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Omelete Entrevista: Johnny Depp

Ator de Inimigos Públicos fala sobre John Dillinger, chapéus e chapeleiros malucos

Marcelo Forlani
24 de Julho de 2009

Inimigos Públicos

Inimigos Públicos

Public Enemies
EUA , 2009 - 140
Drama / Policial

Direção:
Michael Mann

Roteiro:
Ronan Bennett, Michael Mann, Ann Biderman

Elenco:
Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Jason Clarke, Rory Cochrane, Billy Crudup, Stephen Dorff, Stephen Lang, John Ortiz, Giovanni Ribisi, David Wenham, John Michael Bolger, Bill Camp

Excelente
Inimigos Públicos

Johnny Depp, um dos atores mais requisitados do planeta, está de volta aos cinemas. E na época do lançamento do filme, o Omelete enviou o correspondente Steve Weintraub para Chicago, onde ele participou da entrevista coletiva com o o ator. Confira:

Por que você acha que nós gostamos de assistir a histórias sobre criminosos?

Johnny Depp: Bom, eles se safam fazendo coisas que nós nunca conseguiríamos nos safar, especialmente Jesse James, naquela época. Ele era meio que o precursor do John Dillinger, de certa forma. O John Dillinger é de 1933, quando os bancos e o governo eram os inimigos... J. Edgar Hoover beirava o rótulo de criminoso também, e então John Dillinger, como um homem comum, se rebelou e disse "Não, eu não vou aceitar isso. Eu vou pegar o que acredito ser meu." Será que respondi a sua pergunta? Devo dizer algo mais?

A cena em que Dillinger, o homem mais procurado dos Estados Unidos na época, entra na delegacia e passa completamente despercebido, isso é verdade?

É a verdade.

Ok, essa não é a minha pergunta.

[risos] Bem, essa não é a minha resposta.

Você, anteriormente, falou muito sobre chapéus, do quanto gosta deles e que eles se tornam seus amigos. Nesse filme você usou vários diferentes. Você fez novos amigos?

Eu fiz uns novos amigos, novos chapéus amigos. É.

Qual foi o seu favorito?

Ah, tinha tantos legais. Tinha um cara em Chicago fazendo essas coisas pra gente e ele era um ótimo artista. O que eu acho dos chapéus, ternos, sobretudos, toda essa coisa; o que eu mais gosto nisso é o que eu acho que isso representa. Quer dizer, naquela época todos se esforçavam mais. Os tempos eram outros. Existia uma inocência. Ainda havia possibilidades. Todos se esforçavam, usavam chapéus, paletós, gravatas. Eu sempre achei que eu devia ter nascido naquela época, mas eu não nasci. Mas na verdade não estamos tão distantes.

Que tipo de pesquisa você fez para o seu papel em Alice no País das Maravilhas? Você usou o livro ou trouxe algo externo ao personagem?

Bom, com certeza o livro. O livro é a base para tudo. Tem pequenos mistérios, pequenas pistas no livro que eu achei fascinante, que eram chaves para a minha compreensão do Chapeleiro Maluco. Como ele dizendo, "Eu estou investigando aquilo que comceça com a letra M." Isso foi uma grande dica pra mim, porque quando você começa a fuçar você percebe que está falando de um chapeleiro, um homem que fazia chapéus, e se você for olhar pra alguns chapeleiros da história verá que existe uma expressão, que se diz que este ou aquele cara está tão louco como um chapeleiro. Existia um motivo pra isso, que era a contaminação com mercúrio. Então assim eu descobri o que era o M e porque eles enlouqueciam. Isso ganhou uma proporção enorme. E aí, isso levou ao que eu via e como eu achava que esse cara devia parecer. Eu fiz meus desenhinhos estranhos, com aquarela e tal e levei eles pro Tim [Burton] e aí ele me trouxe os desenhinhos estranhos dele, com aquarela e tal e eles não eram muito diferentes [risos]. Dava pra colocá-los juntos de tão parecidos que eles eram.

Então a contaminação com mercúrio era uma doença que afetava os chapeleiros?

Contaminação com mercúrio. Tinha mercúrio na cola. Então eles começavam a ficar meio caducos [risos].

O que tem de tão especial na sua relação com o Tim? Ele te deixa fazer o que você quiser como ator?

Bom, a coisa mais importante é que, por sorte, ele já me deu uns sete empregos. Isso que é a coisa mais incrível. E eu estou ansioso para o oitavo e nono trabalhos. Não existe uma definição melhor além de que existe algum tipo de conexão entre nós que é, na maioria das vezes, não falada. A maioria das pessoas, quando ouvem o Tim me dirigindo ou quando estamos discutindo um personagem ou alguma coisa no set, ficam pasmas, completamente escandalizadas e não entendem nada do que estamos falando. Uma vez um cara realmente veio até mim, depois de assistir a minha conversa com o Tim por uns 10 minutos e disse, "Eu não entendi uma palavra do que vocês estavam dizendo". Então, sei lá. É uma daquelas coisas que você não questiona, mas eu amo ele, com certeza.

Você é um dos atores mais requisitados no mundo.

Sério?

Se você tivesse a oportunidade de andar por aí despercebido, aonde você iria?

Oh, uau. Essa é uma ótima pergunta. Assim, a primeira coisa que vier na mente, aonde eu iria se fosse completamente anônimo? Bom, eu iria à Disney com os meus filhos. É isso que eu faria. Eu iria em todos os brinquedos e andaria pelo parque com os meus filhos, daria a eles essa experiência. Eles não saem muito com o papai... se o papai andar pela Disney as coisas poderiam ficar um pouco complicadas.

No filme, Dillinger parece muito confortável com os holofotes da mídia. Você consegue se sentir confortável com toda essa atenção na vida real?

Bom, eu estou infinitamente mais confortável com o processo e o esforço de fazer um personagem e o processo colaborativo. Fazer o filme, basicamente. E aí tem essas outras coisas que vêm junto e que acho que nunca vou compreender, mas vejo como parte do ofício. É uma certa quantia de atenção que eu suponho que esteja intrínseco a isso. A alternativa a isso seria muito chata, onde não haveria nenhuma atenção da mídia, aí o trabalho meio que se perde, não é? John Dillinger, como qualquer americano de sangue quente, recebeu a bola e correu com ela. Isso não é muito diferente do que aconteceu comigo há muito tempo. Você recebe a bola e corre com ela o máximo que conseguir, até que alguém diz "Ok garoto, já deu. Saia da brincadeira." Eu acho que era isso que o Dillinger estava fazendo. Embora, no caso dele, ele soubesse que o tempo estava passando. A situação dele era infinitamente mais grave que a minha. Ele sabia que tinha um período de tempo muito pequeno e estava em paz com isso. Então era isso que ele estava fazendo. Ele era como a figura existencialista definitiva. Ia pra frente constantemente, sem nunca olhar pra trás.

Você já fantasiou, sonhou em fazer um personagem tipo Robin Hood, que tira dos ricos e dá aos pobres?

É isso que eu tenho feito há 25 anos [risos]. Quer dizer, é verdade. Eu comecei fazendo camisetas de silk screen, eu vendia canetas tinteiras, trabalhei em construção. Também trabalhei num posto de gasolina, era frentista e fui mecânico por um tempo. Aí fui pras confecções, trabalhei com costura. Tive vários trabalhos desagradáveis por um tempo. Acho que em 1986 é que eu comecei a tirar dinheiro dos ricos.

Você mencionou anteriormente que a área em que Dillinger vivia era um lugar onde os homens ainda eram homens. Você pode falar sobre o que você quis dizer com isso?

Bom, não necessáriamente a área, mas a época. Os anos 20, 30, 40. Tanto falando de moda, trabalho ou arte, em qualquer caso, o que os homens faziam e o que as mulheres faziam, existia um senso forte de quem era quem e o que era o quê. Bom, acho que o jeito mais fácil de dizer isso é que eles eram indivíduos naquela época. Hoje as pessoas são menos individuais, menos do que eram. A maioria dos jovens hoje se veste de maneira parecida, e falam quase um dialeto. Antigamente, cara, você tinha Cab Calloway e Harry "The Hipster" Gibson e Mez Mezzrow. Hoje existem alguns poucos que se destacam. Hoje temos Tom Waits e um Hunter Thompson e um Bob Dylan. Mas são menos e mais espaçados, na minha opinião.

Você disse que se sentiria confortável na era do John Dillinger. Você acha que ele se sentiria confortável no nosso tempo ou se sentiria um peixe fora d’água?

Eu acho que provavelmente ia sair correndo e gritando. Eu realmente acho. É tão grande o mundo agora. Eu fico chocado com as coisas que eu vejo. Eu fico chocado com as coisas que estão disponíveis na Internet. Fico chocado com as promessas da tecnologia para os próximos anos. Tem as ótimas possibilidades, e tem aquelas que são inacreditavelmente assustadoras. Dá para ouvir, em algum lugar da consciência, o Albert Einstein dizendo, "Eu não sei como a Terceira Guerra Mundial vai ser lutada, mas eu sei como será a quarta: com pedras e gravetos." Então, sim, eu acho que ele sairia correndo.

Você interpretou o John Dillinger como um homem com senso de humor. Isso estava no roteiro? Ele era mesmo um homem com senso de humor ou você que acrescentou isso?

Bom, ele com certeza era um homem com senso de humor e eu, por acaso, adoro humor. Então eu sempre tento enfiar algo que eu acho potencialmente interessante ou engraçado, o máximo que eu conseguir. Mas o John Dillinger com certeza tinha um senso de humor. Esse é um cara que foi à Feira Mundial no auge da sua notoriedade de Inimigo Público Número 1, em 1933. Ele vai à Feira Mundial com a sua camerazinha Brownie automática, entrega pro policial e diz: "Você tiraria uma foto de mim e da minha namorada?" Isso é um cara com senso de humor. Além disso, ele também era um cara que tinha noção de que o tempo estava passando, que estava chegando a hora dele e não faltava mais muita coisa. Mas de qualquer maneira, ele aproveitaria ao máximo. Isso é incrível nele.

Dillinger foi um marco da época dele durante a Grande Depressão. Visto que agora nós estamos vivendo uma recessão, você acha que existe lugar e momento para um Dillinger novamente, um fora da lei que ganha estatus heróico? E como um astro de Hollywood, você tem sentido a recessão, e se sim, como?

Com certeza. Ela sempre dá um jeito de entrar no seu mundo. Então claro, eu testemunhei isso em muitos níveis. Quer dizer, por sorte eu tenho sido muito, muito privilegiado e me sinto muito sortudo de estar recebendo trabalhos e que meus filhos não estão sofrendo o impacto de qualquer tipo de horror que tem acontecido hoje.

E quanto ao lugar de um novo tipo de Dillinger nessa era?

Eu não sei. Eu não sei se hoje nós fazemos a mesma espécie de indivíduo. Eu não acredito que o Dillinger tenha começado com o intuíto de matar alguém. Eu acho que ele só foi lá buscar o que ele achava que era verdadeiramente dele. Ele queria vingança. Eu acho que hoje nós avançamos tanto tecnologicamente e também emocional e psicologicamente, quer dizer, hoje tem muito crime, e muitas coisas acontecendo. As pessoas não se importam que elas vão pra cadeia. Eles não dão a mínima para as consequências. Eles vão lá e fazem o que for e não se importam se vão machucar outra pessoa. Então são tempos muito, muito diferentes. Eu não sei. Deve ter alguém por aí que quer se levantar e tentar, mas eu não sei se nós, como espécie, somos os mesmos que éramos antes.

Eu fico surpreso que você vive na França há tanto tempo e não fez nenhum filme lá. Você tem planos de fazer um filme lá? E você faz alguma coisa na comunidade onde mora?

Bom, como eu estava dizendo antes, minha agenda está meio cheia no momento, mas eu tenho planos sim de um dia fazer mais trabalhos na França. Eu fiz um filme a que eu me refiro como "O Impronunciável" de um cara chamado Yvan Attal, com a Charlotte Gainsbourg. Eu fiz um pequeno papel. Foi bem divertido fazer cenas em francês. Falando da comunidade onde nós moramos, nós fazemos algumas coisinhas na região, o que nós conseguimos, o que ajuda, mas eu passo tanto tempo em locação que eu não sei nem em que fuso-horário eu estou. Sério. Eu poderia estar em Porto Rico no momento. Na verdade eu meio que ainda estou [risos].

Você poderia falar sobre como está sendo trabalhar com as câmeras HD, o que eu imagino que é algo novo pra você? E também, você poderia falar sobre Dark Shadows e como está o andamento disso?

Dark Shadows está acontecendo. Tim está trabalhando em Alice no País das Maravilhas, que é obviamente um trabalho enorme. Então, quando o Tim terminar Alice e nós pegarmos o roteiro, algo que já está muito, muito perto, aí nós vamos atacar isso. É empolgante, muito empolgante. Tem sido meu sonho de vida.

O Sr. [Richard] Zanuck disse que você tem os direitos e que sempre foi fascinado pelo programa sua vida toda.

Eu amava o programa quando era criança. Eu era obcecado com o Barnabas Collins. Eu tenho fotos minhas com 5 ou 6 anos de idade, segurando pôsteres do Barnabas Collins. Eu estou muito empolgado em fazer esse projeto. Em relação ao HD, eu fiz um filme com o Robert Rodriguez alguns anos atrás chamado Era Uma Vez no México e era tudo em HD, foi minha primeira experiência com o formato. Uma coisa que eu tenho a dizer é que se você forçar demais acho que tem o perigo de ruído digital, ou algo assim. A qualidade é muito boa, requer muito menos luz. Então tem muitas vantagens nisso, além de que é uma fita de 52 minutos então você pode sempre continuar, ninguém precisa dizer corta. Dá pra ficar inventando até cair no sono. Tudo isso é muito bom, mas eu ainda adoro a textura do cinema. Eu adoro as camadas do cinema, seja em 35mm ou 16mm ou 8mm, super 8 que eu adoro. Eu amo a granulação. Se eu fosse filmar, eu filmaria tudo em kodachrome.

Piratas do Caribe 4 está acontecendo?

Está muito promissor. O que nós estamos tentando é arrumar um roteiro e ter a certeza que será a coisa certa a fazer. Se nós conseguirmos um bom roteiro será maravilhoso.

Algum comentário sobre a Megan Fox, que disse que quer ser sua esposa?

Depp: Ah, é? Cadê ela? Isso é muito fofo. Muito fofo.

Leia mais no Especial Inimigos Públicos



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