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Os Sonhadores | Crítica

Os Sonhadores

Marcelo Hessel
09 de Dezembro de 2004

Os sonhadores
The dreamers - 2003
Itália/França/Reino Unido/EUA
Drama - 115 min.

Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista: Gilbert Adair

Elenco: Michael Pitt, Louis Garrel, Eva Green, Anna Chancellor e Robin Renucci

Quando vai à Cinémathèque de Paris, Matthew (Michael Pitt) gosta de se sentar nas primeiras fileiras da sala. Para receber as imagens primeiro, diz ele, ao lado de todos os outros cineclubistas recém-saídos da puberdade. A frase nasce clássica, junto com outras tantas passagens espirituosas de Os sonhadores (The dreamers, 2003). E ela resume bem o romantismo ingênuo e a intensa cinefilia que transpira, do início ao fim, do polêmico filme de Bernardo Bertolucci.

Apesar do ardor, o norte-americano Matthew não usufrui da cinemateca como gostaria. Decorre o ano de 1968, e o fundador e diretor da casa, Henri Langlois (1914-1977), acaba de ser demitido. Os movimentos estudantis, que já falavam alto contra o conservadorismo institucionalizado, se exacerbam. Entre passeatas e manifestações, Matthew puxa conversa com dois jovens irmãos gêmeos que também frequentavam as sessões, Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green). Ah, Isabelle...

Matthew logo se interessa, claro, pela sensualidade meio blasé da moça. E os gêmeos nutrem curiosidade pelo norte-americano limpo e loiro que flana por Paris sem compromissos - e que parece conhecer tanto de cinema quanto eles próprios. O teste definitivo: se o trio enganar os guardas e conseguir atravessar o Louvre numa correria desenfreada, quebrando o recorde dos personagens godardianos de Bande à part (1964), a amizade de Matthew será finalmente aceita.

História, cinema e ficção, como se vê, misturam-se sem pudor em Os Sonhadores. Enquanto os dias de 1968 - o famoso ano que não acabou - transcorrem e marcam a memória de uma geração idealista, Matthew passa as tardes no apartamento de Theo e Isabelle discutindo política, cultura, comportamento. E aprendendo a viver. O sexo inevitável surge lúdico e inocente, o incesto se mostra mais poético do que carnal. Haverá quem se sinta escandalizado com a libertinagem, mas o fato é que o amor é só mais uma peça, e não o fator dominante, nesse conto de amadurecimento.

Bertolucci enche a tela de nostalgia, sim, mas o seu discurso soa novo, pertinente - como as últimas palavras de sabedoria de um velho enfermo para o seu neto imprudente. Theo brada contra o sistema, mas é incapaz de acompanhar as passeatas que acontecem à sua janela. Já Matthew desafia os irmãos a crescerem, a lutarem, mas ele mesmo prefere o discurso pacifista ao confronto de verdade. Neste cenário, o panfletarismo dá lugar à reflexão. Joplin, Doors, Dylan, Hendrix, ícones daquela geração, poucas vezes soaram tão verdadeiros quanto na fabulosa trilha sonora de Os Sonhadores.

O cineasta tenta, assim, alimentar o inconformismo nos jovens de hoje que aprenderam a ver em termos como revolução uma conotação negativa. Busca, com Matthew e os gêmeos, resgatar o tempo em que o maior desacordo entre EUA e França envolvia o humor de Jerry Lewis. E o seu filme prega, acima de tudo, a crença no cinema como arma da transformação.

Entre inúmeras citações explícitas de obras alheias, a referência a Sergei Eisenstein (1898-1948) aparece de forma velada. Na cena final, ao fazer os policiais avançarem sobre a platéia, Bertolucci toma do mestre russo a sua mais famosa ferramenta, o enquadramento engajado. Com isso, não deixa dúvidas sobre o seu libelo político.



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Comentários (1)

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Ana Ana (17/11/2012 04:30:59)   11 0
uma declaração de amor ao cinema de verdade!




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