Ó Paí, Ó

A vida dos moradores de um cortiço do Pelourinho, no último dia de carnaval.

Érico Fuks
29 de Março de 2007

Ó Paí, Ó

Ó Paí, Ó

Brasil , 2007 - 96
Comédia

Direção:
Monique Gardenberg

Roteiro:
Monique Gardenberg

Elenco:
Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Wagner Moura, Dira Paes

Regular
1
2
3

"Ó Paí, Ó" é uma expressão bairrista dos centros urbanos da Bahia sem uma tradução específica. Uma aglutinação fonológica de entendimento fechado, sem função sintática no conjunto lingüístico, algo com um significado próximo a "olhe para isso". Essa maneira soteropolitana regionalista à la Guimarães Rosa de impor as raízes culturais de uma casta social preterida pode ser traduzida por um mecanismo de defesa e de autopreservação. Trata-se de uma via de duas mãos que ao mesmo tempo protege suas nascentes do imperialismo metropolitano e exibe o seu colorido multiétnico como um ornamento turístico. Classifica-se semanticamente no mesmo patamar onomatopaico e abreviado de um "orra meu" paulistano, um "qualé brother" carioca ou "bah tchê" gaúcho. Mas, em seu contexto interno, emana seu vigor fonético e sua identidade sociológica assim como uma espécie em extinção amazônica que impede o colonizador de chegar perto.

Ó Paí, Ó, o filme, terceiro longa de Monique Gardenberg, também caminha pelos múltiplos e ambíguos percursos da idiossincrasia ímpar porém miscigenada. Em primeiro plano ostenta o óbvio: o carnaval, a fervorosa religiosidade e o paganismo, o acarajé, a folia sexual que lambuza o centro restaurado e decadente de Pelourinho. Flerta com o neo-realismo italiano, principalmente quando foca a pobreza tagarela e fofoqueira por meio dos alicerces dos cortiços. Câmera enquadra o morador do primeiro andar e, como se fosse um elevador, sobe para dar um close no que vive mais acima. Essa verticalização de planos e contraplanos é uma interpretação filmada do legado literário naturalista brasileiro, em que o ambiente determina as relações. Aqui, nesse caso, os contornos urbanos são mais irônicos: por mais sobe-e-desce que seja o transporte das lentes, todo esse composto multicultural situa-se no mesmo pavimento social.

Ó Paí, Ó mistura a beleza arquitetônica da Jerusalém brasileira com as rachaduras em concreto de uma sociedade microcósmica que está para explodir. Adiciona a essas estampas de enciclopédias geográficas universais um pouco do Brasil verdadeiro. Desnuda-se das aulas de dicção das telenovelas e traz o sotaque arretado e corrido de Salvador para imprimir um tom realista mais coerente. No meio de mesquitas, dos azeites-de-dendê e dos Araketus perambulam pequenos estelionatários, sub-profissionais que vivem de bicos, aproveitadores, travestis e lésbicas, entre outras classificações sociologicamente marginais. Destacam-se nesse amálgama apimentado Roque (Lázaro Ramos), pintor de carrinhos de café, e Boco (Wagner Moura), neurótico e racista. Toda essa heterogenia homem-lobo-do-homem é regida por um denominador comum que, de uma maneira tragicômica, une o pequeno conglomerado como se fosse uma família: a falta de água. Água que deixou de cair do céu, água que secou do registro fechado pela proprietária do cortiço, que não quer mais saber de inadimplências e, como castigo, sente-se no poder divino de punir os humanos.

Tão multifacetário quanto esse organismo plural historicamente colonizado é a maneira de Gardenberg registrar esse documento. Na falta de um estilo próprio, usam-se todos. Isso não chega a ser um problema quando se tem como referência no cinema pós-contemporâneo um Tony Scott da vida, discípulo de uma geração que bombardeia pra tudo quanto é lado. Em tempos de videogames e reality-shows, abrir o leque de opções estéticas e estruturais é demonstrar competência e criatividade, enquanto que optar por um rígido mecanismo cinematográfico hoje em dia pode denotar falta de habilidade e limitação tecnológica. A Concepção, de Belmonte, é igualmente um filme andrógino, mas ali os múltiplos olhares e filmares representam na tela a falta de identidade da cidade-dormitório Brasília, berço político perdido que ateia fogo em índios pra se divertir. Aqui nas capitanias hereditárias da família Magalhães a câmera polidáctila de Gardenberg procura traduzir o caótico sincretismo multi-racial. Mas tamanha diversidade cromática mais parece desleixo do que formalismo ideológico. Dos granulados coloridos Rede Globo das praças públicas aos irrequietos e opacos movimentos de câmera em ambientes fechados, até culminar na fotografia cinzenta e chapada com a chegada de Psilene (Dira Paes), baiana de nascimento que retorna à cidade depois de morar uns tempos no exterior. Pelourinho acolhe Psilene, Gardenberg não.

Se a raiz forte folclórica, se o RG soteropolitano de Ó Paí, Ó se perde na incoerência silábica dos planos e cortes, acrescenta-se a esse ralo caldo cultural a inserção de exercícios de propaganda ideológica venerando o movimento Olodum e sua reabilitação de meninos de rua, pitada noticiosa totalmente dispensável a uma narrativa ficcional que se pretende tão folhetinesca quanto as páginas de Jorge Amado.

Érico Fuks é editor do site cinequanon.art.br



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Comentários (6)

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Gabriel Rodrigo Gabriel Rodrigo (06/04/2011 16:49:15)   7 0
Pra mim, um dos melhores Nacionais já existente e exibidos na história do Cinema nacional. Simplesmente Sensacional com elenco de tirar o fôlego. Lázaro Ramos e Wagner Moura arrasam.



sem avatar Alfonso (19/11/2010 11:22:37)   -3 0
Ó Pai Ó é um filme que eu não vi, por isso gostei muito (Mãozínea)

Esse cara nem tá mais no Omelete, foi demitido por justa causa após essa crítica (Alfonso)


sem avatar Davi (10/10/2012 22:15:11)   40 0
O Érico Fuks está hoje na Rolling Stones Brasil. Acho mais que ele saiu do omelete por conta própria (se já esteve alguma vez no omelete), do que ter sido demitido.


sem avatar Iara Helena (19/11/2010 10:02:57)   1 0
P.S.: Usar Jorge Amado e Guimarães Rosa como formas pejorativas só depõe contra o site.


sem avatar Davi (10/10/2012 22:16:02)   40 0
Não acho que ele usou a menção Guimarães Rosa como forma pejorativa, mas quem fala assim de Jorge Amado merece meu respeito!


sem avatar Iara Helena (19/11/2010 09:55:26)   1 0
Há uma necessidade de erudição (e diria que exacerbação quase caricatural) nesta crítica. Maior do que uma crítica de um veículo de comunicação em massa deveria pressupor, e acredite, pressupõe de bastante formalidade. Mas não esses rococós de erudição-pesadelo. Dito isso, a crítica negligencia detalhes do filme e da peça da qual ele vem que são fundamentais, como a forma que o texto foi feito, por exemplo, ou qual a formação dos atores, e o quão isto é determinante para que seja aquele cenário, aquele momento, aquelas personagens. Crítica pressupõe pesquisa, uma atividade muito mais ampla do que repetir chavões acadêmicos clichezíssimos. O filme inova tecnicamente por conta da questão da produção do roteiro, se você tivesse pesquisado ou lido os créditos finais, saberia. E é uma delícia de ver porque é um auto-retrato de um espaço muito rico, produtor incansável de arte e de um sotaque delicioso.
A propaganda com o movimento Olodum tem o seu ipcilone, como tudo. E novamente pesquisar elucidaria tal questão, mas acho que pesquisar só é uma atividade válida quando o tema em questão é David Lynch, não? Porque é feio falar mal de David Lynch, ninguém quer bancar o "inculto". Porque o "povo"(seja lá o que isso for) tem que ser simplesmente uma massa, não pode lhe ser dado face ou voz, não se pode usar a sua estética, a sua música, os seus confetes ou seja mais o que for porque não é de bom tom nem de bom gosto. Discursinho mais reacionário impossível.
O título "Ó Paí, Ó" é, sim, um marco de regionalidade. É uma gíria NECESSARIAMENTE soteropolitana. E isso é usado para desqualificar a obra, opondo a questão de preservação das diferenças como uma inferiorização.
Toda arte é regional, sempre foi, porque é feita por indivíduos de um determinado espaço num determinado contexto, estará sempre marcada de alguma forma por seu lugar e seu tempo. Não existe subjetividade que anule o entorno, e vice-versa, mas essas duas instâncias estão em constante diálogo. Não cabe a mim ou muito menos ao site traduzir todas as questões que podem vir a surgir da conjugação do eu e do outro. O que se pode dizer é que tomar uma regionalização e fazer dela "universal" para que outras regionalizações sejam tidas como menores através de colocações eufemizadas e pejorativas como "exibe o seu colorido multiétnico como um ornamento turístico". Não é necessário dizer "orra meu" pra que se diga "orra meu". Não é necessário usar uma gíria paulistana para que se note a presença de São Paulo num filme, por exemplo. Ou Rio, ou Rio Grande, ou New York, tanto faz. O filme é, doa a quem doer, SOBRE O PELOURINHO. E não esconde seu "Ó Paí, Ó" sob nenhuma pretensão de universalidade.
Isso sem contar o religiosidade X paganismo, candomblé não é religião? Faça o favor, senhor..!
O teatro é o lugar em que se vai para olhar (etimologia, por favor). Cinema exercita o olhar. Então, nada mais adequado: Olhe para isto, olhe.




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