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Omelete Entrevista Frank Miller

O quadrinista e cineasta fala do processo de criação para The Spirit - O Filme

Marcelo Forlani
19 de Março de 2009

The Spirit - O Filme

The Spirit - O Filme

The Spirit
EUA , 2008 - 103
Ação

Direção:
Frank Miller

Roteiro:
Frank Miller

Elenco:
Gabriel Macht, Eva Mendes, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson

Regular
The Spirit - O Filme
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The Spirit - O Filme

A entrevista que você está prestes a ler aconteceu em julho de 2008, no Hard Rock San Diego, que fica em frente ao Centro de Convenções. Enquanto esperava o momento de entrar na sala para conversar com Frank Miller e a produtora Deborah Del Prete, vi Masi Oka, o Hiro Nakamura da série Heroes entrar numa sala envidraçada para uma reunião com vários japoneses. Mas depois de alguns segundos imaginando o que eles estavam discutindo ali, voltei ao meu mundo... na verdade, quando é que eu imaginaria que ia entrevistar Frank Miller, um dos grandes criadores de quadrinhos? É... não sei se dá para chamar esse de "o meu mundo". O bom é que o Miller que eu entrevistei era bem diferente daquele cara engraçadinho que eu tinha visto nos painéis daquele ano da Comic-Con, que ficava fazendo caretas e fingindo que não estava escutando. O Miller que ficou na minha frente é o cara criativo, cheio de ideias e que gosta de expô-las. Você pode não concordar com elas (ou achar que não deram tão certo quanto ele as imaginou), mas por respeito ao que ele já produziu tem ao menos que ouvi-las e respeitá-las.

Por que você escolheu adaptar para os cinemas um trabalho do Will Eisner em vez de um trabalho próprio nessa sua estreia solo como diretor?

Frank Miller: Fui convidado.

Deborah Del Prete: E tenho de dizer que nós ficamos surpresos quando ele disse "sim".

FM: De certa forma foi coincidência. Eu havia co-dirigido Sin City, mas não havia jamais tido o controle total de uma produção sozinho. Sabe como é quando você ama uma pessoa mais do que qualquer coisa e a defende de uma forma mais voraz do que defende a si mesmo? Eu amo Will [Eisner] e Spirit e não queria que nada de mau acontecesse com ele. E agora, quando for fazer o próximo Sin City, ou qualquer outro projeto, estarei mais afiado.

O tom dos quadrinhos do Spirit é uma mistura do cartunesco com o real. É esse o tom que você vai usar no filme?

FM: Uma vez que estamos falando de um filme interpretado por pessoas de carne e osso, o meu objetivo aqui era mostrar a eles a intenção de Will Eisner e o seu estilo para cada um dos personagens que ele criou. O uso das cores é algo que vem da minha cabeça e utilizo para evocar emoções. Às vezes vejo filmes que utilizam tantas cores que mal consigo pensar direito por isso prefiro pensar as cores com mais cuidado. Assim, quando eu mostrar para você algo vermelho, não é porque o sol estava avermelhado naquele dia. Uma vez que nós tínhamos controle total, por filmarmos em um ambiente digital, todas as cores foram criadas pelas pessoas envolvidas.

DDP: Um dos meus trabalhos é ver o filme sendo feito e tentar vê-lo como o público. E digo que vejo muito de Will Eisner nesse filme. Frank e todos nós somos muito fãs do Spirit e o filme tem muito desse humor orgânico do personagem. Não é caricato. E o visual também tem muito de Will Eisner, o seu traço. É um projeto exagerado. Tem uma sensibilidade cômica exacerbada. Tem uma cena em que Spirit dá cerca de 200 socos - ou vinte, não sei bem (risos) - e outras envolvendo o vilão que você vai notar no fundo da tela um estilo típico de uma história em quadrinhos.

FM: Quando Will se sentou para fazer Spirit, ele não pegou papel e lápis e falou "vou fazer algo rico para as próximas gerações, que vai viver para sempre". Ele pensava no trabalho que tinha de fazer, a página que tinha de preencher. Ele queria fazer de um jeito diferente do que se fazia até então, ele era audacioso, ele se divertia. Eu queria trazer esse espírito ao projeto. E nesses dias digitais, isso nos dá todos os tipos de possibilidade. E é lógico que eu também queria fazer um bom filme. Ou seja, tive de me segurar para não transformá-lo em algo completamente diferente.

Por favor, fale um pouco das limitações e possibilidades que existem nas duas mídias, quadrinhos e cinema.

FM: Ao fazer história em quadrinhos, você logo percebe quais são seus principais inimigos: movimento e tempo. É por isso que os gestos dos personagens são desenhados de maneira exagerada, gigantesca. Você precisa demonstrar uma expressão usando pincel e tinta. E em termos de tempo: todas as imagens são estáticas. Ou seja, o leitor é que determina a velocidade que vai ler a história. Um amador pode imaginar que dá para diminuir um pouco o ritmo colocando um monte de texto na página, mas o leitor pode simplesmente ignorar e passar para a próxima página sem lê-los. O jeito certo de desacelerar a leitura é criando um quadro que deixe o leitor encantado, observando cada detalhe que está ali. Veja, por exemplo, o trabalho de Bill Waterson em Calvin e Haroldo. Tá aí um mestre que sabe exatamente como prender sua atenção.

No filme, as limitações são que a realidade não faz tudo o que você quer. (risos) É muito fácil para um roteirista escrever "... e Moisés dividiu o Mar Vermelho" e no máximo sublinhar o trecho que você acha que pode dar um pouco mais de trabalho. Agora nós vivemos em uma época em que os cineastas podem realizar o impossível, então o desafio agora é saber onde e quando parar. Não é preciso criar um milhão de coisas para impressionar. Você precisa aprender a usar o espaço vazio de forma inteligente. Eu saio de alguns filmes como se tivesse comido muito além da conta.

Por exemplo?

FM: Como a nova trilogia de Star Wars, que é uma celebração da era digital. Lucas quebrou tantas barreiras ali que acabou se tornando indigesto. Olha só eu falando mal do George Lucas (risos). Mas o ponto é que ele mostrou que dava para fazer com aquela tecnologia e como. O passo seguinte é, na verdade, dar um passo atrás e trazer de volta o mundo de Fritz Lang, Orson Wells, John Houston e pensar como criar em quartos com apenas luzes e sombras.

DDP: Acho que o que precisa ser ressaltado sobre a tecnologia digital nesse filme é que todos aprendemos muito com Sin City e 300 e agora nós demos um passo para uma outra direção. Nós não estamos tentando criar um ambiente que não é real. Então, qual a grande vantagem de filmar com fundo verde? O diretor passa a se preocupar apenas com os atores. Não há mais as distrações do cenário. Depois, é só você pintar o cenário do jeito que quiser, de uma maneira que não distraia o espectador, mas ajude a contar a história. Isso tudo só aumenta cada vez mais a importância do ser humano, que não pode ser criado digitalmente.

Então, nos conte como foi trabalhar com os atores.

FM: Trabalhar com os atores é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Eles são ótimos! Eu não consigo falar mal deles. A partir do momento que eu dei para eles uma ideia do que está acontecendo, onde ele está naquele momento e o que está acontecendo na história, eles começam a criar e o que eu escrevi no roteiro já não é mais meu. Suas caras, suas bocas, seus olhos, é a partir disso que você experimenta minhas histórias.

DDP: Preciso completar isso dizendo que Frank é um ótimo diretor de atores. Ninguém tinha dúvida do que ele poderia criar do ponto de vista artístico e na hora de contar história, mas nós já sabíamos também da experiência dele com os atores em Sin City. Todos conhecem o talento de Robert Rodriguez, mas era o Frank que chegava nos atores e contava para eles quem eram os personagens e porque eles estavam agindo daquela forma.

Gabriel Macht não é um rosto conhecido. O que você viu nele que te levou a contratá-lo para ser o protagonista do seu filme?

FM: Eu queria mesmo um rosto desconhecido. Não queria que alguém olhasse para o pôster e falasse "ah, é o novo filme do Tom Cruise". Queria fazer o que Richard Donner conseguiu quando fez seu Super-Homem. Quero que você acredite que aquele cara seja o Spirit. Foram várias audições até acharmos esse cara que poderia fazer um herói. E isso não é nada fácil. Ser um herói é um puta trabalho. Vimos dúzias e dúzias de atores. O teste definitivo foi quando pedi ao Gabriel que ele chegasse perto de mim como se estivessemos no balcão de um bar e me contasse o que ele sentia por Sand Saref. Naquele momento sabia que tinha achado o meu Spirit. E depois disso ainda trabalhamos muito em detalhes que iam da forma como mover os ombros e a cabeça até a palavras que ele deveria ou não usar.

DPP: Uma das coisas que nós procuramos desde o começo era um ator com jeito de homem, e não um garotão, que é o que mais se vê por aí, principalmente na televisão.

Qual a diferença?

FM: É o que eu procuro a minha carreira toda. Uma boa parte é confiança e a vontade de ser responsável pelos seus atos. E a honra. Tem mais coisa, mas Bruce Willis e Clint Eastwood já mostraram bem como é.

Vamos falar um pouco do roteiro. Há centenas de páginas de histórias do Spirit. Quais você escolheu? E, para quem nunca leu The Spirit antes, o que você acha que essa pessoa deveria ler antes de ver o filme?

FM: O meu intuito é criar uma história que você não precisa ter lido nada antes, mas eu nunca vou dizer a uma pessoa que ela não precisa ler Will Eisner. (risos) Ele fazia histórias de sete páginas. Centenas dessas histórias! E todas elas renderiam filmes. O que eu fiz foi pegar uma das suas histórias de 14 páginas, "Sand Saref", que é a minha favorita, e a usei como um ponto de partida. Outra das minhas favoritas se chama "Show down", que é uma das mais engraçadas porque se resume ao Spirit e o Octopus se batendo com as mais variadas coisas. Eu sabia que teria de usar isso, pois uma das coisas que define o Spirit é que ele aguenta muita porrada - embora Will nunca tenha judiado tanto dele quanto eu nesse filme (risos). Fora isso, eu passei dias lendo muito do material criado do Spirit e depois simplesmente parei. Estava tudo registrado na minha cabeça porque já tinha estudado tudo aquilo durante a minha vida e não havia motivo para ficar revisando aquela aula. E foi aí que comecei a trabalhar no roteiro.

Vamos andar um pouco no tempo e falar um pouco do DVD. Vocês estão criando um produto para os fanboys. O que vocês já têm pensado para o DVD, que tipo de extras já foram filmados?

DPP: Muita coisa. Vamos ter tudo o que os bons DVDs têm e estamos pensando em formas diferentes de usar o que sobrou.

FM: E é muita coisa! Nós passamos meses filmando e são só duas horas de filme. Faça as contas do que nós não usamos. Um dos extras que quero fazer é usar a voz do Gabriel em cima dos meus storyboards, outro é mostrar a mesma cena com o fundo verde e depois finalizado. Enfim, muita coisa boa.

Você acha que algum dia conseguiria trazer Alan Moore para colaborar com você em um projeto desses? Ou isso é algo completamente impossível?

FM: Hahaha Se Alan Moore e eu algum dia tentarmos escrever alguma coisa juntos um de nós dois vai acabar morto. Ele é um grande amigo, um ótimo escritor, mas nós discordamos em relação ao formato da Terra.

Leia crítica de The Spirit - O Filme


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