O Omelete esteve em Nova York e participou da coletiva de imprensa do filme O Vidente (Next) com o ator Nicolas Cage. Na conversa, ele falou da adaptação do projeto de Philip K. Dick, o trabalho com o diretor Lee Tamahori e Jessica Biel, seu tio Francis Ford Coppolla e até da sua ligação com o Motoqueiro Fantasma.
Qual foi o seu envolvimento no processo de transformação do conto "The Golden Man" no roteiro de O Vidente?
Nicolas Cage: Sou um fã do Philip K. Dick e sei que as pessoas levam muito a sério o seu trabalho. Gosto da forma como seus trabalhos se transformam em filmes. Dito isso, eu sabia que não poderia ter muito preciosismo ou acabaria afundando com toda a pressão envolvida e seu pedigree. Então, o que fazia era pensar comigo mesmo o que poderia trazer para o personagem que encaixaria com os conceitos do Philip K. Dick.
E uma das idéias que tive foi essa de ter um poder que me afastaria das pessoas. Os outros teriam medo de se associarem ao meu personagem porque achariam que eu era um maluco ou que poderia ler suas mentes, ou dizer para eles o que iam fazer antes que isso acontecesse. Então, para mim, aquele cara tinha uma existência muito solitária.
Daí veio a idéia de fazê-lo se esconder na frente de todo mundo. Fazê-lo meio um mágico lado B de Las Vegas, e assim deixar as pessoas confortáveis ao seu lado. Eles pensariam que aquilo era só uma parte dos seus truques de mágica.
Esta não era a história original de "Golden Man", mas gosto de pensar que Phillip K. Dick ficaria feliz com esta mudança. E também é um filme bastante romântico. Não era assim no começo. Quando li o roteiro, na Austrália, era uma coisa. Daí, fui trabalhar em World Trade Center e ao voltar tinha várias mudanças.
Lee [Tamahori, o diretor] é muito honesto. Ele não ligava muito para esta história de amor. Para ele, o que interessava era a ação e o drama. E eu queria incluí-la de novo. Tivemos, então, que achar uma forma colaborativa de trabalhar junto e assim encaixar as necessidades dele com as minhas. E o bom é que eu sabia que estava em boas mãos, pois ele jamais faria algo que fosse meloso demais.
Outra coisa que gostaria de dizer sobre o Lee Tamahori é que ele é muito confiante e aberto para a experimentação dos atores. Toda aquela cena da chuva de peixes na Dinamarca foi montada na hora a partir de improvisações.
Fiz isso para ajudar a relaxar o clima com a Jessica, fazer todo mundo dar risadas e se sentir confortável no set, daí o Lee veio e falou que tinha gostado muito e acabamos adotando. É muito difícil isso acontecer.
Falando do tema do filme e seu personagem que pode ver o futuro, você conhece pessoas que tiveram este tipo de experiência? Como se prepara para um papel destes?
Bom, pra começar a conversa, eu sou cético, mas ao mesmo tempo tenho uma mente aberta. Acredito que tudo seja possível. Seguindo esta idéia, eu já tive a sensação de estar sendo vigiado. Tenho certeza de que todos já passamos por essa situação de olhar do outro lado da rua e ver que tem mesmo alguém olhando para você. O que é isso? Eu não sei. É tipo quando acordamos um segundo antes do despertador tocar. Ou quando pensamos em uma pessoa e ela liga. Essas coisas acontecem com todos nós. Por isso que acho que seria irresponsável, ou melhor, ignorante da minha parte dizer que isso não existe.
E isso mudou o jeito como você encarou seu personagem?
Sim. Estava muito animado com a possibilidade de fazer um cara que tem a habilidade de ver 2 minutos no futuro. Para mim, este era o grande desafio. Achei que isso ia mudar o jeito como eu veria o mundo, como eu falaria e até como me moveria. Por isso contratei um professor de dança para vir ao set e trabalhar comigo e me ajudar a ganhar movimentos que fluíssem perfeitamente. Vinha procurando há tempos uma forma de misturar a dança moderna com a atuação em um filme e esta foi a chance perfeita. E tinha outras coisas que eu tentei incorporar, como risadas que vinham do nada, como alguém que ri de uma piada que não foi contada ainda.
Tem muitas outras maneiras de se divertir com o personagem. Uma das minhas cenas favoritas é quando tenho de me encontrar com o personagem da Jessica no restaurante. Como homem, todos já passamos por isso. Todos já vimos aquela garota linda e pensamos eu preciso conhecê-la, mas não sei como fazer isso. E se eu fizer isso e se eu disser aquilo?'
Você fica pulando de filmes independentes para projetos maiores. Isso é uma coisa consciente que você faz? Qual o seu critério na hora de escolher os papéis que você vai fazer?
Para mim, o melhor é usar estes filmes independentes como laboratório, fazer experimentos mesmo e daí ver o que você pode tentar incluir também em um grande filme depois. E é por isso que você tem de ter os dois e mantê-los vivos. Nos filmes de estúdio, não dá para ficar inventando muito, porque eles têm de conseguir a grana deles de volta. Mas fazer filmes independentes possibilita aos atores e escritores ser mais criativos.
Mas você gosta mais dos filmes independentes, que te dão mais liberdade de criar e atuar?
Bom, lá o risco de você ser mandado embora é menor (risos) Mas também faço umas maluquices em filmes maiores. Em Peggy Sue - Seu Passado a Espera, por exemplo, eu estava falando como um personagem de desenho animado dos anos 80 e quase fui mandado embora. Mas meu tio [Francis Ford Coppola] estava dirigindo o filme e conseguiu impedir que isso acontecesse. Às vezes você tem de se arriscar pelo que acha que é o certo.
Você falou do seu tio. Vocês se falam bastante, conversam sobre filmes ou bebem o vinho que ele produz juntos?
Nos últimos tempos, temos nos falado um pouco pela Internet. Nós não falamos sobre filmes. Mas recentemente foi aniversário dele e eu estava muito empolgado com este presente que tinha achado para ele, que é uma bengala de vinicultor. Era uma bengala antiga de Nova Orleans que vem com aquele monte de ferramentas que se usa no processo de fazer vinho. E ele gostou da idéia. Achou que era meio Walt Whitman [poeta estadunidense do século 19].
Essa é a primeira vez que a sua esposa [Alice Kim] participa de um filme. Como isso aconteceu? Foi uma idéia sua ou ela que pediu?
Ela não se interessa muito por atuar. Nós vimos uma possibilidade divertida para nós dois fazermos este filme e ter esta memória compartilhada, e deixar como algo que nosso filho vai poder curtir mais tarde.
Você concorda com a revista Esquire , que elegeu Jessica Biel como uma das mulheres mais sexy da atualidade?
Ela é maravilhosa de se olhar. Mas o mais importante é que ela é uma "lady". Ela é humilde, tem os pés no chão, sabe? E é muito engraçada. Tá tudo no pacote. É isso que a torna tão atraente. Não é só porque ela é bonita, ela é uma pessoa legal. E muito talentosa. Neste filme, acho que estamos vendo uma outra face dela. Ela atua de uma maneira muito macia, de uma maneira que nunca tinha visto ela fazer antes.
Devem haver personagens que você já conhecia e se identificava e outros que teve de aprender sobre ele. Em qual categoria o seu personagem neste filme se encaixa?
Bom, o Motoqueiro Fantasma é um personagem que eu conhecia como a palma da minha mão muito antes de começar a filmá-lo. No caso de O Vidente, eu entrei em crise durante os ensaios, porque o roteiro estava se transformando o tempo todo. Eu estava reescrevendo algumas cenas uma semana antes de começarmos a filmar e tentando entender quem ele era. Eu fiquei muito nervoso porque eu não sabia se ia conseguir construí-lo. E daí eu disse para o meu pai (risos) "Me sinto como se estivesse trabalhando no vácuo" e ele me respondeu "Diamantes são feitos no vácuo". E isso me ajudou!
Dos personagens que você já interpretou, qual é o que você mais se identifica?
Provavelmente o Motoqueiro Fantasma. Por mais estranho que isso soe. (risos) É que muito do personagem é resultado da minha própria vida. Eu estava literalmente comendo jujubas em um copo de Martini, ouvindo Karen Carpenter e pensando sobre esta bênção ou maldição que é o que eu faço para viver. Sim, é o Motoqueiro Fantasma.
E o filme do Motoqueiro Fantasma acabou virando um sucesso. A seqüência já está a caminho, ou antes você vai fazer a adaptação do Astro Boy?
Oh, eu adoraria fazer Astro Boy . Queria muito ser o pai. Vou ter que pedir para o meu sócio ir à Saturn Films e à Sony e falar sobre isso, porque acho que os direitos estão com eles. Aquilo é meio que o Pinóquio de ficção científica, o que é muito legal. Já Motoqueiro Fantasma depende deles acharem um bom roteiro. Vamos ver o que eles acham disso.
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