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O Gato do Rabino | Crítica

HQ premiada rende filme que não empolga

Érico Assis
23 de Agosto de 2012

O Gato do Rabino

O Gato do Rabino

França, Áustria , 2011 - 100 min.
Animação adulta

Direção:
Joann Sfar, Antoine Delesvaux

Roteiro:
Joann Sfar, Sandrina Jardel

Elenco:
Mathieu Amalric, Eric Elmosnino, Maurice Bénichou, Daniel Cohen, Jean-Pierre Kalfon, Hafsia Herzi

Regular
O Gato do Rabino
O Gato do Rabino
O Gato do Rabino

Em 2004, Joann Sfar tornou-se o autor mais novo que já recebeu o Grand Prix de la Ville d'Angoulême - prêmio máximo do maior festival de quadrinhos da Europa, normalmente reservado a quadrinistas com carreiras mais longas que os 32 anos de idade de Sfar. Ele já tinha uma longa lista de obras, numa produção febril de quatro, cinco, seis álbuns por ano - período em que os os europeus costumam fazer apenas um álbum -, mas o reconhecimento viria mesmo por O Gato do Rabino.

Na Argélia dos anos 1930, o gato, apaixonado pela sensual filha do rabino, aprende a falar depois de comer um papagaio. E não para mais. A principal discussão é com o dono: o bichano quer converter-se ao judaísmo. O rabino então tem que consultar seu próprio rabino para descobrir se gatos podem converter-se ao judaísmo, o que gera aquelas longas discussões filosófico-teológicas próprias da religião hebraica, sem se render ao dogma.

O gato narra a conversa com o rabino do rabino: "Pergunto-lhe qual a diferença entre um humano e um gato. Ele me responde que Deus fez o homem à sua imagem. Peço-lhe que me mostre uma imagem de Deus. Ele me diz que Deus é uma palavra. Digo ao rabino do rabino que, se o homem é semelhante a Deus por saber falar, eu sou semelhante ao homem. Ele me diz que não. Porque minha palavra é má. Porque eu a adquiri num ato de morte. Digo-lhe que isso não é verdade, que não comi o papagaio. Ele me diz que, além disso, sou um mentiroso."

É uma pequena aula de lógica e religião que, comicamente, vem da boca de um gato - o qual, como é apropriado aos gatos, é ardiloso e resoluto em servir apenas seus próprios interesses.

A obra-prima que é o primeiro álbum foi seguida de outros quatro álbuns que progressivamente perdem o encanto - em especial porque o gato para de falar. É o mesmo problema que afeta a animação baseada nas HQs, da qual o próprio Sfar é codiretor e corroteirista.

O roteiro faz algumas piruetas que, nas HQs originais, justificavam-se por ser a premissa de cada álbum. Alinhavados numa única trama, rendem um filme sem unidade. Há esta introdução com o gato querendo converter-se ao judaísmo, a história do jovem pintor que aparece dentro de uma caixa de livros importada da Rússia e a decisão do rabino de fazer a jornada em busca da mítica cidade de Jerusalém, na Etiópia, entre outras subtramas.

Mais notável que esta estrutura bagunçada, porém, é a animação 2D simplista que perde o expressionismo do traço de Sfar - uma mão solta que faz o próprio visual dos personagens variar de acordo com as necessidades de cada cena, no caso da HQ. Já a animação é estilizada aos traços mínimos, parecendo um desenho animado genérico de TV dos anos 90, com aqueles movimentos onde parecem faltar células de transição.

(Deve-se reconhecer, contudo, a qualidade dos cenários e de tudo mais que é estático nas cenas, captando traços e cores da Argélia da época com riqueza de detalhes. Também são exceção as três sequências curtas no filme onde utilizam-se outros estilos de desenho, e que parecem ter mais a ver com a animação 2D contemporânea.)

A segunda metade do filme, que corresponde ao quinto álbum da série, é esta jornada a Jerusalém e ao que os personagens chamam de "África negra". É abertamente uma discussão sobre racismo, que conta com um irascível milionário russo ateu, o encontro mortal com um príncipe muçulmano e até uma crítica engraçadinha a Tintim e ao controverso Tintim no Congo. A discussão, porém, se alonga sem necessidade e o filme perde o tom.

Os dois primeiros álbuns da série foram publicados no Brasil pela editora Jorge Zahar. Valem mais a pena que o filme. O estúdio de animação que Sfar montou com os colegas Antoine Delesvaux e Clément Oubrerie, a Autochenille Production, agora está envolvido na adaptação de outra famosa HQ francesa, Aya de Yopougon (que já teve um volume lançado no Brasil). Melhor sorte na nova empreitada.

O Gato do Rabino | Cinemas e horários


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Comentários (3)

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Jorge Luís Jorge Luís (23/01/2013 16:16:39)   69 0
É bastante original, no conteúdo e na forma, essa animação francesa que parte de uma ideia surreal, com o gato do título ganhando a capacidade de falar, para abordar diversos assuntos bastante atuais, principalmente, a guerra entre as religiões.

Fazendo uso de um protagonista animal, que por isso mesmo questiona os humanos a todo o momento, "O Gato do Rabino" funciona mais como um exercício de reflexão acerca de grandes questões filosóficas e religiosas, do que propriamente como uma história convencional.

A obra acaba sendo bastante satisfatória, sobretudo para quem procura por um entretenimento mais voltado para questões da vida real, onde o visual belíssimo, de um colorido fascinante, e o teor fantástico, servem como toque de criatividade e leveza no tratamento de problemas bastante complexos da atualidade.

8.5/10.0



Zé (23/08/2012 20:18:39)   1799 0
Eu tenho esse primeiro volume, é excelente.



Zé (23/08/2012 20:16:08)   1799 1
"mítica cidade de Jerusalém, na Etiópia"

Não é Salém?




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