nenhuma computação gráfica consegue reproduzir... A nostalgia pode ser um negócio perigoso: supervalorizar a mítica do herói e exigir mais de um filme de Indiana Jones do que ele se propõe a entregar é um risco.

Se o que importa é entretenimento bem executado, passível de falhas, com Reino da Caveira de Cristal a série pode então se considerar honrada.

Leia mais no Especial Indiana Jones


Compartilhar

Galeria de vídeos

Comentários (12)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

Leonardo Leonardo (06/10/2012 02:08:14)   1 0
Pois é! Quando foi lançado nos cinemas, fazia muito tempo que havia vistos os três primeiros e alguns falaram nal deste filme.

Agora que saiu a coletânea das aventuras de Indy, aproveitei para rever os da década de 80 e finalmente conhecer este último.

Só posso lamentar ter deixado de ver no cinema. Levei muito a sério os comentários negativos de algns na época.

O filme segue muito bem a cartilha que levou ao sucesso Os Caçadores da Arca Perdida e suas sequências. Ótimo filme.

Concordo com tudo que o Hessel falou, especialmente sobre as referências e estilo.



Rafael Rafael (26/06/2012 20:32:49)   30 0
Goatei bastante do filme. O Spielberg disse que poderia vir mais um. Acho que teria de ser muito bem feito para não manchar a série



Wendell Wendell (14/06/2012 12:26:23)   440 0
Caçadores : 5 ovos
Templo: 5 ovos
Cruzada: 5 ovos Não tem como dar menos,todos são ótimos.



Gustavo Gustavo (17/11/2011 19:02:40)   2 0
o pq os 0 ovos?



edgar edgar (22/03/2011 09:35:44)   140 1
gostei bastante do filme...

faz jus a Trilogia,adoro uma boa aventura que só Indiana Jones dá do seu jeito...

a historia é de aventura nem levo de conta,ter E.T.s no filme foi uma ótima sacada muito bem feito.

Shia La Beuf nunca vai substituir Jones,mais pode ser parceiro como Batman(Indiana Jones) e Robin(o filho dele).

nota para a quadrigologia.

Indiana Jones e a Arca Perdida:5 Ovos

Indiana Jones e o Templo da Perdição:3 Ovos

Indiana Jones e a Última Cruzada:5 ovos

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal:5 Ovos

adoro Indiana Jones...


Edgar Edgar (11/07/2011 22:25:14)   120 0
Concordo com você.

José José (12/07/2011 12:13:31)   31 0
Edgar, to com vc e nao abro, são essas as notas que eu daria tb!

Gregório Gregório (01/03/2012 11:55:15)   7 -1
Concordo. O templo da perdição de fato é o pior da saga...


Wendell Wendell (14/06/2012 12:25:32)   440 0
Pra mim o Templo é o meu favorito da trilogia,sem mais.


Leandro Leandro (21/03/2011 11:16:31)   58 0
Gostei muito dessa nova aventura do Indiana Jones.E todos os ingredientes dos filmes anteriores estâo lá:perseguiçôes alucinadas,socos e pontapés,açâo e humor.Harrison Ford está bem conservado,e ainda tem um bom preparo físico,apesar da idade e Shia LaBeouf está ótimo no papel do filho de Indiana Jones.4 ovos com certeza.



sem avatar gabriel (25/11/2010 15:13:04)   -2 0
faz o favor de ajumir que gostou




Omeletop : cinema

Cinema

Os filmes em cartaz, a programação das salas de cinema, bilheterias, trailers, criticas de filmes, cartazes, entrevistas com astros e as novidades de Hollywood.

Séries e TV

As séries de televisão dos EUA, minisséries, os destaques da TV e as novidades na programação.

Música

Os shows que vem por aí no Brasil, os lançamentos musicais, novos álbuns e música grátis para download.

Games

Os novos games, críticas de jogos, trailers, imagens e mais novidades do mundo dos videogames.

Quadrinhos

As novidades das histórias em quadrinhos no Brasil e no mundo, previews de HQs e críticas de lançamentos nas bancas e livrarias.