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O Homem que Não Estava Lá | Crítica

O homem que não estava lá

Marcelo Hessel
08 de Março de 2002

Joel Coen sempre dirige. Ethan Coen sempre produz. Os roteiros são escritos a quatro mãos. Joel e Ethan são os famosos irmãos Coen, responsáveis por filmes singulares como "Arizona Nunca Mais" ("Raising Arizona", 1987), "Fargo" (1996) e "E Aí, Meu Irmão, Cadê Você&qt&" ("O Brother, Where Art Thou&qt&", 2000). Na carreira dos irmãos, uma peculiaridade atravessa todos os filmes. Não importa o gênero, seja no humor negro de "Arizona", no thriller cômico de "Fargo" ou nas citações clássicas de "E Aí, Meu Irmão", a história invariavelmente apresenta personagens excêntricos, situações irreverentes, desenvolvimentos e desfechos absolutamente imprevisíveis.

Não seria diferente em "O Homem Que Não Estava Lá" ("The Man Who Wasnt There", 2001), um dos melhores filmes da dupla. Aqui, a atração fica por conta do gênero escolhido, os filmes noir, aquele dos climas tensos, em preto-e-branco, das mulheres fatais, dos senhores de smoking, dos fumantes inveterados, das mortes misteriosas e das longas investigações. A escolha se encaixa plenamente ao estilo dos brothers. Em um filme noir, nada é o que parece ser - exatamente a especialidade de Joel e Ethan.

Mero barbeiro

As divertidas anormalidades ficam aparentes já num primeiro contato. Triunfante, Billy Bob Thornton empresta suas feições sóbrias e sua voz rouca ao personagem Ed Crane, um barbeiro. Casado com a infiel Doris (Frances McDormand, esposa de Joel Coen) e empregado na barbearia do cunhado Frank (Michael Badalucco), Crane faz de tudo para se manter uma incógnita - como diz o título da película, a omissão em pessoa. "Não sou sequer um barbeiro, eu só trabalho lá", repete Crane. Tudo muda quando um empresário malandro, Creighton Tolliver (Jon Polito), ocupa uma cadeira no salão. "Essa técnica que estou criando, a lavagem a seco, vai revolucionar o mundo, garoto", proclama Tolliver. "Só preciso que alguém me financie com uma quantia de dez mil dólares", completa o empresário.

Crane se interessa. Planeja enriquecer, se tornar mais do que um mero aparador de cabelos. Assim, não pensa duas vezes antes de chantagear o amante da esposa, Big Dave (James Gandolfini, da série "Família Soprano"). Consegue então a dinheirama. Crane se imagina o senhor da situação, onisciente, poderoso, como um legítimo personagem do gênero. Mas a sombra da noite e a névoa da madrugada reservam surpresas, e as consequências da sua extorsão serão amplas e catastróficas.

Os irmãos Coen conseguem uma proeza. Mantêm o mistério como pilar da história - e a transformam na sátira mais deliciosa. Mas nem só em risos se sustenta o filme. Fascina o tratamento reservado à fotografia em preto-e-branco. Parecem existir milhares de tonalidades entre os dois opostos da cor. De maneira coerente, "O Homem Que Não Estava Lá" concorre ao Oscar 2002 de Melhor Fotografia. Mesmo assim, merecia mais. No Festival de Cannes, em 2001, o filme foi indicado à Palma de Ouro, conquistada pelo drama "O Quarto do Filho" ("La Stanza del Figlio", de Nanni Moretti, 2001). Na mesma premiação, Joel Coen dividiu o troféu de Melhor Diretor com David Lynch e o seu "Mulholland Dr." (2001). Na França, fez-se a maior justiça. No Oscar, porém, os Coen são os homens que deveriam estar lá.


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