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Vicky Cristina Barcelona

Woody Allen descomplica o amor por lhe aceitar a irracionalidade

Cíntia Bertolino
24 de Outubro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Vicky Cristina Barcelona

Vicky Cristina Barcelona
Espanha / EUA , 2008 - 96
Comédia / Romance

Direção:
Woody Allen

Roteiro:
Woody Allen

Elenco:
Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Javier Bardem, Christopher Evan Welch, Chris Messina, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Julio Perillán e Josep Maria Domènech

Ótimo
penélope cruz
scarlett johansson
woody allen

Na cena final de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), Woody Allen lembra uma piada antiga. Um homem diz a um psiquiatra: "Doutor, meu irmão é maluco, ele pensa que é uma galinha". O médico diz: "Então, porque você não o interna?". Ao que Allen responde: "Bem, eu o internaria, mas acontece que preciso dos ovos". À piada segue uma pequena, porém brilhante, reflexão: "Assim é como me sinto sobre relacionamentos, eles são completamente irracionais, malucos, absurdos, mas continuamos, insistimos porque a maioria de nós precisa dos ovos".

Absolutamente coerente com a "filosofia dos ovos", depois de tantos anos esmiuçando os paradoxos do romance, Woody Allen ainda tem muito o que dizer sobre a irracionalidade, a maluquice, os absurdos de um relacionamento amoroso.

Vicky Cristina Barcelona tem esse mesmo leitmotiv. Mas o tratamento aqui é outro. Há uma leveza maior sem, no entanto, banalizar ou simplificar as emoções dos personagens. Talvez o tempo tenha amenizado a angústia e o diretor e roteirista tenha compreendido que algumas coisas nem sempre podem ser analisadas de forma racional e cartesiana. Às vezes, nem um analista ajuda.

Isso parece ser dito na abertura do filme. E é dito de forma alegre, quase descompromissada, graças à saltiante música-tema "Barcelona", de Giulia & Los Tellarini, que pergunta: "Por que tanto perde-se/Tanto buscar-se/Sem encontra-se?".

Vicky Cristina Barcelona acompanha duas amigas de férias na capital catalã. Vicky (Rebecca Hall) é centrada, prática. Cristina (Scarlett Johansson) é o oposto: impulsiva, meio-artista. Em Barcelona, no verão, as duas visitam os cartões postais da cidade, vagueiam pelas ruas ensolaradas e numa noite conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor que teve um divórcio conturbado da mulher, Maria Elena (Penélope Cruz), linda - e maluca.

O encontro entre as garotas e Juan Antonio parece dizer ao público: "bem, agora sim elas chegaram a Barcelona". Agora, sim, o filme começa. E é o que de fato acontece. Surgem então as observações espirituosas, o humor e as idiossincrasias tão caras ao diretor. Enquanto um personagem se questiona se o amor autêntico é o que dá sentido à vida, outro pergunta com afetação a um casal de amigos se eles têm idéia de quanto custa um tapete oriental.

Como diria um especialista em metafísica transcendental que não acredita na conquista da Lua, o mundo pode ser dividido justamente assim. Entre os que querem saber o que dá sentido à vida e os que se importam verdadeiramente com o valor de mercado de uma bela tapeçaria.

Se valeu a pena a cidade de Barcelona ter investido dinheiro no projeto de Woody Allen? Indiscutivelmente. Vicky Cristina Barcelona é um dos filmes de verão mais charmosos dos últimos anos. E prova que não é preciso muita elucubração intelectual para absorver a cidade, sua estética, seu espírito. A beleza dela - assim, sem filtros, com todos os temperamentos catalães que tem a extravasar - está à distância de um toque.

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Comentários (2)

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edgar edgar (16/05/2011 18:08:05)   140 1
"peitos da scarlet Johanson..."

2 ovos.



sem avatar Valdeci (09/07/2010 10:11:17)   2 1
Ao assistir ao filme Vicky Cristina Barcelona, com roteiro e direção de Woody Allen foi impossível não fazer um paralelo com a obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Claro que a opção de Almodóvar não seria aquelas cores “frias” e neutras que Allen utilizou nos figurinos, cenários e ambientes naturais apesar do filme ter sido rodado em Barcelona. A trilha sonora com fundo do violão fantástico de Paco de Lucia na obra “Entre dos Aguas” talvez tenha contribuído para esta comparação cinematográfica entre os dois diretores que, aliás, não possuem nada em comum, exceto claro a genialidade e sensibilidade para contar histórias humanas. Demasiadamente humanas.

Além da excelente trilha sonora e da colorida e quente Barcelona os personagens ambíguos em seus sentimentos, o amor passional e quase destrutivo de Maria Helena e o triângulo amoroso improvável entre Vicky, Cristina e Juan Antonio deu-me a impressão de tratar-se de uma obra do cineasta Almodóvar. Até mesmo o humor sarcástico e exageradamente humano dos personagens contribuiu para esta comparação. Mas vamos deixar Almodóvar de lado porque se trata de uma obra de Woody Allen.

Vicky está fazendo sua pesquisa de mestrado sobre a cultura catalã e leva sua amiga Cristina a Barcelona para concluir seus estudos na Espanha e lá conhecem o pintor Juan Antonio que está em uma separação muito tumultuada com sua ex-mulher Maria Helena. Após um jantar Juan convida as duas amigas a conhecerem a cidade de Oviedo e quem sabe um fim de semana de muitas atrações turísticas e encontros sexuais. Claro que a recatada e noiva Vicky se escandaliza com tal convite o que é de pronto convencida a aceitar a tal proposta pela despachada e liberal Cristina. Assim, o trio parte para uma aventura de grandes possibilidades e talvez encontros calientes com o tal Juan Antonio em cenários históricos, culturais e gastronômicos de uma Espanha efervescente e libidinosa. Na primeira noite na cidade Cristina passa mal após o jantar e acaba ficando de cama durante alguns dias em razão da sua úlcera. Para aproveitar o tempo e não perder a oportunidade de conquista Juan leva Vicky a passeios turísticos por Oviedo e também para conhecer sua família e os lugares por onde ele andou na infância e tudo mais. Assim, inesperadamente e, apesar da relutância de Vicky ambos acabam na cama. Este fato irá desencadear outras situações já que Cristina, após recuperar a saúde passa a morar com Juan Antonio.

O tempo vai passando e de repente Maria Elena surge como um furacão novamente na vida do seu ex-marido aparecendo assim um triângulo amoroso a princípio dos mais perigosos, mas que acaba tornando a vivência um tanto quanto caliente e diversificada visto que todos se relacionam sexualmente. Nada muito explícito visto que no filme assistimos apenas alguns beijinhos entre Elena e Cristina. Enquanto isso Vicky vai levando sua vida normalmente com seu noivo com o coração na mão e a mente no amante espanhol. De repente o triângulo vira um quadrado amoroso dos mais improváveis até o desfecho mais improvável ainda.

Penélope Cruz na pele de Maria Elena é um deslumbre que ilumina as cenas toda vez que aparece com seu personagem passional e dos mais críveis neste círculo de pessoas um tanto quanto formais. Scarlett Johansson como a sensual e provocativa Cristina deixa seu recado com competência apesar de seu personagem ser um tanto quanto ambígua em seus sentimentos e objetivos de vida. Rebecca Hall como a “certinha” do grupo não compromete com sua paixão avassaladora pelo amante. Javier Bardem como o galante e conquistador Juan Antonio cumpre com competência sua função de macho dominador, conquistador e aglutinador destas três mulheres tão dispares entre si. Por fim vale ressaltar os cenários de uma Barcelona histórica, cultura e a beleza da sua natureza exuberante. Quanto à direção de Woody Allen pareceu-me que ele tenta fazer um filme mais europeu e “comercial” para atrair público ao cinema já que nos Estados Unidos seu cartaz está um tanto quanto em baixa. De qualquer forma Woody Allen é sempre um prazer de assistir.

meu blog: htt://maisde140caracteres.wordpress.com




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