Depois do painel da Comic-Con 2010, o diretor Zack Snyder, a produtora Deborah Snyder e parte do elenco de Sucker Punch - Jenna Malone, Carla Gugino, Emily Browning, Vanessa Hudgens e Jamie Cheung - conversaram com a imprensa em San Diego.
O filme é o primeiro longa-metragem original do diretor de Madrugada dos Mortos, 300 e Watchmen e começou a ser desenvolvido como uma válvula de escape para ideias acumuladas pelo cineasta ao longo dos anos, inspiradas em grandes filmes dos quais ele é fã. "O filme teve início a partir de imagens e intenções visuais que eu tinha em minha mente e queria ver realizadas na tela. Essas cenas vêm de uma bagagem adquirida ao longo de toda a minha vida, de uma paixão por determinados filmes e histórias. Fui acumulando isso tudo - e parece que agora essas ideias estão querendo sair", explicou Snyder.
"A história acompanha uma garota internada em uma instituição para pessoas com problemas mentais que, para escapar daquela realidade dura, se refugia em sua própria mente. Esse refúgio possibilita as imagens mais fantásticas do filme", comentou sobre como a história se adequa às cenas que ele pretendia mostrar. "Essa parte do filme, a fantasia, é a mais fácil pra mim - bom, não exatamente fácil, mas de certa forma já está pronta na minha cabeça. Mas é engraçado que, quando assisti à primeira montagem do filme, fiquei emocionado e meio assombrado até, pelo núcleo dramático que elas criaram", disse apontando para o elenco. "Essa parte foi muito além de qualquer coisa que eu poderia ter imaginado. Ficou tão boa que o filme funcionaria sem toda a ação.... mas, obviamente, a mantive, ahahaha".
Com o público ainda sem grandes informações sobre detalhes da história e seu desenvolvimento, Sucker Punch pode parecer um tanto genérico, um típico filme de ação fetichista. Snyder, porém, explicou que a produção tem duas metades bem definidas. "Quando se trabalha tanto tempo em um filme assim, acaba-se perdendo um pouco a noção de como o mundo lá fora vai reagir a ele. Cria-se uma expectativa pela ideia mais óbvia e clichê de 'minas com metralhadoras', mas a verdade é que temos personagens fortes, bem desenvolvidas, com histórias, relacionamentos e que estão disparando aquelas armas por uma razão. Assim, a ação não explora as meninas. São as meninas que exploram a ação".
Snyder também explicou o estilo visual que buscou com Sucker Punch e como ele é adequado à essência da história. "Todas as filmagens foram realizadas dentro de estúdios. Fiz isso para acentuar a ideia de realidade fantástica. Minha intenção é que o público sinta-se sempre dentro de uma certa magia, mesmo que essa magia mude de uma hora para outra dentro do filme".
O diretor tem intenções bastante específicas para o cinema - e uma curiosa maneira de ver a Sétima Arte - que está aplicando em Sucker Punch. "Eu adoro filmes que estão cientes o tempo todo de que são filmes, que propõe uma imersão em algo diferente. Não tenho intenção de trabalhar em produções que tentam convencer o público que aquilo é real, que realmente ocorreu historicamente, por exemplo. Se você vai ver um drama de guerra rodado com a câmera na mão, sabe que ele está tentando criar uma ilusão de documentário, de realidade. Eu até me divirto assistindo-os, mas jamais conseguiria criar algo assim. Me sentiria estranho, porque, obviamente, apesar da tentativa, um filme sempre será um filme. Gosto mais dos que abraçam a ironia de que todas as cenas mostradas são falsas, de que cada sequência é composta de quadros estáticos trocados rapidamente para criar a ilusão de movimento. Não tem nada se mexendo ali... e isso é muito irônico pra mim. É tudo ilusão e não consigo me esquecer disso em momento algum. Então minha intenção é sempre brincar com isso, com essa linguagem, com o estilo - que é parte da ilusão - de forma honesta em relação a como me sinto com essa minha obsessão".
Para a atriz Jenna Malone, porém, apesar desse discurso sobre realidade e ilusão no produto final, no set a história é completamente diferente. "É incrível trabalhar em um filme dele. Para o público o filme pode parecer fantástico, mas a maneira como ele cria os cenários torna tudo absolutamente real para o ator. No bunker da Segunda Guerra, por exemplo, independente para o lado que você olhe, não há um centímetro sequer que não esteja coberto com poeira, detalhes minuciosos, um toque de fuligem... eu tive uma imersão completa nesses sets. Às vezes, no meio das batalhas, era tudo tão absolutamente real que nem parecia uma fantasia. Era algo muito mais próximo do cinema veritè, autêntico como se aquilo realmente estivesse acontecendo. Para o ator é muito fácil se perder ali", explica.
A produtora Debbie Snyder complementa a impressão de Malone lembrando que as camadas fantásticas do filme finalizado começaram já na criação dos cenários, o que ela acredita reforçar a ideia da atriz. "Mesmo nos cenários nós temos camadas de fantasia. Primeiro rodamos todas as cenas no hospital, por exemplo. Depois pintamos todos os cenários e usamos a mesma geografia e disposição das coisas para o bordel. São os mesmos corredores, o ginásio tornou-se o teatro... fica mais fácil fazer a transição".
O elenco também aprecia o fato de que nos dois mundos distintos - o real e o mental - elas não precisam atuar como personagens distintas, mas apenas explorar de maneira mais acentuada determinados sentimentos preexistentes.
"Na parte fantástica do filme as personagens de certa forma têm suas características principais aumentadas, então a atuação precisa acompanhar sutilmente isso", explicou Carla Gugino. "O bordel é uma realidade aumentada e foi muito interessante experimentar isso. Como um exemplo, no hospital há uma terapia através da música - já no bordel a psiquiatra, Madame Gorsky, torna-se uma coreógrafa. A música existe nos dois universos, mas de maneiras distintas".
Jenna Malone lembrou ainda que as mudanças ocorrem mais perceptivelmente em relação ao visual. "O que é mais interessante do roteiro é que estávamos vivendo as mesmas personagens. Mas usando uma qualidade tão maravilhosa do cinema, que é o visual, pudemos fazer o interior das personagens aflorar em suas imagens no mundo onírico. Não apenas pudemos explorar o aspecto físico do que significa ser uma mulher nesse lugar, mas também revelar os demônios interiores de cada uma dessas personagens. Seus problemas ou limitações físicas podem ser manifestados ali na forma de desafios a serem enfrentados. Vivemos as mesmas personagens, mas versões aumentadas delas, nesse lugar em que tudo o que você pensa de si mesma pode se tornar algo real. Foi muito empolgante se aprofundar dessa maneira nessas personagens".
Snyder também falou ao Omelete sobre a possibilidade de realizar um caminho contrário ao que está habituado com o filme. Se os seus dois últimos projetos foram versões para o cinema de obras consagradas da Nona Arte, será que desta vez suas ideias originais nas telas podem encontrar versão nos quadrinhos, games ou outras mídias? "Conversamos muito sobre isso, mas com as minhas adaptações de quadrinhos eu sentia que a grande parte das pessoas, ou pelo menos os fãs, já sabiam tudo o que ia acontecer. Se uma cena idêntica à HQ aparecia na tela, alguém pensava 'olha, é igualzinho ao original'... então eu prefiro desta vez que o público tenha surpresas. Sucker Punch pode até virar uma graphic novel em algum momento, mas não antes do filme sair. Quanto aos videogames, optei por não fazer porque simplesmente não teriamos tempo para criar um que fosse legal pra caramba - e esse erro eu já cometi no passado", disse, referindo-se aos péssimos jogos baseados em 300 e Watchmen.
O cineasta encerrou a conversa falando sobre a Comic-Con e a aceitação que seus projetos encontram em San Diego - algo que às vezes não encontra reflexo nas bilheterias, como aconteceu com Watchmen. "Eu não mudaria nada do que fiz em Watchmen. Algumas pessoas reclamam que ele não fez o dinheiro que deveria ter feito, mas se era pra fazer o filme, só havia aquela maneira de fazê-lo. Não faria um Rorschach mais fortão, ou coisas do tipo, só para tornar a adaptação mais popular. A reação que o filme teve aqui na Comic-Con foi incrível, mas ele não teve esse mesmo impacto fora. Esse público é o fã de verdade, gente que quer ser impressionada por imagens, que gosta de saber detalhes dos projetos. Para mim, poder trazer Sucker Punch a San Diego é uma maneira de usar esta multidão como se fosse uma sala cheia dos meus amigos. É o que faço em casa, "dá um pulo aqui, venha ver esse troço ridículo que eu fiz", mas para 6 mil amigos. Esse público entende exatamente o que estou tentando fazer. É muito satisfatório. Não sei o que vai acontecer com o filme, mas a experiência de partilhá-lo aqui é ótima".
Para Debbie Snyder, existe uma enorme honestidade em San Diego. "Tudo o que eles pedem é que sejamos honestos de volta. Enrolação não funciona com este público - eles são muito mais espertos que isso", completou.
Sucker Punch estreia em 25 de março de 2011 nos EUA. O Omelete publicará entrevistas exclusivas com o elenco e equipe mais perto do lançamento. Fique de olho!
O Omelete visitou o set do filme - confira o que vimos por lá.
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