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O tempo de cada um

O tempo de cada um

Marcelo Hessel
11 de Julho de 2003

O tempo de cada um
Personal velocity: three portraits - EUA, 2002
85min - Comédia

Direção: Rebecca Miller
Roteiro: Rebecca Miller
Com:Fairuza Balk, Parker Posey, Kyra Sedgwick, John Ventimiglia, David Warshofsky, Nick Cubbler
Parte da imprensa norte-americana costuma se revoltar quando filmes criticam a sociedade dos Estados Unidos e recebem prêmios mil em festivais europeus de cinema. Acontece que os maiores condenadores da hipocrisia e do "sonho americano" surgem justamente no circuito alternativo do país. A crítica mais contundente vem de dentro - e a escritora, pintora, atriz e diretora Rebecca Miller, com o seu drama O tempo de cada um (Personal velocity: three portraits, 2002), reforça esse time, ao lado de nomes como Paul Thomas Anderson, Todd Solondz, Darren Aronofsky, Spike Lee, Michael Moore, John Waters, Neil LaBute, Trey Parker & Matt Stone...

Filha do dramaturgo Arthur Miller (As bruxas de Salem) e esposa do ator Daniel Day-Lewis, Rebecca se distingue dos seus pares pela abordagem feminina, sensível, dessa crítica ao modo de vida consumista e egocêntrico. Grande Prêmio do Júri em Sundance 2002, O tempo de cada um se baseia em três contos publicados por ela. Na tela, a história de três mulheres ainda conserva muitas peculiaridades da literatura, como a redundante narração em off. Mas isso não tira o vigor das fortes imagens e não diminui a atração por personagens tão ricas.

As histórias acontecem em lugares variados dos Estados Unidos, mas são ligadas pela notícia na TV de um acidente de carro. No primeiro episódio, o melhor deles, Delia (Kyra Sedgwick) se cansa das violências do marido e foge, decide construir uma nova vida com os filhos. Pede moradia a uma antiga colega do colégio - uma gordinha que, na juventude era ridicularizada pelos meninos e recebia a proteção da popular, bonita e decidida Delia.

No segundo - o mais didático e menos impactante - Greta (Parker Posey) cresce na carreira de editora em Manhattan, por meios não muito tradicionais. À medida em que alcança o sucesso com o qual tanto sonhou, percebe que já não há futuro para o seu casamento - com um homem bonito e dedicado, mas que permanece estagnado há anos em uma tese acadêmica.

Depois de uma série de pancadas, de exemplos duros da decomposição da família, o último capítulo chega como um tipo todo especial de redenção - metáfora do que há de mais vivo no universo feminino, a maternidade. Paula (Fairuza Balk) esconde a gravidez do namorado, foge para procurar ajuda financeira com a mãe, mas acaba dando carona a um menino doente, violentado, à beira da morte.

Assuntos como a igreja são inseridos de maneira periférica - sejam os adventistas que visitam o pai de Delia, os rabinos amigos de Greta ou o sinal divino que Paula acredita receber -, pois a questão central tem mais a ver com ambição. Em graus diferentes, cada umas das três mulheres almeja algo além de uma boa casa e uma família unida. E a sua felicidade (ou ruína) depende se ela se contenta (ou não), com as pequenas coisas que lhe são oferecidas - esse é "o tempo de cada um". Aí reside a maior crítica de Rebecca à sua sociedade: há algo errado quando a busca de reconhecimento supera a necessidade primordial de um convívio pacífico.

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