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Juízo

Diretora de Justiça volta a mostrar a realidade dos tribunais - agora, de menores de idade

Marcelo Hessel
13 de Março de 2008

Juízo

Juízo

Brasil , 2007 - 90
Documentário

Direção:
Maria Augusta Ramos

Roteiro:
Maria Augusta Ramos

Elenco:
Alessandro Jardim, Daniele Almeida, Guilherme de Carvalho, Isabela Cristina, Karina Lopes, Wilson dos Santos e outros

Excelente
juízo
juízo

Três anos depois de pintar um retrato sensível e atordoante do sistema judiciário brasileiro em Justiça (2004), a documentarista Maria Augusta Ramos cria em Juízo uma espécie de continuação, com produção da companhia de cinema de Diler Trindade (que, justiça seja feita, não banca só as Xuxas e Didis da vida).

Ao contrário do filme anterior, que acompanhava sessões do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e passeava pelo Setor de Custódia da Polinter, Juízo filma audiências na II Vara da Infância e da Juventude do RJ e entra no Instituto Padre Severino, prisão para onde são levados os menores em reclusão temporária. Saem os maiores infratores, entram os menores de idade.

O nome do filme é uma grande sacada. "Juízo" é o que se aconselha paternalmente aos jovens, "é importante ter juízo na vida", "criar juízo", como num mantra que, repetido à exaustão, pára de fazer efeito. Os sermões que Maria Augusta Ramos documenta na Vara da Infância - não há outro nome para aquelas sentenças dadas às dezenas por dia senão sermões - têm a validade de um mantra gasto.

Como em Justiça, o que nos atordoa é perceber o abismo que existe entre o juiz e o réu - acima de tudo um abismo linguístico. A certa altura de Juízo, ficamos sabendo que um detento fugiu da prisão de onde seria solto no dia seguinte, simplesmente porque não conseguiu entender a sentença que lhe concedia a liberdade. Outra cena de potencial terror, mas à qual estamos cada vez mais acostumados: a precária condição das instalações dos institutos de detenção.

Um comentário que valia para Justiça ainda se aproveita: Maria Augusta Ramos tem "olho", sabe capturar em plano banal e dar-lhe sentido. Em Justiça era a cena em que o absolvido Alan deixava o tribunal em trapos na madrugada para pegar um ônibus que nunca passava, emblema profundo do colapso social. Em Juízo, são os planos-detalhes de dentro do Instituto Padre Severino: cenas de garotos brincando com cabeças de escovas-de-dentes, matando o tempo com o que aparece, virados para o nada com olhar vazio.

Encenação

Nem tudo é elogio; há o conflito. Permanecem, em relação ao filme de 2004, as problemáticas opções que a documentarista faz. Opções essas que, aqui, por escancararem o conflito que o próprio gênero impõe, se tornam atos de gênio.

Ao contrário de muitos documentaristas que expõem na tela seus procedimentos (até mesmo botam lá as suas caras), Maria Augusta Ramos tenta a todo custo "sumir" com a câmera. Revelar-se é uma forma de dizer ao espectador que aquilo é um documentário e, como tal, deve ser assistido com ceticismo: uma pessoa que depõe em um documentário sempre "atuará", porque, afinal, está diante de uma câmera. Já Justiça e Juízo seguem no rumo oposto e apostam numa ferramente de ficção, a suspensão da descrença.

Sob análise, Juízo praticamente entra em curto-circuito por conta disso. Como seu alvo são os menores infratores, e estes não podem ser expostos publicamente (a famosa tarja preta nos olhos), a diretora precisa arrumar alguém pra colocar ali no lugar dos réus. Ela decide então escalar outros jovens que passam por situação social semelhante para atuar. Mães, pais, promotores, defensores e juízes são eles mesmos. Os réus são encenação.

Encenação talvez seja uma palavra forte demais - porque, como diz no material entregue à imprensa, Maria Augusta Ramos crê que os seus réus-substitutos poderiam muito bem estar naquela situação na vida real. Mas isso não acaba com esse dilema de Juízo à la Coutinho que é o esforço para documentar uma realidade e, ao mesmo tempo, agir como maestro do jogo de cena. A genialidade está em abrir esse dilema ao público, na medida em que a diretora já entrega o artifício nos créditos de abertura do filme.

Ouvir testemunhos de jovens que não são o que dizem ser invalida o documentário? Dá-lhe uma outra dimensão? Ou não faz - já que estamos falando da máquina de trocar nomes por números que é a máquina do sistema judiciário/carcerário brasileiro - a menor diferença?


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Comentários (2)

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sem avatar Frederico (15/11/2010 01:42:28)   0 0
Não existe dilema. O documentário observacional de Maria Augusta Ramos joga o espectador como observador. Existe um distânciamento proporcionado pela abordagem formalista da diretora, o que inclui os menores não atores. Não existe encenação, os menores não fazem papéis, não criam uma dramaturgia. Eles respondem a Diretora as mesmas perguntas feitas pelos juízes. O dispositivo fílmico é claro no início do filme, na cartela.
Queria apenas fazer essa observação nessa boa crítica a esse filme, uns dos mais importantes feitos no Brasil.



sem avatar Sérgio (20/10/2010 00:25:49)   0 0
http://www.youtube.com/watch?v=7JcIsbkOoFw

http://www.youtube.com/watch?v=njESqa6H7Ko

http://odia.terra.com.br/blog/blogdaseguranca/200808archive001.asp


Vigário Geral: tragédias por todos os lados
Por Gustavo de Almeida





Nesta sexta-feira, completaram-se 15 anos da triste chacina de Vigário Geral, quando 21 inocentes foram assassinados da forma mais insana possível, em uma vingança sangrenta que tomou conta do noticiário internacional. A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, lembrou a data, mas já é possível perceber que aos poucos a cidade vai deixando as trágicas lembranças da chacina para trás. Os atos vão sendo esvaziados. O noticiário na TV vai ficando mais ralo, e até mesmo os nomes de mortos e matadores vão sendo menos escritos. Até mesmo um dos matadores foi morto em maio, sem que se fizesse muito alarde disto.
Vigário Geral e o Rio de Janeiro se refletem em um espelho, quando somam impunidade e injustiça.
Uma das parentes de vítima teve a indenização negada no fim do ano passado pela Justiça, sem maiores explicações. É obrigação do Estado recorrer, como manda a lei. Mas surpreendeu que em última instância a vítima tenha perdido. É inexplicável. Trata-se de uma senhora que até hoje vive em Vigário, sem maiores perspectivas. Não sabe nem que a vida lhe foi injusta. Já não sabe o que é vida.
Poucos sabem, mas há um PM no caso de Vigário Geral que acabou se tornando vitima. Trata-se de Sérgio Cerqueira Borges, conhecido como Borjão.
Borjão foi um dos presos que em 1995 já eram vistos como inocentes, colocados no meio apenas por ser do 9º´BPM. A inocência de Borjão no caso era tão patente que ele inclusive foi o depositário de um equipamento de escuta pelo qual o Ministério Público pôde esclarecer diversos pontos em dúvida.
Borjão foi expulso da PM antes mesmo de ser julgado pela chacina. Era preso disciplinar por "não atualizar endereço".
Borjão conta até hoje que deu depoimento em seu Conselho de Disciplina sob efeito de tranqüilizantes, ainda no Batalhão de Choque. Seus auditores sabiam disto. "No BP-Choque, fomos torturados com granadas de efeito moral as vésperas do depoimento no 2º Tribunal do Júri, cujos fragmentos foram apresentados à juíza, que enviou a perícia. Isto consta nos autos, mas nada aconteceu", conta Borjão, hoje sem uma perna e com a saudade de um filho, assassinado em circunstâncias misteriosas, sem que ele nada pudesse fazer.
"No Natal fui transferido para a Polinter. Protestei aos gritos contra a injustiça. e Me mandaram para o hospital psiquiátrico em Bangu mas, por não ter sido aceito, retornei e em dias fui transferido para Água Santa. Lá também fui espancado e informei no dia seguinte em juízo, estando com diversos ferimentos, mas sequer fiz exame de corpo delito. Transferido para o Frei Caneca, pude ajudar a gravar as fitas com as confissões e em seguida fui transferido para o Comando de Policiamento do Interior. Após a perícia das fitas fui solto. Dei entrevistas me defendendo e tive minha liberdade provisória cassada e me mandaram para o 12ºBPM a fim de me silenciarem. No júri, fui absolvido. Meus pedidos de reintegração à PM nunca foram respondidos".
A história de Borjão ao longo de todos estes 15 anos só não supera mesmo a dor de quem perdeu alguém na chacina. Mas eu não estaria exagerando se dissesse que Sérgio Cerqueira Borges acabou se tornando uma vítima de Vigário Geral. "Tive um filho com 18 anos assassinado por vingança. Sofri vários atentados e um deles, a tiros, me fez perder parcialmente os movimentos da perna esquerda. Sofro de diabete, enfartei aos 38 anos e vivo com um tumor na tireóide. Hoje em dia tento reintegração à PM em ação rescisória, o processo é o número 2005.006.00322 no TJ, com pedido de tutela antecipada para cirurgia no Hospital da PM para extração do tumor. Portanto, vários atentados à dignidade humana foram cometidos. As pessoas responsáveis nunca responderão por diversas prisões de inocentes? Afinal foram 23 inocentes presos por quase quatro anos com similares seqüelas. A injustiça queima a alma e perece a carne!", desabafa Borjão.
Borjão hoje conta com ajuda da OAB para lutar por sua reintegração. Mas o desafio é gigantesco.
Triste ironia do destino: o policial hoje mora em Vigário, palco da tragédia que o jogou no limbo.

A filha dele, no entanto, me contou há alguns dias que não houve tempo suficiente para esperar pela Justiça e pela PM - Borjão teve que operar às pressas o tumor na tireóide no Hospital Municipal de Duque de Caxias. A cirurgia foi bem. Sérgio Cerqueira Borges vai sobreviver mais uma vez.
Sobreviver de forma quase tão dura como os parentes de 21 inocentes, estas pessoas que sobrevivem mais uma vez a cada dia, a cada hora. No Rio de Janeiro é assim: as tragédias têm vários lados e a tristeza de quem tem memória dificilmente se dissipa. Pelo menos nesta data, neste 29 de agosto que nos asfixia.




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