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Nossa Vida não Cabe num Opala

Discussão sobre adaptação do teatro ao cinema é mais interessante que o filme em si

Marcelo Hessel
14 de Agosto de 2008

Nossa Vida não Cabe num Opala

Nossa Vida não Cabe num Opala

Nossa Vida não Cabe num Opala
Brasil , 2007 - 104
Drama

Direção:
Reinaldo Pinheiro

Roteiro:
Di Moretti, baseado na peça de Mário Bortolotto

Elenco:
Leonardo Medeiros, Milhem Cortaz, Gabriel Pinheiro, Maria Manoella, Jonas Bloch, Maria Luiza Mendonça, Paulo César Pereio, Marília Pêra

Regular
nossa vida não cabe num opala
nossa vida não cabe num opala

O inconstante Nossa Vida não Cabe num Opala é tradução fiel dos problemas que cercaram sua realização. Em seu blog, mais de uma vez, o dramaturgo Mário Bortolotto, autor da peça que deu origem ao filme, expressou suas discordâncias em relação ao trabalho feito pelo roteirista Di Moretti - no centro da discussão, a forma como um texto teatral é transferido para um texto de cinema.

De um para outro mudaram-se personagens e diálogos; resiste a premissa: depois da morte do patriarca (Paulo César Pereio), uma família de quatro irmãos de classe média baixa paulistana precisa lidar com a herança maldita deixada por ele, uma dívida com um mafioso de desmanche (Jonas Bloch). Os tais Opalas são a especialidade dos dois irmãos mais velhos, puxadores de carro. Mas, como o título diz, essa vocação é um motivo de orgulho amargo.

Em última instância, cabe ao diretor Reinaldo Pinheiro - curta-metragista desde os anos 80, em seu primeiro longa-metragem - zelar pela boa transição do teatro para o cinema. Essa passagem se dá aos trancos. Há cenas visivelmente teatrais, como o momento na sala diante da TV, em que a câmera mantém da ação uma distância típica de quarta parede, com os atores atravessando o "palco" pelos lados, como num proscênio. E há as cenas de invenção de sala de montagem, notadamente a não-linearidade nas cenas que envolvem a personagem lynchiana de Maria Luísa Mendonça, Silvia.

São essas as cenas mais inspiradas, porque transcendem o texto. Nossa Vida não Cabe num Opala trata de vidas sufocadas por um misto de determinismo social e hereditariedade falida, e é na hora em que o primogênito (vivido por Leonardo Medeiros) fala de si mesmo para Silvia que isso fica mais claro - do pai, sempre oculto no porta-retrato, ele herdou a mulher, o nome, o vinho... A forma como Medeiros se comunica com meias-palavras, como se as outras metades das palavras já estivessem ditas mesmo antes dele nascer, é bem poética. Poética e natural, uma naturalidade que acaba anulada, dentro do esquema, pela interpretação truncada do caçula (Gabriel Pinheiro).

O filme todo é assim: a cada momento sublime segue um momento precário. A boa premissa da herança de pai e filhos é engessada pela trama maniqueísta do mafioso. Pinheiro não consegue dar unidade ao todo - unidade em termos de trilha sonora (há várias músicas sem um tema a ligá-las), inclusive. Para cada uma boa troca de falas entre Pereio e Milhem Cortaz saem duas constrangedoras entre Bloch e Maria Manoella: "não adianta fugir do seu destino", "você é uma lutadora sem compaixão", etc.

Aí já volta-se àquela discussão inicial, das licenças que Moretti toma em relação ao original... Como a peça de Bortolotto, Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, está regularmente em cartaz, está aí uma boa oportunidade para comparar.


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