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Retratos de família

Retratos de família

Érico Borgo
11 de Maio de 2006

Retratos de Família
Junebug
EUA, 2005
Drama - 107 min

Direção: Phil Morrison
Roteiro: Angus MacLachlan

Elenco: Amy Adams, Amy Barefoot, Annette Beatty, Matt Besser, Beth Bostic, Jamie Castlebury, Carrie Daniel, Embeth Davidtz, Jeffrey Dean Foster, Katherine Foster, Teresa Fowler, Alessandro Nivola, Scott Wilson, Will Oldham, Benjamin McKenzie

Enquanto Hollywood - com raras exceções - emburrece cada vez mais, numa autofagia explosiva de idéias que privilegia refilmagens, continuações e adaptações; seu primo pobre, o cinema autoral independente, fica cada vez mais maduro e interessante.

Retratos de família (Junebug, 2005) é excepcional exemplo dessa balança desequilibrada. Um drama cômico extremamente simples, mas que explora com competência o sentimento de inadequação pelo qual tantos de nós passamos em algum momento da vida.

O recado é dado logo no início de forma brilhante. No meio do mato, cantores "hollers" (uma espécie de música sulista que lembra os tiroleses centro-europeus), que não têm absolutamente nada a ver com a trama, enchem os pulmões e entoam suas estranhas canções, gerando imediatamente uma estranheza exótica e ao mesmo tempo fascinante.

Deve ser exatamente isso o que sente a marchand Madeleine (Embeth Davidtz) quando segue até o interior do estado da Carolina do Norte para encontrar um artista excêntrico e aproveitar para, finalmente, conhecer a família de seu marido. Linda e antenada filha de diplomatas, ela tem sotaque britânico, nasceu no Japão e mora na cosmopolita Chicago, onde é dona de uma galeria especializada em arte transgressora.

Seu estilo de vida contrasta de maneira gritante com o dos parentes de George (Alessandro Nivola), seu marido. A mãe (Celia Weston) não gosta de forasteiros e parece incapaz de sorrir. O pai (Scott Wilson) vaga pelo porão cuidando de seus hobbies e fala pouco. O rancoroso irmão mais novo, Johnny (Benjamin McKenzie, excelente - nem parece o garoto da série The O.C.), trabalha como empacotador e largou a escola quando sua namorada, Ashley (Amy Adams), ficou grávida. E, claro, há o próprio George, que após três anos sem pisar em sua terra natal parece tão hipnoticamente perturbado que some durante boa parte do filme... até ser necessário à família.

As interações, ora levemente cômicas, ora tristes, como o próprio filme, nunca parecem exageradas ou falsas, já que o diretor estreante Phil Morrison soube reunir um elenco sensacional. Os personagens surgem reais mesmo nos casos mais estapafúrdios, como a fascinada e inocente tagarela Ashley, cuja interpretação rendeu até uma merecidíssima indicação ao Oscar para Amy Adams (uma de suas cenas, com ela sozinha na cama dói como uma faca atravessando o peito).

Um diálogo entre Madeleine e seu sogro exemplifica esse estilo de atuação. "Ela tem personalidade forte", diz a moça - educadíssima - sobre a sogra. "Ela é assim mesmo. Se esconde. Não é assim por dentro", e completa, "... como a maioria".

A opção pela narrativa descentralizada, na qual fica difícil identificar-se com um personagem específico, também é louvável, bem como a excelente utilização de econômicas elipses e a contemplativa câmera que passa às vezes segundos sem mover-se, congelada no tempo à espera de acontecimentos em quadro. A estética potencializa assim as poderosas observações sobre a família e a vida que o diretor propõe.


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