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Pelos Meus Olhos

Drama-de-mensagem contra a violência doméstica começa bem e termina reduzido à... mensagem

Marcelo Hessel
28 de Agosto de 2008

Pelo Meus Olhos

Pelo Meus Olhos

Te Doy Mis Ojos
Espanha , 2003 - 106
Drama

Direção:
Icíar Bollaín

Roteiro:
Alicia Luna, Icíar Bollaín

Elenco:
Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa Maria Sardà, Sergi Calleja, Elisabet Gelabert

Bom
pelos meus olhos
pelos meus olhos

Não há no Brasil uma tradição de prestigiar os filmes vencedores do Goya, o "Oscar" espanhol. Em 2004, Pelos Meus Olhos (Te Doy Mis Ojos, 2003) venceu sete das oito categorias em que concorria, incluindo melhor filme e melhor direção. A organização da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tentou trazê-lo na época, mas não conseguiu.

E aí se passaram quatro anos. Agora o filme do diretor Icíar Bollaín chega ao circuito com cara de refugo, para tapar buraco, mas o fato é que se trata de um drama-com-mensagem que tem potencial para se conectar com uma boa parcela do público, independente do atraso.

A mensagem, no caso, é um alerta contra a violência doméstica. Certa noite, Pilar (Laia Marull) junta algumas roupas, pega seu filho e sai de casa desabalada, a pé. Quando chega na casa da irmã, em choque, só consegue dizer que se esqueceu de pôr os sapatos. O que fez essa mulher fugir no meio da madrugada de chinelos? Rapidamente descobrimos: a agressividade de seu marido, Antonio (Luis Tosar).

A primeira metade do filme justifica os prêmios. Isso porque o diretor Bollaín coloca essa história típica de Supercine em um contexto muito particular, que é a sociedade machista e patriarcal de Toledo, interior da Espanha, onde a trama se passa. É uma situação complexa essa em que se encontram esposas agredidas - de um lado há o medo, do outro o anseio de dar segundas chances. O caso de Pilar é ainda mais agudo: o mundo ao seu redor lhe martela na cabeça que mulher só vive em função do marido.

Bollaín encontra soluções visuais muito interessantes para ilustrar esse cabo-de-guerra que é a tentação de Pilar de voltar para os braços de Antonio. Um exemplo é o primeiro encontro dos dois, na própria noite da fuga, através da janela da porta (e aí vale também o talento de Marull e Tosar, ambos laureados com o Goya). Outra é a cena da transa, em que a vista da janela dá direto para a igreja da cidade. Igreja essa que é um dos componentes pressionando Pilar, inconscientemente, a se decidir "pelo bem" do seu casamento.

É uma pena que essa narrativa quase neo-realista, em que os coadjuvantes da família desempenham papel importante na tomada das decisões, seja cada vez mais didatizada em função da mensagem que Bollaín quer passar. Se do seu lado Pilar passa por todo um processo de interiorização, do outro Antonio discute o problema abertamente com um psicólogo - e essas cenas de aconselhamento são de um utilitarismo atroz.

A partir da metade do filme, o diretor deixa de lado a complexidade (basta a cena do café com as companheiras de trabalho para Pilar "perceber" que está se deixando seduzir), flerta com o maniqueísmo e corre para fechar o conflito. A "mensagem" soterra aquela delicada relação construída no começo. Não por acaso, a evasiva escolha final do diretor tem a ver com a decisão final de Pilar.


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Comentários (1)

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sem avatar Mari (30/03/2011 05:44:25)   0 0
Icíar Bollaín é uma diretora. Mulher.




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