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Os Donos da Noite

Policial reafirma James Gray como um dos melhores diretores "clássicos" hoje em dia

Marcelo Hessel
14 de Novembro de 2007

Os Donos da Noite

Os Donos da Noite

We Own the Night
EUA , 2007 - 117
Policial

Direção:
James Gray

Roteiro:
James Gray

Elenco:
Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes

Excelente
donos da noite
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donos da noite

Segundo os parâmetros de hoje em dia, é difícil explicar como o cineasta James Gray é bom no que faz. Ele não filma com filtros afetados, fotografia exótica, longos planos-sequência, não fica se exibindo com a câmera na mão, cortes clipados, nem procura contar histórias de trás pra frente. Em resumo, Gray não tenta chamar atenção - ao contrário de muitos dos seus pares considerados novos gênios de uns anos pra cá.

Não é por acaso que o seu terceiro longa-metragem, Os Donos da Noite (We own the Night, 2007), esteja sendo vinculado pela crítica a um tipo sisudo de cinema policial que era feito em Hollywood até os anos 70. James Gray é um narrador da linha clássica, de Robert Aldrich a Don Siegel, nomes de um tempo em que os cineastas contratados pelos estúdios por sua competência de executores não eram ainda autores-celebridades enquadradas em slogans, wizkids, enfant terribles...

Dito isso, é possível que você encontre por aí textos criticando os "clichês" de Os Donos da Noite, como se arquétipos - o filho renegado que retorna ao núcleo familiar, o filho sem vocação que se manteve nele por respeito ao pai... - fossem sinônimo de má construção de personagens. Não se engane: não só os personagens como as situações todas do filme são construídas por Gray com um rigor e uma austeridade que hoje em dia a Hollywood verborrágica não comporta mais.

Um exemplo é a cena em que Bobby (Joaquin Phoenix) visita seu irmão caçula Joseph (Mark Wahlberg) no hospital. A câmera entra no quarto, acompanha Bobby, mostra a cunhada, mas não vemos Joseph - até a hora em que Bobby se aproxima da cama. A câmera faz um único movimento em close para mostrar os dois ao mesmo tempo - e nosso impacto ao ver o rosto de Joseph é dividido com Bobby. Construir sentidos assim, com a simplicidade de um plano bem pensado, um plano sem espalhafato, é a beleza do cinema clássico, uma beleza que James Gray demonstra dominar.

Bobby chegou a essa dramática condição por não prever que seus interesses eram conflitantes. De um lado, ele gerencia uma casa noturna em Nova York onde a máfia russa dá as cartas. Estamos nos anos 80, e o tráfico na cidade virou uma guerra armada entre os russos e a polícia. Joseph é policial, assim como o pai, Burt (Robert Duvall). Bobby renega a família a ponto de adotar o sobrenome da mãe na hora de trabalhar na boate. Acontece que a máfia está com Joseph e Burt na mira. Bobby precisa decidir então se deve respeito aos seus contratantes ou se protege os do seu sangue.

É um dilema algo existencial e definitivo, com o de um Michael Corleonne, optar em um momento de crise por que tipo de homem você será para o resto da vida. Joaquin Phoenix dá conta da complexidade do personagem, mas no mesmo tom sem oscilações da condução de Gray. Não é nos arroubos de interpretação que um personagem como Bobby nos convence, mas nas situações em que se insere. E aí destacam-se, entre muitas, as cenas da perseguição na chuva (acompanhada do som abafado dos limpadores do pára-brisa) e do clímax no trigal incendiado. Os Donos da Noite é um filme belo.

Belo a ponto de exigir que voltemos a ver Fuga para Odessa e Caminho sem Volta (este último também com Wahlberg e Phoenix), os dois primeiros filmes de James Gray, um talento a ser acompanhado.


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