Assista Agora

Pina | Crítica

Wim Wenders recria, em 3D, expressividade da coreógrafa Pina Bausch

Natália Bridi
22 de Março de 2012

Pina

Pina

Alemanha, França, Reino Unido , 2011 - 103
Documentário

Direção:
Wim Wenders

Roteiro:
Wim Wenders

Elenco:
Pina Bausch, Regina Advento, Ruth Amarante, Rainer Behr, Andrey Berezin, Damiano Ottavio Bigi, Bénédicte Billet, Ales Cucek, Damiano Ottavio Bigi

Ótimo
pina5
pina4
pina2

Eles se conheceram em 1985. Depois de muito insistir, a namorada de Wim Wenders conseguiu convencê-lo a assistir um espetáculo de dança do Tanztheater Wuppertal. Foi o suficiente para o cineasta apaixonar-se por Pina Bausch e sua mistura de dança, teatro, arte e vida.

Por mais de 20 anos, Wenders e a coreógrafa planejaram levar este mesmo encanto ao cinema, em um filme que transmitisse toda a intensidade da companhia de dança contemporânea. Dois dias antes de começaram as filmagens do documentário em 3D, em 30 de junho de 2009, veio a notícia: aos 68 anos, vítima de um câncer fulminante, falecia a bailarina. Passado o luto, Wenders decidiu seguir com o projeto. Agora não mais como um documentário, mas como um tributo. Um filme para Pina, como descrito nos créditos iniciais. O diretor então gravou os espetáculos A Sagração da Primavera, Vollmond e Café Mülle, mesmo sem saber que forma daria ao filme, apenas buscando registrar o toque da coreógrafa ainda fresco nos movimentos de seus dançarinos.

O longo período entre a ideia e concretização do filme não foi em vão. Segundo Wenders, não havia como catalisar a expressividade do trabalho da bailarina. A resposta veio com o boom da tecnologia 3D, em 2008. Aonde proclamava-se futuro da animação digital e do cinema comercial, o diretor viu - assim como Werner Herzog em A Caverna dos Sonhos Perdidos - o meio pelo qual transformaria o cinema em uma experiência sensorial, onde a tela ganharia textura e aproximaria o filme do espectador. O 3D de Pina é elegante. O movimento dos bailarinos ganha profundidade, volume, leveza. Na sequência de A Sagração a Primavera, por exemplo, releitura para o clássico balé sobre uma jovem que deve ser sacrificada como oferenda ao deus da primavera, a câmera diagonal coloca o espectador em meio às idas e vinda dos bailarinos, no fluxo da composição homônima de Stravinsky. O palco coberto de terra torna-se palpável. Agitação e movimentos bruscos refletem a dor e angústia da jovem sacrificada. Um momento arrebatador.

Foi apenas na segunda parte das filmagens, entre abril e junho de 2010, que Wenders definiu a (não) estrutura da sua homenagem. Como em um fluxo de consciência, surgem os espetáculos consagrados e os bailarinos do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. Não existem entrevistas ou depoimentos diretos. Os únicos testemunhos surgem em off, sobre imagens dos bailarinos posando para um retrato, onde Wenders busca percorrer os espaços das suas mentes quando em silêncio, como se estivessem pensando em Pina. Essas reflexões sobre o trabalho e vida da coreógrafa vêm acompanhadas, é claro, de dança. Em contraste com os espetáculos apresentados nos palcos, tributos individuais invadem os espaços urbanos - ruas, parques, espaços de concreto, de vidro, escadas rolantes, um trem suspenso, um túnel (decorado com os grafites dos Gêmeos) -, como o da brasileira Regina Advento, há 20 anos na companhia de Bausch, que sobre um gramado salta em cadeiras e oferece a leveza do movimento a sua mentora.

Os "pensamentos" também são um retrato da pluralidade da companhia, oferecidos no idioma de origem dos seus integrantes: português, alemão, francês, japonês... Seus diferentes traços aparecem visivelmente em Kontakthof, coreografia bem-humorada e de movimentos minimalistas que opõe homens e mulheres, jovens e velhos, ao mesmo tempo que cria harmonia entre as etnias e idades de seus bailarinos. Plural é também a trilha que embala as danças, passando de Stravinsky ao "Leãozinho" de Caetano Veloso. Tudo reflexo da criatividade ilimitada de Pina, que transformava a cenografia - feita de terra, água, mesas e cadeiras - em parte atuante do espetáculo.

Para quem em vida foi imortalizada por Federico Fellini, como a princesa Lherimia de E La Nave Va, e por Pedro Almodóvar (a coreografia de Café Mülle é apresentado já nas primeiras cenas de Fale com Ela), receber uma homenagem póstuma de um cineasta como Wenders é apenas coerente. Muito além do seu papel como diretor, contudo, Wenders constrói o filme com respeito de amigo e admirador, perpetuando a força e os movimentos da coreógrafa, levando a dança, o teatro, a arte e a vida de Pina ao mundo.

Pina | Cinemas e Horários


Compartilhar

Comentários (9)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

Felipe Felipe (11/11/2012 22:14:40)   3 0
Sinceramente? Não gostei tanto. Valeu pela homenagem a Pina Bausch, gosto muito de dança contemporânea, expressões corporais, etc. Faltou aquela empolgação, não senti.



Felipe Felipe (06/04/2012 17:00:57)   20 0
Nossa que filme lindo, a dança de Pina Bausch em 3D e do modo que foi decupada, ficou simplesmente lindo. Emoções a flor da pele, poder sentir de tão perto o espetáculo das danças da Pina foi único. Junto com Hugo, foi o melhor 3D que eu já vi. Depois deste filmes e de Hugo estou começando a ver um futuro real para o 3D, estou vendo ele deixar de ser apenas uma nova tecnologia e ver ele se agregar como expressão artística(como sempre acontece no cinema, só que o 3D estava demorando).



sem avatar Giovana (24/03/2012 12:15:45)   1 0
Bela crítica. Acho que merecia 5 ovos, não só pela pessoa 'homenageada', mas pelo filme sensível de Win Wenders.
Em relação à crítica, só uma observação: O Tanztheater Wuppertal (o filme se atém à vida dela dentro da companhia) não se limita à dança contemporânea, como mencionado. O termo 'tanztheater'(dança-teatro), no qual Pina foi uma das precursoras no Ocidente, dá a ideia de fusão das linguagens artísticas, não abrindo espaço, na opinião, para distinções.

[Eu lembro que estava na 5ª fase de Artes Cênicas quando cursei 'Técnicas de Dança' e a professora nos mostrou uns vídeos da Pina Bausch. Eu fiquei profundamente tocada. Desde então, tenho assistido os espetáculos da companhia toda vez que eles vêm ao Brasil. Nunca esqueço a primeira vez! Dois meses depois que Pina faleceu, eu assisti à uma apresentação em São Paulo (essas apresentações são marcadas com meses de antecedência, e o grupo manteve a agenda), no momento dos agradecimentos, no qual ela sempre estava presente, os bailarinos, ofegantes pela apresentação de 'A Sagração da Primavera', não sorriam...]



sem avatar Cleidson (24/03/2012 10:37:12)   1 0
Que linda crítica também, parabéns à Natália Bridi!



sem avatar rosa (23/03/2012 22:41:28)   1 0
Arrebatador!passei horas no dia seguinte buscando vídeos de Pina no youtube e já querendo ir ao cinema de novo rever esse trabalho pleno de criatividade e beleza.



Marcos Marcos (23/03/2012 12:46:59)   129 0
Que tal, não aprovaram meu comentário corrigindo o "pousando".

Enfim, um Wim Wenders é essencial e Pina Bausch merece um tributo a altura da artista que foi.



sem avatar Santos D. (22/03/2012 22:33:22)   960 0
Faz tempo que Wim Wenders está devendo um grande filme.
Eu acho que depois de Asas do Desejo(1987), o unico trabalho mais notável na filmografia dele é o elogiado documentário Buena Vista Social Club(1999).
E agora com um novo documentário ele consegue voltar a produzir uma obra elogiada.
Porém fica devendo ainda um grande filme com atores.


sem avatar Leonardo (23/03/2012 10:24:15)   -7 0
Santos, eu colocaria como um bom filme de Wenders o praticamente ignorado Até o Fim do Mundo...

sem avatar Santos D. (23/03/2012 18:06:48)   960 0
Leonardo, eu até achei esse filme razoável mas ele passa longe de ser aquele grande filme que o Wenders está devendo desde o final dos anos 80 quando estava no auge.



Cinema

Os filmes em cartaz, a programação das salas de cinema, bilheterias, trailers, criticas de filmes, cartazes, entrevistas com astros e as novidades de Hollywood.

Séries e TV

As séries de televisão dos EUA, minisséries, os destaques da TV e as novidades na programação.

Música

Os shows que vem por aí no Brasil, os lançamentos musicais, novos álbuns e música grátis para download.

Games

Os novos games, críticas de jogos, trailers, imagens e mais novidades do mundo dos videogames.

Quadrinhos

As novidades das histórias em quadrinhos no Brasil e no mundo, previews de HQs e críticas de lançamentos nas bancas e livrarias.