Olha... vou entrar na seara dos outros, mas...
Vox populi não é vox dei. Não é por aclamação popular que se sacramenta a qualidade artística de algo. A aclamação da maioria somente fala sobre a... popularidade. Não sobre qualdiade.
Uma obra de arte é, do ponto de vista de informação, uma codificação complexa. Tende a exigir que o leitor/ espectador possua o código que a decifre. Isso implica em educação (no Brasil, cada vez mais auto-educação) e maturidade (responsabilidade inteira do sujeito). Um sujeito que não conhece ópera não vai entender nada do que acontece numa... e o mesmo vale para um sujeito que não sabe o que é rock, ouvir ópera-rock... vai achar tudo com cara do mesmo. Toda atividade humana tem seus refinamentos que somente quem entende, percebe. O sujeito “de fora”, sem o código, acha tudo a mesma coisa, e tende a menosprezar. E o sujeito tornar-se apto a entender algo (observe: isso vale para culinária, esportes, etc...) é preciso aprender. Isso toma tempo. Quem não conhece outro idioma, acha que o estrangeiro balbucia. Quem entende o mínimo, compreende o significado. Quem entende muito, percebe sotaques, entonações, procedências, tribos, etc... Esse processo é sempre dinâmico, sempre aprendemos mais n´aquilo em que gastamos tempo.
Todo mundo começa lendo gibis mais simples, e, com o tempo aprende o que é um roteiro bem escrito, um desenho com expressão. Vai crescendo ele mesmo. E vai preferindo quadrinhos mais maduros. O mesmo vale para filmes, pinturas, vinhos, whiskys...
Na prática, todos temos áreas em que conhecemos os códigos, aprendidos com esforço... e um número muito maior em que não sabemos nada. Todo mundo é ignorante. E em número maior de coisas em que é entendido.
Na prática, náo é que arte é para uma elite. Mas toda forma de arte CRIA uma elite de seus apreciadores, por definição. Um círculo menor de gente que entende e aprecia, dentro de esferas cada vez maiores de gente que gostam do gênero. Essa elite é específica, e não se relaciona diretamente com dinheiro. Por isso podemos falar de “gente rica com mau gosto” nisso e naquilo. Educação não é ensino básico, mas auto-cultivo em determinado assunto. Isso vale para qualquer atividade humana. Há uma elite que entende de música tecno (eu não entendo NADA), outra de rappel e esportes radicais... toda atividade tem uma elite de experts e entendidos, praticantes e admiradores. Arte, em seus gêneros e subgêneros, também. O cinema tem os entendidos de filmes de horror, por exemplo; de road movies... e por aí vai.
Certas coisas – o whisky, por exemplo – são mais caras. Para se entender essa bebida, é preciso ter bebido várias vezes, e vários tipos. É preciso dinheiro. Por isso que, para certas atividades, há uma relação entre elite cultural e elite de riqueza. Mas nem para tudo isso vale.
E o contrário acontece: o que é o clichê? O kitsch? É aquilo que usa os meios informacionais de mais fácil compreensão. Por isso as pessoas, em grande número, entendem. Isso vale para a música “brega”, para o desenho “infantil” , e assim sucessivamente... Do ponto de vista de informação, é algo simplório. É o patamar mais baixo do círculo. Mas ele tem sua importância: é esse círculo mais amplo e fácil que convida o sujeito a entrar e, se quiser, ir sofisticando. É por quadrinhos bestas que a gente tem acesso a um Gaiman, a um Moore, etc... (repito, vale para qualquer atividade humana)
Michael Bay é fácil. Perdoem-me, mas Peter Jackson é igualmente clichê, acessível para toda a molecada. Bergman, não.
Porém... se toda obra de arte é complexa, nem toda complexidade é obra de arte, ehehehe. Pode ser somente hermetismo pessoal. Complexa não numa tradição de algo e, portanto, comunicável, mas codificada num código pessoal. Incompreensível. Alguém tem que conhecer o código. E ele é dado, numa obra de arte, pelas obras precedentes (isto é, tradição). Moore brinca o tempo inteiro com a tradição quadrinística, por exemplo. Miller, com o cinema noir. O contrário é o que acontecia com os filmes-pretensamente-cabeça no Brasil. Ou a obra de Caetano Veloso nos anos 70, que todo intelectual adorava não entender... quanto menos compreensível fosse, mais achavam profundo....
Ou, não é porque muitos não gostam que algo se torna bom, ehehehe. De novo, falta de popularidade só atesta... a impopularidade. Não garante qualidade.
E, claro, há casos raríssimos, de artistas que conseguem fazer obras que comunicam facilmente, numa certa camada, mas possuem camadas complexas internamente, que, com o tempo, vai-se descobrindo e apreciando. Em suas épocas, Shakespeare (bem popular, na verdade) e Hitchcock (que nego só foi achar sofisticado a partir do Cahiers du Cinema).