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Omelete entrevista Paul Greengrass, o diretor de O Ultimato Bourne

Cineasta indicado ao Oscar fala sobre o último longa da trilogia do espião sem memória

Steve Weintraub
23 de Agosto de 2007

O Ultimato Bourne

O Ultimato Bourne

The Bourne Ultimatum
EUA , 2007 - 111
Ação

Direção:
Paul Greengrass

Roteiro:
Scott Z. Burns, George Nolfi, Tony Gilroy

Elenco:
Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Scott Glenn, Paddy Considine, Edgar Ramirez, Albert Finney,

Excelente
Paul Greengrass
Paul Greengrass
ultimato bourne
ultimato bourne

Quão importante foi para você fazer O Ultimato Bourne e reforçar que este filme é tão politicamente relevante quanto o que tinha feito em Vôo United 93 e que vivemos em um mundo pós 11 de Setembro, com grampos telefônicos, falta de privacidade e tudo mais? Foi importante para você mostrar todas essas preocupações que sabemos que você deve ter tido?

Paul Greengrass: Quando você entra em um filme do Bourne, você entra para se divertir. Essa é a mais pura verdade. É um filme de sábado à noite. É um filme que eu veria quando tudo o que eu queria era me divertir e ter o melhor momento do meu verão. E não estou sendo irônico, estou respondendo a sua pergunta com seriedade e sinceridade. É isso, em todos os lugares, o que um filme do Bourne vai ser. Tem que ser verdadeiro ao protagonista e aos personagens com quem ele convive. Agora, o mundo do Bourne é o mundo que está do lado de fora das nossas casas. Se você abrir a porta em Nova York ou Paris ou Londres, o que você tem de acreditar é que não importa a história em que Bourne está metido, ela poderia estar acontecendo ali. Mas eu não entro em um filme do Bourne para fazer qualquer tipo de declaração. O que me atrai para este universo é que é um mundo real e me sinto confortável lá. Mas eu entrei nessa para me divertir como diretor, para me mostrar, e isso é parte do processo de filmagem de uma franquia. Você recebe a oportunidade de construir um brinquedo e trazê-lo para o meio do verão para competir com todos aqueles outros ótimos filmes que chegam ao mercado. E pelo que vimos no set, nós vamos ser os melhores. Você tem de acreditar nisso. Quando você está dirigindo um filme de uma série, você quer cuidar bem dele, porque você sabe que eles são muito, muito longos, cansativos, complexos e até frustrantes às vezes. Mas você nunca deve perder o senso de aventura. Agora, o que faz Bourne especial, acho que é o casamento de tudo isso com inteligência, com uma forma legal de contar a história, que não subestima a audiência e todos estes cenários reais e contemporâneos. Isso, para eu responder à sua pergunta, são os pingos de molho especial. Aquele pouquinho de pimenta não é o prato principal. Mas quando e saio para fazer meus filmes, eu faço do tempero a refeição toda.

Você leva o espectador a uma jornada visual. De todas as várias locações por onde vocês passaram, quais foram os maiores desafios que tiveram de enfrentar?

Cada um deles foi um terrível pesadelo. Essa é a verdade. Mas uma das coisas que gosto de dizer quando estou filmando - é meio que um mantra que eu tenho - é que onde quer que esteja o nosso problema, está a nossa oportunidade. Uma das coisas que tornam os filmes do Bourne tão empolgantes é que você vai entrar nessa jornada. De uma forma geral, esta jornada aconteceu na Europa. Agora, obviamente no seu final, ela está de volta para Nova York. Diferente de vários filmes, quando estamos em Tânger, estamos em Tânger e não em algum galpão. Isso causa uma enorme dificuldade de logística e de filmagem. Pense na enorme seqüência que filmamos na estação Waterloo, que é o mais lotado terminal em Londres, com centenas de milhares de pessoas passando por ali toda hora. Não dá pra fechar um lugar desses. Eles não deixariam e não dá pra fazer, então, o que você tem de fazer é enxergar nisso uma oportunidade, não um problema. O que você consegue em troca é uma textura de vida e uma das várias outras coisas que eu acredito como cineasta é que se você criar um set de filmagem no sentido clássico da palavra, você tem um ambiente totalmente anti-séptico. Existe um perímetro ao seu redor, você literalmente ergue um muro ao seu redor e consegue um espaço "limpo" onde pode filmar à vontade. Isso é bom, mas acho que isso te afasta do mundo real. Eu gosto de um set que tem o que está acontecendo de verdade. É mais complicado, mas o que você recebe em troca é a vibração, a energia de uma enorme estação, ou Tânger, ou Nova York e isso faz a diferença. Isso é , creio eu, parte do que faz os filmes do Bourne especiais.

Mas como você filmou em Waterloo?

Com uma enorme dificuldade! Você tem de pensar cuidadosamente como fazê-lo. O que você deve fazer é desenhar a seqüência em vários pedaços, então, na verdade, você planeja filmar em várias partes da estação. O que você deve fazer é nunca estar duas vezes no mesmo lugar, porque o que acontece é que as pessoas começam a ver que você está por ali e a aglomeração começa. É impossível fazer como se fosse uma guerrilha, porque é enorme... é um filme do Bourne… mas você tem de se mover de uma forma imprevisível, para que as pessoas não saibam onde você está e começam a ir mais rápido.

Tudo tem que ser agendado, para não ficar muito tempo por lá. Você deve ir por dois ou três dias e então desaparecer e fazer outras coisas e então voltar para mais dois ou três dias uma semana ou duas depois. Se as pessoas ficam sabendo que você vai estar lá, as pessoas começam a ficar esperando, se amontoando e isso significa um cuidado especial com os atores, porque você nunca sabe o que pode acontecer. Nem eu sabia.

Acho que em meus filmes - talvez não todos, mas O Ultimato Bourne com certeza - você tem duas forças que essencialmente estão andando em direções opostas. E estas duas forças são estrutura, ordem, planejamento, história, e tudo mais que podemos chamar de logística avançada. E do outro lado tem a força da liberdade, da improvisação, do momento, do acidente fortuito, a parte desestruturada de se fazer um filme. O que tento fazer a maior das vezes é trazer estes dois elementos o mais próximo possível. O ponto onde eles se encontram é onde um filme do Bourne deve ser feito. Isso dá um ar de algo fresco. Um filme do Bourne não é comida de avião. É algo feito na hora. Nem sempre funcional, mas é por isso que tenho ao meu lado uma equipe sensacional e, na minha opinião, a maior estrela de cinema do mundo. Ele é perfeito para o papel.

Dando uma olhada nas notas de produção, é difícil não ver uma página inteira dedicada aos dublês. Quando você pensa na cena, você vai desenhando a partir de uma cena de ação, ou primeiro pensa no todo e depois vai encaixando o trabalho dos dublês?

Como se pensa numa grande cena de ação? Primeiro é necessário ter uma visão mais ampla. Essa é a minha opinião. Acho que é muito importante quando você está vendo um filme de ação - e acho que esta é uma das razões porque as pessoas gostam dos Bourne - é que você vai prestar muita atenção em como aquilo foi feito.

Você tem que ter um motivo real para o personagem ir naquela direção. Não dá para pensar em "ok, vamos fazer uma cena de ação agora". Como se monta isso na estrutura narrativa e tudo o que está em jogo para o protagonista tem que ser muito bem pensado e cuidadosamente coreografado. Se fizer tudo certo, na hora que o público assistir àquilo, ele vai adorar, porque é o que ele estava esperando.

Entra, então, a necessidade de criar algo que seja consistente com Bourne e seu mundo. Isso quer dizer que quando ele está encurralado, não dá para ele simplesmente usar um tipo de tecnologia e sair andando, ou usar poderes mágicos, que vão fazê-lo sair por um buraco, ou transformá-lo em um super-herói e acabar com todo mundo num piscar de olhos. Você tem que pensar no processo de um cara que absorve informações em altíssima velocidade e toma decisões de como executá-las com precisão ímpar. É nisso que você tem que pensar o tempo todo quando está fazendo o filme. Toda cena de ação nestes dois filmes foram usadas para desenvolver o personagem. Se você pegar toda a seqüência em Tânger, você vai ver que Bourne se encontra em um momento difícil, em que ele teve de matar de novo. Então, quando você junta estas três coisas, acho que você consegue uma cena de ação satisfatória.

E pra falar da luta, ela é basicamente um balé violento. Pra conseguir aquilo, você precisa ter o comprometimento de que os atores vão fazer, não os dublês. Esse é o primeiro passo. Os dublês vão ajudar muito e sempre na preparação da luta. Você vai usá-los para ensaiar e preparar os movimentos dos atores e como a luta vai se desdobrar. Não dá para fazer tudo isso com o seu protagonista. Quando estiver tudo certo, os atores entram para coreografar e mudar algum movimento, dar algumas idéias. O passo seguinte é trabalhar na precisão e freqüência. É um trabalho gigantesco até que tudo fique pronto. Mas quando fica, é como uma dança. O que você procura é a tolerância entre a segurança e pessoas sendo nocauteadas.

E você conseguiu!

Eu não, eles conseguiram. E isso demandou, acredite, muita força dos dois atores um dia depois do outro. Muita demonstração de coragem - afinal, eles estão se machucando o tempo todo. É como uma luta de verdade. E tudo o que você precisa é uma confiança infindável, que você consegue com ensaios. É preciso confiar que quando o cara vier te dar um soco, ele vai ser de verdade e você tem que acreditar que quando isso acontecer, ele tem que estar na distância certa e tem que se decidir também quem está no comando da luta, porque não dá para os os dois liderarem. É incrível! Uma coisa maravilhosa de se assistir como diretor.

Houve algum tipo de argumentação sobre a cena final, no sentido de deixá-la um pouco mais ambígua?

Pra falar a verdade, não. Nem um pouco. Eu sempre estive completamente seguro de ver o Bourne saindo limpo e inteiro no fim. Acho que é porque ele é um personagem muito correto, no seu coração. Por isso que gostamos tanto dele. Ele é um cara que tem um passado negro e o renunciou e agora tenta escrever um novo capítulo de sua vida. Ele está em busca da luz. Ele é um degenerado. Ele é a gente contra eles e eles nunca vão conseguir pegá-lo. Por isso nunca quis ver o Bourne sendo capturado. Ele é o cara que fala "vocês não vão me enganar de novo. Onde estão as respostas? Vocês estão mentindo para mim!". E eu adoro isso no personagem.

Você percebeu mudanças em Matt Damon ao longo desses sete anos em que essa trilogia está sendo feita, sendo que desses, cinco anos vocês trabalharam juntos? (Greengrass entrou na série a partir do segundo filme, Supremacia Bourne. O primeiro, Identidade Bourne, foi dirigido por Doug Liman).

Acho que uma das coisas que mais me atrai e que eu realmente fico esperando por isso... é algo engraçado de se dizer, mas a última vez que eu assistirei ao filme será quando ele sair em DVD. Daí vou ver Identidade, Supremacia e Ultimato do começo ao fim - e daí chega. Sei o que eu vou ver. Vou ver meu amigo, Matt, que eu amo, mas também verei um ator maravilhoso passando por sete anos de sua vida, Bourne envelhecendo, alterando seu temperamento por sua jornada, em meio à paranóia conspiratória que é seu mundo. E acho que isso é parte do que faz o Ultimato ser um bom filme.

É muito difícil quando você faz um filme porque você espera que dê certo, você trabalha pra dar certo, você se mata pra dar certo, mas você nunca sabe. Mas acho que uma das coisas que sempre me pareceu muito poderosa no filme quando eu estava gravando é justamento o fato de Matt estar mais moderado. Ele está sete anos mais velho do que quando ele entrou no Bourne, e o personagem do Bourne sabe muito mais agora do que sabia quando foi fisgado da água no começo de Identidade, quando ele não sabia nada. Ele não sabia o próprio nome, nem que tinha trabalhado na CIA. Agora, ele passou por dois filmes e o personagem que você vê em Ultimato ainda está.... ele ainda tem o controle total de suas habilidades. Ele está na estrada, em busca das respostas para suas dúvidas, mas ele sabe que enfrenta adversários poderosos que talvez nunca seja derrotados.

De alguma maneira, Matt conseguiu expressar isso e é daí que surge essa contemporaneidade. Acho que há algo especial sobre um personagem que tem de encarar problemas imensos e desafios do mundo contemporâneo, além de ter de lidar com eles com a cabeça e com coragem, permitindo o erro, mas sempre com moralidade. Honestamente, o que eu acho é que isso é incrivelmente inspirador. Fala sobre o mundo do jeito que ele é, cheio de dificuldades, desafios, violência e, no fim das contas, se você continua lutando em direção à luz, você vai encontrar seu caminho.

Quanto de sua autoria há nos filmes? Você não fez o primeiro, mas seu estilo está tão identificado com toda a série.

Não, fazer franchises de filme é uma atividade em grupo. De verdade. A escala do processo é imensa, a logística, o financeiro, o budget, os recursos... e você tem de agir em 360 graus, em um espaço de tempo cruel, para que tudo isso funcione. Não há um autor para os filmes de Bourne. A verdade é que há uma coalizão de pessoas, que compartilham a mesma visão sobre Bourne e seu mundo. É um trabalho coletivo e colaborativo. É claro que, de vez em quando, a gente tem tremendas discussões sobre que caminho seguir. Mas é exatamente por isso que é incrível, porque nós nunca tivemos uma briga sério em um filme do Bourne - nunca. É fantástico. Essa é uma das razões pelas quais o filme vai bem, é um grande esforço em equipe.

E, por último, o que significou pra você ser nomeado ao Oscar?

Foi muito bom. Eu estava, na verdade, dentro do set do Ultimato Bourne no momento em que soube, e todos foram incrível. Isso significou muito pra mim, principalmente porque foi uma jornada que vivemos em conjunto. E é claro que pessoalmente foi uma grande honra, mas significou ainda mais porque todos se sentiram reconhecidos por essa cidade, por Hollywood. E eu acho isso fantástico.

Entrevista originalmente publicada pelos nossos parceiros do Collider

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