Dentro
dos subgêneros do humor, o cinema norte-americano especializa-se em dois pólos:
o besteirol rasgado e a comédia dramático-romântica. Responsáveis diretos pelo
sucesso do primeiro tipo na década de 90, os diretores Bobby e Peter
Farrelly agora aventuram-se pela segunda categoria – claro, à sua maneira.
Depois dos criativos e descompromissados Debi e Lóide (1994) e Quem
vai ficar com Mary&qt& (1998), os irmãos Farrelly buscam a maturidade através
de O amor é cego (Shallow Hal, 2001), uma história cheia
de escatologias, mas que propõe também lições de solidariedade, amizade e outros
tipos de humanismos.
Um tipo fútil, superficial, Hal Larson (Jack Black, de Alta fidelidade) tenta cumprir a promessa que fez ao falecido pai – jamais se envolver com uma mulher feiosa. No seu cotidiano, só as mais saudáveis aspirantes a modelo têm vez. Certa ocasião, porém, Hal encontra um especialista em hipnose, que o aconselha a prestar atenção na beleza interior das pessoas. O rapaz cruza com a simpática e bem-humorada Rosemary - Gwyneth Paltrow, que os efeitos especiais e a maquiagem engordaram a exatos 136 quilos. Efetivamente, Hal apenas enxerga o que existe na alma de Rosemary, magrinha, magrinha. Agora, além do preconceito de seu melhor amigo, Mauricio (Jason Alexander), o ex-superficial precisa combater todos os tabus pelo seu amor. O problema: que acontecerá quando cessarem os efeitos da hipnose&qt& O namoro continuará&qt&
Quando
apenas se metiam com o humor desbragado, os Farrelly cumpriam enormemente a
tarefa de entreter sem qualquer compromisso. Com o tempo e a experiência, porém,
uma certa responsabilidade social se manifestou. Os deficientes físicos e os
seres bizarros, como crianças queimadas e homens com rabo, continuam presentes,
mas se envolvem com uma aura de solidariedade. Nada de errado. A tentativa de
exaltar causas nobres no lugar de meras bobagens deve ser louvada. Mas, igualmente,
se manifestaram pequenos equívocos de condução da linguagem, de direção e roteiro.
Ao abordar o riso de forma controlada, o filme talvez desagrade aos fãs mais
habituais dos Farrelly. Por outro lado, o espectador mais exigente pode assimilar
a mensagem benévola da beleza interior, mas custa a engolir as escatologias.
Existem
outros defeitos, como o uso abusivo de clichês – Hal está jantando com uma gostosa
num restaurante e, de repente, chega a gordona Rosemary, entre outros exemplos
– e a direção pouco eficiente do elenco. O coadjuvante Jason Alexander (o ótimo
George, de Seinfeld), só consegue mostrar seu talento no final
– exatamente quando tem um daqueles ataques nervosos típicos da velho personagem.
Já Jason Black mostra-se inseguro no papel principal. Os filmes dos Farrelly
continuam dependendo de atores com talento nato, como Jim Carrey, Cameron Diaz
e Ben Stiller. No meio da confusão, salva-se a ótima Gwyneth Paltrow.
Apesar dos pesares, de todos esses detalhes, a questão principal volta e se impõe sobre as outras: como escapar dessa mistura heterogênea&qt& Como fazer um filme que mistura piadas e emoção dar certo&qt& Cabe aos Farrelly seguir o caminho da diversão ou da conscientização&qt&
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O amor
é cego |
Imagens © 20th Century Fox
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