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Johnny (Paddy Considine) e Sarah
(Samantha Morton), imigrantes irlandeses recém-chegados
à América, ainda não se acostumaram à clandestinidade
de Nova York. Pior. Hospedados numa espelunca de drogados na vizinhança
da chamada "Cozinha do Inferno", são pegos de surpresa, sem
ar-condicionado, pela umidade do verão. Para aliviar, rumam a um cinema,
sala devidamente climatizada. É uma exibição de E.T.
- O Extraterrestre. As duas filhas do casal, Christy e Ariel (as irmãs
Sarah e Emma Bolger, respectivamente onze e sete anos
de idade), esquecem o calor massacrante e se apaixonam pelo mascote spielberguiano.
Depois da sessão, a família ruma a um parque de diversões.
Johnny pára diante de uma barraca de arremesso ao alvo: o brinde é,
justamente, o alienígena do filme. Chance de ouro do pai, desacreditado
e sem dinheiro, de se reabilitar diante das meninas. Pelas regras, a cada tentativa
errada, dobra-se a aposta; mas se o desafiador acertar, ganha o dinheiro todo
de volta. A cena é emblemática. Johnny arrisca perder todas as
suas economias, inclusive o dinheiro do aluguel, em troca de um orgulho banal
- uma grande metáfora da selvageria que envolve sucessos efêmeros,
sobrevivência e cultura do espetáculo no coração
dos Estados Unidos.
É o melhor momento de Terra de Sonhos (In
America, 2003). Um instante de crítica pertinente, ponderada e atualíssima.
Pena que seja também o último.
Mero sentimentalismo
Conforme os irlandeses vencem desafios e se firmam na cidade, a temática
do imigrante é substituída por um drama familiar de mortes passadas
e lembranças represadas: descobrimos que Johnny e Sarah se mudaram da
Irlanda para esquecer a morte de seu filho, Frankie. Seria
como se o filme prometesse Dogville
(de Lars Von Trier, 2003), mas se revelasse O
Quarto do filho (La Stanza del figlio, de Nanni Moretti, 2001).
A princípio, isso não é um problema da película,
só um equívoco de expectativas. Fica mais fácil entender
as opções do diretor irlandês Jim Sheridan
- célebre idealizador de Meu pé esquerdo (My Left
Foot, 1989) e Em nome do Pai (In the name of the Father,
1993) - se conhecermos o teor autobiográfico de Terra de Sonhos.
De certo modo, Johnny é Sheridan. Como o personagem, o diretor mudou-se
com a família para a Cozinha do Inferno, penou para alimentar as duas
filhas e também disputou o E.T. no parque de diversões. E como
no filme, uma tragédia pessoal pontua a história. Frankie
Sheridan, irmão do diretor, morreu vitimado por um tumor cerebral
durante a elaboração do filme.
Seria um bonito retrato pessoal se, ao manter esse profundo envolvimento, Sheridan
não começasse a perder o controle do filme. A opção
pelo drama da perda do filho se revela arriscada, resvala perigosamente em clichês
típicos de um Supercine. Sustenta a trama a boa participação
das duas meninas. Mas, ao contrário da sempre excelente Samantha Morton,
Paddy Considine tem dificuldade de transmitir a angústia de Johnny.
A essa altura, a força inicial se esvai, sobra apenas o sentimentalismo
- algo otimista, humano e tocante, mas ainda assim mero sentimentalismo. O momento
crucial dessa inversão foi, claro, quando Johnny conseguiu ganhar o boneco
do E.T. e conquistou o seu dinheiro de volta. Detalhe: a realidade foi mais
cruel com Sheridan, que saiu do parque com as mãos vazias. Imagine se
o cineasta irlandês tivesse mantido a aspereza do relato, exatamente como
lhe aconteceu, sem suavizar as dificuldades da imigração... Por
pouco, Terra de Sonhos não se torna um grande filme.
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